Laura Bush vai à luta pelas mulheres afegãs

Uma primeira dama à antiga, que até agora se limitara a usar a visibilidade de sua posição para falar sobre temas tradicionalmente associados às mulheres, como a educação, Laura Bush passou à linha de frente na guerra contra o Taleban. No último sábado, ela se tornou a primeira esposa de um presidente americano a encarregar-se do discurso radiofônico semanal que o líder dos EUA transmite ao país. Um ex-professora e ex-bibliotecária cujas opiniões sobre assuntos que interessam às mulheres não necessariamente coincidem com as de seu marido - ela é mais liberal do que ele na questão do aborto, por exemplo - , Laura Bush foi mobilizada pela Casa Branca para denunciar o tratamento bárbaro das mulheres afegãs sob o regime do Taleban. "Por causa de nossos ganhos militares recentes em várias partes do Afeganistão, as mulheres não são mais prisioneiras em suas próprias casas", disse a primeira dama americana. "Elas podem ouvir música e ensinar suas filhas sem medo de punição". Os ?terroristas que assumiram o controlel do Afeganistão? durante o regime do Taleban precisam ser contidos e derrotados onde quer que estejam, disse a sra. Bush. "A luta contra o terrorismo é também uma luta pelos direitos e pela dignidade das mulheres".Altos funcionários da administração disseram que o discurso da primeira dama é um símbolo crucial da campanha global dos EUA contra um inimigo que tem uma predileção especial por oprimir as pessoas do sexo feminino. A campanha foi reforçada no domingo pela publicação, no site do departamento de Estado, de um relatório de nove páginas que denuncia o uso do Islã como justificativa para negar direitos e liberdades mínimas às mulheres. O presidente George W. Bush já falou publicamente sobre o assunto, insistindo que o futuro governo do Afeganistão seja não apenas abrangente e multiétnico, mas reserve também um espaço de representação para as mulheres do país. Mas não é apenas a destruição do Taleban e a emancipação das mulheres afegãs que servem de inspiração à Casa Branca. Há, também, um objetivo de política interna por trás do esforço da administração Bush. O detalhe não escapou a Maureen Dowd, a ferina colunista do New York Times. "É claro, eles (na administração) também querem impressionar as mulheres americanas, que preferiram" (o ex-vice presidente Albert) Gore a Bush por 11% (na eleição de novembro do ano passado)?, lembrou. "É uma maneira fácil de impressionar feministas que ficaram bravas quando a administração cortou o financimento para grupos internacionais de planejamento familiar que apóiam o aborto", escreveu ela. Além de pressupor que o tratamento das mulheres do Afeganistão melhorará de forma significativa sob um novo regime, o que precisa ainda ser provado, o uso político de sua "libertação" do Taleban não necessariamente renderá votos para Bush e poderá criar-lhe novos problemas. "Essa tardia promoção das mulheres como uma força modernizadora e moderadora no mundo islâmico soa oca", afirmou Dowd. Ela lembrou que, dez anos depois de o ex-presidente George H. Bush, o pai do atual líder americano, ter "libertado" o Kuwait dos invasores iraquianos, as mulheres kuwaitianas continuam a não ter o direito de votar ou de pedir o divórcio. Na Arábia Saudita há 5 mil príncipes mas não se ouve falar das princesas. A família real, com quem Washington e os Bushes - pai e filho - mantêm relações antigas e estreitas, financia escolas findamentalistas islâmicas em vários países. Além disso, o regime de Riad mantém uma polícia religiosa que tem, entre outras atribuições, a de dar chibatadas nas mulheres que ousam sair de casa sem as "abayas", a cobertura negra que usam. As mulheres sauditas não podem casar-se fora de sua religião. Os homens podem. Elas também não podem pedir divórcio sem motivo, o que é permitido aos homens. Quando saem à rua, devidamente escondidas atrás de suas abayas, só podem andar no banco traseiro dos automóveis. São terminantemente proibidas de dirigir. Tampouco podem viajar ao exterior, ou mesmo ser hospitalizadas sem a autorização expressa de um homem de sua família. "Milhões de mulheres muçulmanas são consideradas propriedade", lembrou Dowd. "A primeira-dama poderia pensar em estender sua campanha para além do Afeganistão". Leia o especial

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