Legado da era Pinochet persiste na corrida presidencial do Chile

Em sua campanha, Bachelet promete uma reforma da Constituição que ela acredita ter engessado o país nas diretrizes da ditadura; Longueira concentra sua propaganda em seus laços com a classe trabalhadora e em seu apelo pela justiça social

É JORNALISTA, STEVEN, BODZIN, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, É JORNALISTA, STEVEN, BODZIN, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2013 | 02h05

A campanha presidencial do Chile já tem seus candidatos favoritos, depois das primárias realizadas recentemente.ue passou. A ex-presidente Michelle Bachelet, rebelde que atuou na clandestinidade contra o ditador Augusto Pinochet, derrotou todos os concorrentes nas primárias, tornando-se a candidata da coalizão Concertación, da oposição. Pablo Longueira, que foi assessor de Pinochet, foi escolhido para defender a Alianza, partido de direita.

Embora um número cada vez maior de eleitores ainda não tivesse nascido quando Pinochet deixou o poder em 1990, os 17 anos de ditadura continuam constituindo uma importante referência política. A campanha de Bachelet tem como base a promessa de uma reforma da Constituição chilena, que, segundo afirma, engessou o país nas diretrizes da era da ditadura. A campanha de Longueira tem uma plataforma conservadora familiar de cortes de impostos, ajuda às empresas e oposição à imigração ilegal.

Mas o que, à primeira vista, parece um simples teste da preferência do Chile pelo socialismo em relação ao capitalismo, é algo muito mais complicado. Embora grande parte da América do Sul esteja experimentando a implementação de mudanças radicais, depois de Pinochet, o Chile vem percorrendo um caminho de centro. Isso provavelmente persistirá, afirma Robert Funk, professor de Ciências Políticas da Universidade do Chile, em Santiago.

"Ambos os candidatos precisam se aproximar do centro para ganhar as eleições", segundo ele.

Bachelet foi para as primárias enfrentando enérgicas reivindicações da esquerda, pois sua administração, de 2006 a 2010, não solucionou os problemas da educação, responsabilizando-a pelo fosso cada vez mais amplo existente entre ricos e pobres. (Ela terminou seu mandato em 2010, porque a lei chilena não permite a reeleição imediata de um presidente.)

Bachelet começou anunciando seu apoio à elaboração de uma nova Constituição, provavelmente atraindo parte das massas descontentes. Mas nada garante que ela consiga uma revisão total. "Uma nova Constituição é uma maneira de solucionar problemas profundos", diz Funk. "Mas como? Com uma Assembleia Constituinte? Com a reforma da Constituição atual? Passo a passo, mudando o sistema eleitoral e permitindo a realização de referendos? Ela insiste que alguma coisa precisa acontecer, mas não está absolutamente claro que isso signifique que ela poderá ir até o fim com uma nova Constituição", no próximo mandato presidencial de 4 anos, acrescentou.

A Constituição da era Pinochet inclui uma série de pesos e contrapesos cuja finalidade era fazer com que a mudança radical fosse impossível. Aos defensores da reforma da educação não agrada, particularmente, o fato de não poderem mudar o sistema de financiamento e regulamentação das escolas em razão da inércia própria no sistema.

O apelo de Bachelet para a mudança tocou um ponto muito sensível para os chilenos. Dos 3 milhões de votos registrados nas primárias, Bachelet recebeu mais de 1,5 milhão. Ela não só obteve facilmente a maioria dos votos para a Concertación, como até mesmo quase duas vezes a quantidade de votos dados aos candidatos da direita em seu conjunto. Isto a torna o candidato a ser derrotado nas eleições de 17 de novembro. Se ninguém obtiver a maioria nessa data, os dois candidatos mais votados irão para um segundo turno em dezembro.

Longueira, que entrou na campanha há apenas dois meses substituindo um candidato cujo nome ficou manchado por escândalos, terá de brigar com todas as forças só para impedir que Bachelet obtenha a maioria absoluta.

Na campanha das primárias, ele concentrou sua propaganda eleitoral em seus laços com a classe trabalhadora e em seu apelo pela justiça social. Sua plataforma prevê o corte do imposto sobre a gasolina e maiores oportunidades para as pequenas empresas. Ele considera estes elementos pontos fundamentais para promover iguais oportunidades em um país em que a mobilidade das classes é ainda mais limitada do que nos Estados Unidos, e muito mais do que na Europa ou no Canadá, segundo um estudo realizado em 2012 pelo grupo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 34 economias avançadas.

Longueira agora tem de optar, segundo os observadores: lutar com suas armas e combater Bachelet no campo dos princípios, ou deixar para trás sua história pessoal e abraçar a causa da reforma constitucional. Manuel José Ossandon, vice-presidente do partido de Piñera, disse à Radio Cooperativa, que Longueira só poderá ganhar apoiando a reforma constitucional.

"Se não enfrentarmos estes problemas e nos mostrarmos mais abertos, eles acabarão conosco", declarou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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