Mujahid Safodien/AE
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Legado de Mandela em risco

País vive momentos finais de seu herói inspirador e ícone da luta pela liberdade e se põe a caminho da turbulência política, econômica e social

Laura Greenhalgh, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2013 | 20h18

Em maio deste ano, semanas antes da internação que o mantém em "estado crítico, mas estável", segundo os boletins médicos, Nelson Mandela recebeu em casa a visita do presidente sul-africano, Jacob Zuma, e de um entourage do seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA). O grupo foi todo sorrisos ao posar para uma foto ao lado do líder, que se manteve calado, sisudo e impassível em sua poltrona.

A imagem logo circularia dentro e fora do país. A família Mandela acusou os visitantes de aplicar um golpe de marketing, pois haviam solicitado o encontro em caráter particular. Partido de oposição ao CNA, a Aliança Democrática (AD) também reagiu ao que considera ser a tentativa de cooptação de um Mandela débil, porém insatisfeito com os rumos do país. E o próprio CNA tratou de rebater as críticas acusando a AD de flertar com ideias separatistas e branqueadoras, numa alusão ao apartheid.

Esse é apenas um exemplo do jogo de expectativas e interesses que se desenrola nos momentos finais de vida de Nelson Rolihlahla Mandela, 95 anos, figura central para a nação sul-africana e talvez o último símbolo mundial a condensar em sua biografia os mais elevados ideais de liberdade, igualdade e dignidade humana.

A pergunta que se faz hoje é: com séculos de colonialismo nas costas, décadas de apartheid manchando seu passado e apenas 20 anos de democracia, a África do Sul está preparada para viver sem seu grande herói inspirador? Especialistas ouvidos pelo Estado acreditam que sim, mas isso não significa que o mais desenvolvido país africano conseguirá desviar da alta turbulência política, econômica e social que o aguarda.

"Sem Mandela, (o bispo católico) Desmond Tutu e algumas outras figuras emblemáticas dessa mesma geração, a luta contra a corrupção deve se acirrar. Mas, aonde começa a corrupção neste país? Vem do topo, bancada por Zuma e seus aliados. Como eles não têm tido oposição que os ameace de fato, operam na impunidade. O problema é que o povo tenderá a reagir mais fortemente", avalia Peter Drapper, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais da África do Sul. Drapper prevê que a morte do líder abrirá uma fase de revisão profunda do quadro político sul-africano, "mesmo que não chegue a inverter a balança do poder".

Próximo de Mandela e de sua família - um conglomerado de herdeiros que reúne três filhas de dois casamentos, 17 netos e 14 bisnetos -, o jornalista americano Douglas Foster, hoje professor da Northwestern University, em Chicago, arrisca outras previsões para o país em que viveu longos anos como correspondente.

"A cena final de Mandela, hoje, é menos problemática do que teria sido quando ele foi libertado da prisão, em 1990, aos 72 anos, ou quando se tornou presidente, aos 76, ou mesmo quando resolveu deixar o poder, aos 80. Naqueles momentos, sua força política e moral era um elemento decisivo no processo de reconciliação. Hoje, o risco de uma reviravolta geral não existe", afirmou Foster em entrevista ao Estado, enfatizando que foi sabedoria do líder ter desestimulado os sul-africanos a tomá-lo por santo.

"Nisso ele foi até metódico. Sempre insistiu que sua presença seria dispensável. Hoje, o projeto de consolidação de um Estado desenvolvimentista na África do Sul ficou mais complicado pelas condições da economia global, não pelas condições de saúde do homem que é visto como herói por todos", acrescenta.

Entre as mensagens discretas de Graça Machel, terceira e atual mulher de Mandela, e as declarações desencontradas de Zuma, ansioso por divulgar melhoras a partir do hospital, o que sobra é a triste expectativa em torno de um paciente fragilizado pela idade e por sequelas dos 27 anos de prisão. Já o conglomerado familiar, desunido internamente, oscila entre pedidos de respeito à privacidade e brigas escancaradas por empresas encarregadas de controlar e negociar a imagem de Mandela.

Na África do Sul, 2014 será um ano eleitoral, quando o centenário CNA deverá jogar todas as fichas para manter sua hegemonia política. Como partido situacionista à frente de uma coalizão, voltará a se comprometer com o conhecido "triplo desafio" - combater a pobreza, a desigualdade social e o desemprego.

Mas as estatísticas já se encarregam de minar a plataforma: hoje, dois terços da força de trabalho estão inativos - Zuma diz que o índice correto é de 22%. O desemprego entre os jovens alcança 50%, cerca de 48% da população vive abaixo da linha da pobreza, 18% da população adulta está infectada pelo HIV, o sistema de saúde foi largamente privatizado e os apagões (em especial na região de Western Cape) trazem prejuízos econômicos imensos ao país, o que não chega a afetar milhões de pessoas de outras partes que nem sequer têm luz em suas casas, assim como água e esgoto.

Em um cenário desalentador, os índices de criminalidade dispararam. "Some-se a isso uma fraqueza institucional ainda grande. Não é à toa que a criminalidade virou um problema endêmico em um país historicamente violento", disse Drapper.

Outra indagação que observadores se fazem é se o CNA, fragilizado pela crise da economia global e por divisões internas, terá condições de levar adiante o legado de Mandela e também um modelo de desenvolvimento que consiga retirar zonas consideráveis do país da situação de atraso profundo.

Uma das críticas clássicas que se faz ao CNA é que, sendo um movimento de libertação na origem, não conseguiu construir uma democracia sólida e dinâmica. No passado, juntou idealistas, nacionalistas negros, liberais brancos, comunistas e oportunistas. Funcionou bem quando tinham algo em comum contra o qual lutar - o apartheid. Justamente no pós-Mandela, os tropeços de percurso se fizeram mais frequentes.

Thabo Mbeki, que o sucedeu na presidência, definitivamente não tinha a confiança do líder. Ampliou benefícios para os mais pobres, atraiu investidores, mas acabou hostilizado mundialmente ao afirmar que a propagação do vírus da aids era conspiração dos brancos e os retrovirais escondiam toxinas perigosas.

Mbeki só parou de repetir bobagens quando Mandela chamou-lhe atenção. Tarde demais: no seu governo, foram 343 mil mortes associadas ao vírus e 171 mil novos casos de infecção. É considerada "genocídio por negligência" a crise que levou Mbeki a renunciar de forma humilhante.

Zuma abriu uma longa temporada de escândalos - a começar pelas investigações em torno da compra de equipamento militar para a África do Sul, fora as denúncias de estupro carimbando sua biografia. Ainda agora o presidente se complica ao explicar gastos de US$ 27 milhões na reforma da mansão em Nkandla, sua cidade natal, uma região cercada de pobreza e soropositivos por todos os lados.

Além de heliponto, quadras de tênis e campo de futebol, a casa foi equipada com um bunker à prova de contaminação nuclear. Certamente, Zuma não se inspirou em Mandela, que deixou o poder para viver num refúgio bem mais simples.

Denúncias envolvendo quadros graúdos do CNA sinalizam que a África do Sul constituiu, nos últimos anos, uma classe média negra empregada majoritariamente no setor público, com viés clientelista, e uma elite negra, restrita, mas muito influente.

A aliança tripartite que garante a governabilidade, na qual o CNA conta com o apoio dos sindicatos e dos comunistas, exibe sinais de fratura e, tanto para Foster como para Drapper, muito provavelmente nos próximos ciclos eleitorais o partido de Mandela venha a perder o poder. "É o que consigo vislumbrar num cenário que promete ficar mais instável. Mas não creio que sejamos surpreendidos pela formação de uma coalizão de oposição", calcula Foster.

A surpresa, por enquanto, fica por conta do surgimento de novos atores políticos. Como Julius Malema, representante da ala jovem do CNA, expulso do partido recentemente. "Eu sabia o que iria acontecer comigo, porque conheço as táticas deles e como operam. Sei que têm medo de mim. Infelizmente, a África do Sul virou uma cleptocracia", desafia o jovem líder negro.

Seu nome vem ganhando visibilidade pela militância que faz em redes sociais. A um jornal de Soweto, Malema garantiu que o país agora precisa fazer a transição entre "reconciliação e justiça". Por isso, pensa fundar um novo partido, o Economic Freedom Fighters (Lutadores da Liberdade Econômica).

Seus seguidores acham insuficientes as mudanças constitucionais, querem um "capitalismo nos trilhos" e um programa social para vencer a pobreza que ainda castiga a população negra, mesmo no pós-apartheid.

"Como ocorre em várias partes do mundo em desenvolvimento", conclui Foster, "a pobreza tem a ver com a cor da pele. E isso também ocorre na África do Sul. Significa que as promessas de igualdade da Carta da Liberdade, aquele documento seminal do CNA, ainda não foram atingidas. Nos próximos anos, a meu ver, os eleitores vão julgar os políticos pelo grau de distância que eles estejam daquelas mesmas promessas."

Curiosamente, isso vai ocorrer quando a maioria dos sul-africanos irá se relacionar com Mandela, ou Madiba, o Conciliador, em termos históricos e no plano da memória nacional. Hoje, 40% da população do país com até 18 anos são jovens "nascidos livres" da segregação racial. Diante da penúria social de largos segmentos da sociedade e da corrupção rombuda, analistas têm notado um perigoso retorno da retórica política à questão racial.

Foster atribui esse fenômeno à má distribuição do poder e à concentração agrária, dois problemas persistentes. Sobre o futuro, o jornalista amigo de Mandela nutre uma visão mais positiva. Além de acreditar que os jovens vão mesmo cobrar os velhos ideais, confia na aparição de novos líderes, "gente capaz de fazer a ponte entre o rural e o urbano, entre o pobre e o rico, entre todas as raças". "O legado maior de Madiba é justamente essa possibilidade."

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