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Le bouffon

Toda vez que há um ataque brutal como o que deixou mais de oitenta mortos em Nice – e eles têm se tornado mais freqüentes e letais –, nós nos sentimos vulneráveis e desorientados

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2016 | 05h00

Toda vez que há um ataque brutal como o que deixou mais de oitenta mortos em Nice – e eles têm se tornado mais freqüentes e letais –, nós nos sentimos vulneráveis e desorientados. Perguntamos: por quê? E queremos respostas. O terrorismo religioso é a mais fácil delas.

Serve tanto às autoridades quanto à propaganda de grupos extremistas como o Estado Islâmico. Mas a história de vida de Mohamed Lahouaiej Bouhlel, o motorista de origem tunisiana que avançou com um caminhão sobre a multidão não se encaixa na narrativa do muçulmano radical contra o Ocidente infiel.

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Bouhlel não era um homem religioso, nunca ia à mesquita. Tinha se separado da mulher, com quem teve três filhos. Frequentava bares e casas noturnas. Consumia álcool e fumava haxixe e outras drogas, segundo pessoas próximas a ele. 

Seu nome não constava entre os de extremistas monitorados pela inteligência francesa, mas em outra lista: Bouhlel tinha passagens pela polícia e foi condenado à prisão em janeiro, após briga. Recentemente, perdera o emprego por dormir ao volante, provocando acidente envolvendo quatro carros em uma rodovia. 

Ele era considerado “le bouffon” – o bobo da corte, hoje usado como gíria que se assemelha ao “loser”, ou fracassado, na expressão em inglês, alguém que não inspira respeito. Talvez por isso, por ser um perdedor para a sociedade, tenha escolhido realizar seu ataque no dia em que os franceses celebravam a vitória da igualdade, liberdade e fraternidade, no Dia Nacional.

Bouhlel era um homem problemático. Aos 31 anos, enfrentava dificuldades financeiras, não se relacionava bem com a família e era violento. É um perfil parecido com os dos responsáveis pelos piores e mais recentes atentados terroristas na Europa. 

Conhecido como o mentor da série de atentados na França e Bélgica, entre eles o que deixou 130 mortos em novembro em Paris, o belga Abdelhamid Abaaoud, morto pela polícia dias após os ataques, também tinha histórico de abuso de drogas, crimes e passagens pela polícia, assim como seus comparsas, antes de sequestrar o irmão menor, de 13 anos, e se aventurar com ele nas linhas de combate do Estado Islâmico na Síria, em 2013.

Estes jovens perdidos estão sendo cooptados por grupos radicais, porque são presas fáceis. Basta dar-lhes uma bandeira por que lutar, uma ideologia que justifique seu comportamento criminoso e os transforme do dia para a noite de “le bouffon” em alguém importante, para se ter a fórmula letal que os terroristas buscam. 

Abaaoud nasceu em uma família de seis irmãos, filho de um imigrante marroquino, no subúrbio belga de Molenbeek, conhecido como celeiro de jihadistas, porque salafistas veteranos encontraram entre os jovens problemáticos terreno fértil para disseminar sua ideologia radical. O pai dizia que o filho era um psicopata. Abaaoud passou por três centros de detenção antes de ser alçado a líder de uma cédula terrorista no leste da Bélgica.

Ele e Salah Abdeslam, tido como responsável pela logística dos ataques de novembro, eram amigos de infância. Em 2010, os dois foram presos juntos por roubo. Abdeslam já era conhecido da polícia, por pequenos delitos, e foi condenado por um roubo em 2012. Ele chegou a trabalhar como mecânico, mas perdeu o emprego. Com o irmão Brahim, um dos suicidas, Abdeslam abriu um bar em Molenbeek, fechado pelas autoridades em 2013 sob acusação de ser um ponto de drogas. Meses antes do atentado, foi preso pela polícia da Holanda por posse ilegal de maconha. Os dois irmãos nunca frequentaram a mesquita local e costumavam ser vistos nas esquinas, fumando. 

A polícia chegou a Adbeslam, após os atentados, por escutas telefônicas da jovem Hasna Ait Boulahcen, monitorada pelas autoridades não por suspeita de terrorismo, mas por fazer parte de uma rede de traficantes de drogas.

Omar Ismail Mostefai, o suicida de 29 anos, de origem argelina, que se explodiu após o massacre no Bataclan, tinha sido condenado oito vezes, entre 2004 e 2010 por crimes comuns.

Os terroristas de Paris tinham contato com Mehdi Nemmouche, o franco-argelino de 29 anos que matou quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas em maio de 2014. Ele era descrito pelas autoridades como um “pequeno criminoso” e teria se convertido na última de três passagens pela prisão, entre 2007 e 2012. 

Foi também na prisão que os irmãos Said e Chérif Kouachi, responsáveis pelo ataque ao semanário Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, se converteram por influência de outro preso, Djamal Beghal, considerado o homem destacado pela Al-Qaeda para abrir uma frente terrorista na Europa. Antes de serem cooptados para o terrorismo, ambos os irmãos acumulavam um passado de envolvimento com gangues e delitos.

Beghal foi preso no começo de 2001 por planejar um atentado a bomba contra a embaixada americana em Paris. Nos dez anos em que esteve preso, ele teria convertido e radicalizado uma geração de jovens, entre os quais o britânico Richard Reid, que tentou explodir um avião na rota Paris-Miami com um sapato-bomba três meses após o 11/9 e o francês de origem marroquina Zacarias Moussaoui, condenado à prisão perpétua nos EUA por envolvimento nos ataques às Torres Gêmeas.

Há muitos outros casos, que não caberia aqui descrever. Mas a criminalidade é certamente um denominador comum entre a nova geração de terroristas, que tem sido ignorado pelas autoridades.

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