Lealdade tribal guiou tentativa de libertar piloto jordaniano

Afirma-se frequentemente que no reino hashemita da Jordânia a política é essencialmente tribal. Isso contribui em grande parte para explicar a reação do país à crise dos reféns com o Estado Islâmico. O refém Moaz al-Kasaesbeh, piloto do caça F-16 capturado pelos extremistas e executado nesta terça-feira, 3, era membro de uma tribo politicamente influente que apoia o rei.

Rod Nordland e Ranya Kadri , New York Times

02 de fevereiro de 2015 | 02h02

"A estrutura social da Jordânia é tribal mais que institucional", disse o pai do tenente Kasaesbeh, Safi Youssef al-Kasaesbeh, em sua casa em Amã, no sábado, enquanto aguardava notícias sobre o destino do filho, cercado por uma multidão de pessoas, às vezes centenas delas. "A coesão é muito forte; agora temos consciência de que cada membro de uma tribo tem o apoio de cada tribo da Jordânia."

A monarquia não só manteve um bom relacionamento com as tribos, como as enquadrou na estrutura do Estado recrutando seus membros para os serviços militar e de segurança, dizem os analistas.

A maioria dos jordanianos cujas origens se encontram no Leste do país pertence a uma das dezenas de tribos maiores ou das numerosas tribos menores, e é considerada inquestionavelmente leal.

O clã Kasaesbeh faz parte da tribo Bararsheh, do sul da Jordânia. Com o agravar-se da crise, os anciãos e os notáveis da tribo, sediados na cidade de Karak, correram para a capital, Amã, para dar o seu apoio à família Kasaesbeh - e cantar louvores ao piloto capturado. Num primeiro sinal da importância do piloto, o governante da Jordânia, o rei Abdullah II, foi imediatamente à casa da família em Karak, a fim de assegurá-la de sua preocupação com a segurança do filho.

Separadamente, os líderes tribais Bararsheh aproximaram-se sem alarde do governo e pediram às autoridades que Sajida al-Rishawi, condenada à morte por ter participado de um ataque à bomba que matou 60 pessoas em 2005, fosse libertada em troca da vida de Kasaesbeh.

No fim do mês passado, as tentativas de libertar o piloto se tornaram mais complicadas. Quando as autoridades japonesas anunciaram estar trabalhando com a Jordânia para conseguir a libertação do seu refém, a reação na Jordânia foi de fúria. Os protestos começaram principalmente entre os membros da tribo Bararsheh do piloto, e a certa altura, na semana passada, houve manifestações inclusive na frente do palácio real de Abdullah, em Amã. O monarca então procurou distender as tensões convidando pai, mãe e esposa do piloto ao palácio.

"Vocês sempre devem dar atenção às tribos; elas não podem ser negligenciadas," disse o major general da reserva Ali Shukri, ex-chefe do gabinete privado do rei Hussein, o pai do rei Abdullah.

Em grande parte, a legitimidade do rei da Jordânia fundamenta-se no apoio de suas tribos, a maioria das quais se origina de grupos nômades que percorriam toda a Península Arábica. A dinastia hashemita foi constituída em torno da um clã pertencente a uma tribo poderosa da atual Arábia Saudita, a tribo Qureish. "Todas essas tribos são realmente influentes no Eexército", disse o general Shukri. "As famílias precisam ser levadas em consideração ao máximo".

A causa do EI já lhe granjeou certa simpatia na Jordânia, onde alguns apoiam seu propósito de estabelecer um califado islâmico, e se opõem à persistente autocracia do seu governo, aliado do Ocidente. Acredita-se que a Jordânia seja, depois da Arábia Saudita, o segundo maior financiador dos combatentes do Estado Islâmico. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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