Henry Romero/Reuters
Henry Romero/Reuters

Legado de desigualdade da ditadura desencadeia protestos em massa no Chile

País está em revolta há três semanas; em apenas um dia, mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Santiago

Amanda Taub / The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2019 | 07h00

SANTIAGO – Os protestos repentinos e a fúria que se derramava nas ruas todos os dias seriam motivo de surpresa em qualquer lugar do mundo. Mas, no país que muitas vezes é celebrado como o grande exemplo de sucesso econômico da América Latina, foram um verdadeiro choque.

O Chile está em revolta há três semanas. Em apenas um dia, mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Santiago, a capital.

Os próprios chilenos talvez sejam as únicas pessoas que não estão chocadas. O caos, dizem eles, é um acerto de contas. A promessa que os líderes políticos da esquerda e da direita fizeram por décadas – de que o livre mercado traria a prosperidade e a prosperidade resolveria os outros problemas – não foi cumprida.

“O Chile acordou”, cantaram milhares de manifestantes na tarde de um domingo recente no Parque O’Higgins, em Santiago.

Por um tempo, parecia que a promessa daria certo. O país passou da ditadura para a democracia em 1990, e então se seguiram décadas de crescimento econômico e ambiente democrático, com um governo sucedendo o outro pacificamente.

Crescimento não chegou a todos os chilenos

A desigualdade ainda está profundamente enraizada na sociedade. A classe média do Chile sofre com preços altos, salários baixos e um sistema de aposentadoria privatizado que deixa muitos idosos na pobreza. E inúmeros escândalos de corrupção e sonegação corroeram a fé na elite política e empresarial do país.

“É uma espécie de crise de legitimidade”, disse Cristóbal Rovira Kaltwasser, cientista político da Universidade Diego Portales, em Santiago. “As pessoas começam a se perguntar: ‘por que temos de pagar por isso se os ricos não estão pagando sua parte?”.

“E, ao mesmo tempo, temos uma classe política que está totalmente fora de sintonia”, acrescentou Kaltwasser.

Na tentativa de restaurar a ordem, o presidente Sebastián Piñera descartou a possibilidade de um aumento de 4 centavos de dólar na tarifa do metrô, o qual desencadeou as primeiras manifestações. Depois, colocou os militares nas ruas, pela primeira vez, desde a transição do país para a democracia.

Como as medidas não suprimiram os protestos, Piñera foi à televisão pedir desculpas e prometer aposentadorias melhores, cobertura de saúde mais ampla, impostos mais altos para os ricos e cortes nos salários dos políticos. Dias depois, pediu que todo o seu gabinete se demitisse.

Manifestantes não se convenceram

No protesto no Parque O’Higgins, esta era certamente a opinião de Luis Ochoa Pérez, que vendia bandeiras perto da entrada. “Os abusos não acabaram”, disse ele, “então temos de ir às ruas”.

Sua bandeira de mais sucesso, desenhada por ele mesmo, exigia a renúncia de Piñera. Minutos depois, todas elas já tinham sido vendidas. 

“Não é pelos 30 pesos, é pelos 30 anos”

Javiera López Layana, de 24 anos, ativista e estudante da Universidade do Chile que ajudou a organizar o protesto, estava cheia de entusiasmo.

Muitos dos discursos usaram o termo "el pueblo" para descrever o povo chileno, comentou ela. Para um estrangeiro, podia parecer um pequeno detalhe. Mas esse termo, que na América Latina está associado à esquerda, era tabu no Chile desde que López se lembrava. Seu ressurgimento parecia ser o prenúncio de mudanças mais significativas.

O fim da ditadura de Pinochet, em 1990, veio com uma salvaguarda implícita: o regime militar terminaria, mas as políticas socialistas de Salvador Allende, o presidente de esquerda que o general Augusto Pinochet depusera com um golpe, não poderiam retornar. Os governos subsequentes conservaram o sistema econômico de extremo laissez-faire imposto nas décadas de 70 e 80.

Hoje, porém, a raiva generalizada contra a desigualdade e a precariedade econômicas que muitos chilenos veem como consequência desse sistema significa que as políticas econômicas conservadoras podem ser mais uma ameaça à estabilidade política do que um meio para assegurá-la.

“Não é pelos 30 pesos, é pelos 30 anos” se tornou um dos lemas dos protestos – uma referência ao aumento proposto nas tarifas de metrô que desencadeou a crise e às três décadas desde o fim do regime militar.

O salário médio do país agora é de cerca de US $ 540 por mês – abaixo da linha de pobreza para uma família de quatro pessoas, disse Marco Kremerman, economista da Fundación Sol, um centro de estudos de esquerda com sede em Santiago. Os pagamentos médios no programa nacional de previdência privada, a única rede de seguridade para aposentados, estão em cerca de US $ 200 por mês.

Existe amplo consenso, entre manifestantes e especialistas, de que o país precisa de reformas estruturais. Substituir a atual Constituição, que foi adotada sob a ditadura, também significaria emergir de 30 anos de sombra do regime Pinochet.

“Quando estamos endividados, empobrecidos, vivendo na miséria, não pensamos necessariamente na Constituição”, disse López. “Mas precisamos fazer mudanças”.

Uma geração sem medo

Naquela noite, López e sua família se reuniram em torno da mesa da cozinha da casa onde moram em Lo Espejo, um bairro operário longe do centro da cidade, e conversaram sobre os protestos.

Ver os militares patrulhando as ruas mais uma vez trouxe à tona lembranças dolorosas, há muito reprimidas.

O avô de López revelou a ela, pela primeira vez, que durante o regime militar ele fora preso e sua irmã, morta pelo governo, porque haviam escondido um político de esquerda e sua família e, depois, os ajudaram a fugir para o exterior.

Seu pai descreveu como a ditadura havia dividido Lo Espejo em sua juventude. Um vizinho, que ainda morava no bairro, fora interrogado e torturado por um velho amigo de infância. Outro tinha uma irmã que trabalhava para a DINA, a temida polícia secreta.

Em parte por causa dessas experiências, eles tiveram receio de aderir aos protestos, mesmo que apoiassem as causas. “A geração de Javiera cresceu sem medo da ditadura”, disse a mãe de López, Pamela Inés Layana Guendelman. “Ela é destemida.”

“Não tenho medo”, López disse. “Mas tenho raiva”, completou, com lágrimas brotando nos olhos. “Toda vez que vou a um protesto na Praça Itália ou em La Alameda, tenho de voltar aqui, para Lo Espejo, e ver a mesma porcaria, a mesma miséria que existe há muitos governos. E nada mudou."

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A crise política chilena, porém, não se restringe ao Chile. Traz ecos inconfundíveis de um problema que está no centro dos conflitos políticos em todo o mundo desenvolvido.

À medida que o livre comércio, as novas tecnologias, a ascensão da China e outras mudanças sísmicas foram remodelando as economias do mundo, surgiram divisões políticas entre aqueles que ganham e aqueles que não ganham com o sistema atual.

Em grande parte da Europa e nos Estados Unidos, algumas cidades industriais declinaram quando o crescimento econômico se acumulou em grandes metrópoles conectadas globalmente. Mesmo para aqueles que sentiram modestas melhorias em seus próprios padrões de vida, ver os outros avançarem tanto trouxe raiva e desilusão. Em muitos países, a confiança nas instituições está caindo, como mostram as pesquisas.

Essas mesmas mudanças econômicas abalaram coalizões políticas de longa data, enfraquecendo os principais partidos. Os populistas de extrema direita e outros outsiders aproveitaram para preencher o vácuo deixado para trás.

E, sem canais eficazes para expressar sua raiva, a frustração popular explodiu em movimentos de protesto, como os Coletes Amarelos da França e as manifestações no Chile.

O movimento chileno, como o dos Coletes Amarelos, não tem líderes claros, disse López. Suas ideias se espalham principalmente pelas redes sociais das pessoas. “É uma explosão social”, disse ela. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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