Le Pen continua assombrando a França

No mês passado, a França sentiu um medo terrível: no primeiro turno das eleições presidenciais, o líder fascista Jean-Marie Le Pen obteve mais de 16% dos votos, eliminando assim os socialistas de Lionel Jospin, e conquistou o direito de enfrentar o candidato da direita, Jacques Chirac, no segundo turno. Meu Deus, que choque terrível! Parecia que o céu havia desabado sobre nossas cabeças! A gente imaginava a França nas garras do xenófobo Le Pen. Choros, lágrimas, remorsos, sobressaltos. No segundo turno, a totalidade dos "democratas" sufragou o nome do único candidato democrata que havia restado, Chirac. Até mesmo os inimigos íntimos de Chirac, os socialistas de Jospin, votaram em Chirac, dando-lhe uma maioria maciça e rejeitando Le Pen. Mas agora, três dias antes das eleições legislativas - cujo primeiro turno terá lugar no domingo - se reacende o "grande medo". Le Pen não morreu. Ele está bem vivo. Ele ainda ameaça com suas garras. Todos os analistas advertem aos gritos: o "perigo Le Pen" não está descartado. Certamente, não existe o risco de que o fascista Le Pen conquiste no próximo domingo e no domingo seguinte, a Câmara dos Deputados. Mas ele pode semear a desordem e instalar no coração da democracia uma fantástica "força nociva". Porque este despertar de Le Pen? Os franceses acreditaram muito rapidamente que haviam se livrado do "micróbio" Le Pen. Como Chirac foi eleito por uma enorme maioria, eles se acomodaram e adormeceram. Ao contrário, os fiéis de Le Pen não dormiram. Retomaram sua marcha à frente, sua propaganda, sua ação nas praças, nas cidades. Em dois outros campos - a direita clássica e a esquerda - aconteceu o contrário. Para os partidários de Chirac, a vitória foi tão evidente que eles se contentaram em usufruir da nova situação. Mas o pior foi no Partido Socialista: completamente afundado por causa de sua derrota nas eleições presidenciais, o partido "abaixou os braços". Com sua moral em baixa, os socialistas se desinteressaram pela campanha das eleições legislativas. Além disso, o líder dos socialistas, o ex-primeiro-ministro Lionel Jospin, desertou do combate. Desapareceu. Renuinciou para sempre à política. Ninguém mais o viu. O partido ficou órfão. Tornou-se parecido com um Exército cujo chefe desapareceu em plena batalha. E não apenas o chefe se evaporou. Nenhum de seus substitutos se mostrou digno de "retomar o facho" que caiu por terra. Não surgiu nenhuma outra grande figura. Pior ainda: alguns socialistas dotados de um pouco de talento começaram a disputar entre si: Laurent Fabius, François Hollande, Dominique Strauss-Kahn, os três assessores mais próximos de Jospin, entraram em rivalidade. Assistimos a esta cena grotesca: Fabius explicou que , no caso de uma vitória dos socialistas, ele seria o mais indicado para assumir oo poder. Imediatamente, Hollande afirmou: "Não, o mais indicado seria eu!" E Strauss-Kahn ficou irritado e disse "Eu seria o melhor primeiro-ministro!" Um duelo de fantasmas, um duelo imbecil, pois , salvo um milagre, os socialistas não têm nenhuma chance de conseguir a maioria dos deputados. Quem se regala com isso é Le Pen: enquanto seus inimigos explodem de empolada vaidade (os chiraquianos), ou disputam entre si uma vitória que lhes escapou (como o fazem os socialistas), Le Pen galvaniza suas tropas e faz seus cálculos. E seus cálculos são otimistas. Já se pode prever que muitas circunscrições eliminarão o candidato socialista no primeiro turno. Portanto, no segundo turno haverá um duelo entre a extrema direita e a direita bem educada. Le Pen deverá poder manter seu candidato na metade das circunscrições francesas no segundo turno. Com certeza, Le Pen não poderá introduzir muitos deputados na Câmara. mas o número de seus representantes poderá ser suficientemente grande para dispor de uma impressionante "força do choque" no Legislativo. Posicionando-se eventualmente ora do lado da direita, ora do lado da esquerda, segundo as circunstâncias, estes deputados da frente Nacional poderiam semear o caos no governo do país.

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