Legado da Al-Qaeda resiste a seu declínio

Rede terrorista de Osama bin Laden continua ativa e perigosa, mas fracassou em seu maior objetivo

Peter Bergen, especial para The Washington Post, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2008 | 00h00

Duas décadas após Osama Bin Laden fundar a Al-Qaeda na cidade paquistanesa de Peshawar, o grupo terrorista é hoje mais temido do que nunca. Mas o seu grande projeto - transformar o mundo muçulmano num califado islâmico militante - tem sido, sob todas as perspectivas, um retumbante fracasso. Cristina Pecequilo, da Unesp, analisa os EUA pós-11/9O objetivo declarado do líder da Al-Qaeda é provocar mudanças de regime no Oriente Médio e substituir os governos do Egito e da Arábia Saudita por teocracias à moda do Taleban. Ele acredita que a maneira de conseguir isso é atacar os EUA - o "inimigo distante" - e observar enquanto regimes muçulmanos apoiados pelos americanos - os "inimigos próximos" - desmoronam.Poderia ter funcionado se os EUA fossem um tigre de papel capaz de suportar apenas uns poucos golpes da Al-Qaeda. Mas essa não é a realidade. Faltou na estratégia de Bin Laden mais compreensão sobre os interesses que pautam o envolvimento americano no Oriente Médio - o petróleo, Israel e a estabilidade regional. O 11 de Setembro teve como resultado o oposto de uma retirada americana da região. Os EUA agora ocupam o Iraque, suas reações com os regimes autoritários árabes estão fortalecidas e soldados da Otan patrulham as ruas de Kandahar - antigo reduto do Taleban, regime aliado de Bin Laden. Para a maioria dos líderes, um fracasso estratégico desses exigiria uma reavaliação. Mas não para Bin Laden. Ele continua considerando os EUA o seu principal adversário, como explica em mensagens de áudio e vídeo. Além disso, ao matar milhares de pessoas no mundo islâmico desde o 11 de Setembro, ele fez com que a sua meta de tornar-se um representante de todos os muçulmanos ficasse cada vez mais distante. E esses dois erros estratégicos condenaram a Al-Qaeda a definhar.Mas não espere que tal derrota ocorra logo. Por enquanto, o grupo continua forte, tanto como organização terrorista com sede na fronteira entre Paquistão e Afeganistão quanto como um modelo para os muçulmanos violentos de todo o mundo. Então como podemos explicar essa força da Al-Qaeda? Ainda este ano, tivemos um acalorado debate em Washington entre dois influentes analistas de políticas antiterrorismo. O ex-oficial da CIA Marc Sageman diz que a ameaça da organização central da Al-Qaeda já foi em grande parte desarmada e os futuros ataques virão dos soldados rasos de uma "jihad sem líder" - radicais sem conexão formal com a cúpula de Bin Laden. Do outro lado está o professor Bruce Hoffman, da Universidade de Georgetown, que diz que a Al-Qaeda está em marcha, não em fuga.O debate está longe de interessar apenas à academia. Se a jihad global de fato está sem líder, o terrorismo logo deixará de ser prioridade na agenda de segurança nacional dos EUA para ser um problema administrável, de segundo escalão, como foi durante a maior parte do século 20. Organizações sem líder não são capazes de montar operações espetaculares como o 11 de Setembro. Mas se a célula central da Al-Qaeda é tão forte quanto Hoffman pensa, os EUA precisam organizar suas políticas no Oriente Médio, no sul da Ásia e em casa em torno desta ameaça durante décadas.A visão de Sageman da ameaça sem líder é compartilhada pelas principais autoridades antiterroristas da Europa. O juiz Baltazar Garzón, por exemplo, que investiga grupos terroristas na Espanha, não vê a impressão digital da cúpula da Al-Qaeda nos seus últimos inquéritos. Mas essa visão não é compartilhada pelas principais autoridades antiterroristas dos EUA e da Grã-Bretanha. Em 2007, um relatório da inteligência americana concluiu que a Al-Qaeda estava ficando mais forte, não mais fraca.Por que tamanha disparidade nas avaliações? Principalmente porque as autoridades americanas e britânicas estão levando em consideração um novo e alarmante fenômeno, o mortífero elo que está se desenvolvendo entre alguns muçulmanos britânicos militantes e o novo quartel-general da Al-Qaeda nas fronteiras sem lei do Paquistão. A lição aprendida com os bombardeios no metrô de Londres, em julho de 2005, o plano frustrado para derrubar aviões transatlânticos em 2006 e diversos outros complôs enervantes desmascarados na Grã-Bretanha é que a radicalização de baixo para cima descrita por Sageman se torna verdadeiramente letal apenas quando os pretendentes domésticos conseguem fazer contato com o grupo que tanto preocupa Hoffman, a central da Al-Qaeda no Paquistão. E nos últimos dois anos, autoridades antiterroristas denunciaram dúzias de europeus que seguiram para as áreas tribais do Paquistão .Trata-se de uma grande mudança. Até 2006, os jihadistas europeus mais dedicados viajavam para o Iraque. Mas esse fluxo caiu a quase zero, pelo fato de a organização afiliada à Al-Qaeda no Iraque ter cometido algo semelhante ao suicídio.A Al-Qaeda no Iraque já controlou vastos trechos do território sunita e ajudou a detonar uma guerra civil ao atacar os xiitas. Mas quando o grupo impôs medidas ao estilo do Taleban à população sunita do Iraque, como a proibição ao fumo e ao ato de se barbear, e começou a matar insurgentes que não partilhavam da sua visão ultrafundamentalista, outros sunitas se voltaram contra ela. Hoje a Al-Qaeda está morta no Iraque, ao menos enquanto organização insurgente capaz de impor sua vontade à população em geral. Ela ainda é capaz de realizar atrocidades em larga escala - mas, na prática, a Al-Qaeda está em fuga no Iraque, desmoralizada e cercada por inimigos.A região da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, uma área onde os jihadistas operam quase impunemente, porém, tornou-se um pólo de atração para combatentes estrangeiros. E a central da Al-Qaeda agora exerce grande influência ideológica sobre Baitullah Mehsud, o novo líder do movimento Taleban dentro do Paquistão, que prometeu atacar Nova York e Londres.No país vizinho, Afeganistão, o Taleban também adotou cada vez mais a visão de mundo de Bin Laden e suas táticas, as quais os ajudaram a lançar uma insurgência perigosamente eficaz com base em seguidos ataques suicidas e no uso hábil de dispositivos explosivos improvisados.E a influência de Bin Laden vai muito além do teatro afegão-paquistanês. As mesmas autoridades antiterroristas da Europa continental aliviadas por não encontrar células centrais da Al-Qaeda nos seus próprios países agora se preocupam com o fato de a aliada norte-africana de Bin Laden, a Al-Qaeda do Magreb, estar encontrando recrutas entre os mal integrados imigrantes africanos vivendo na França, Bélgica, Espanha e Itália.Apesar do recente ressurgimento da Al-Qaeda, acho muito improvável que o grupo seja capaz de atacar dentro das fronteiras americanas nos próximos cinco anos. Nenhum dos complôs anteriores bem sucedidos dependeram de "células dormentes" da Al-Qaeda nos EUA, e há poucas provas de que tais células existam hoje. Além disso, os EUA são hoje um alvo muito mais difícil do que antes do 11/9. O governo americano está em alerta, assim como os cidadãos comuns.Se hoje temos menos a temer da Al-Qaeda do que em 2001, os muçulmanos de todo o mundo estão cada vez mais enxergando o seu grupo e as suas operações suicidas com maus olhos. No final da década de 1990, Bin Laden era um herói folclórico para muitos muçulmanos. Mas desde 2003, conforme a Al-Qaeda e seus associados mataram civis muçulmanos desde Casablanca até Cabul, o apoio a Bin Laden diminuiu muito nos principais países muçulmanos, como Indonésia e Paquistão.Aos 20 anos de idade, a Al-Qaeda está perdendo a sua guerra, mas a sua influência perdurará. Conforme destaca Michael Scheuer, que fundou a unidade da CIA contra Bin Laden em 1996, "a missão deles foi cumprida: instigação e inspiração em escala mundial". Infelizmente para nós, este legado vai durar, mesmo depois que a Al-Qaeda for derrotada.O ANALISTA DO TERRORO jornalista americano Peter Bergen é um dos maiores estudiosos da rede terrorista Al-Qaeda. Em 1997, ele conduziu a primeira entrevista à TV do saudita Osama bin Laden. Autor de vários livros sobre o terror islâmico, entre eles ?Holy War, Inc? (inédito em português),Bergen leciona na Johns Hopkins University (EUA).

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