Legalização tomaria US$ 1,4 bilhão de cartéis, diz estudo

Instituto mexicano diz que perda de receitas dos narcotraficantes seria maior do que qualquer política repressiva

CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h05

Os referendos que aprovaram a legalização da maconha nos Estados de Washington e Colorado, nos EUA, são o início do fim da proibição. É o que acredita o Instituto Mexicano para a Competitividade (Imco, na sigla em espanhol). Em estudo publicado recentemente, o instituto estima que os cartéis mexicanos perderiam cerca de US$ 1,4 bilhão por ano - dos US$ 2 bilhões que faturam anualmente com o tráfico da maconha- caso a droga seja legal do outro lado da fronteira.

É claro que, segundo apontam analistas, restaria ainda aos narcotraficantes o comércio ilegal de cocaína, que rende cerca de US$ 2,4 bilhões por ano, e os cartéis, provavelmente, começariam a explorar outras atividades ilegais para tentar recuperar as perdas. No entanto, um golpe de US$ 1,4 bilhão é muito mais do que a guerra às drogas de Washington jamais conseguiu.

Acredita-se que de 40% a 70% da maconha consumida nos EUA seja cultivada no México, país que vem realizando um esforço gigantesco para controlar o tráfico. Desde 2006, quando o presidente Felipe Calderón, pressionado pelos EUA, declarou guerra às drogas, cerca de 60 mil pessoas morreram em razão da violência.

O desastre fez com que muitos no México, incluindo os ex-presidentes Vicente Fox e Ernesto Zedillo, pedissem uma revisão da política do atual governo. O presidente eleito, Enrique Peña Nieto, que assume dia 1.º de dezembro, também mostrou insatisfação, embora tenha prometido manter a repressão.

Um grupo de líderes latino-americanos declarou esta semana que a legalização em Washington e Colorado afeta a região. Entre eles estavam Calderón e os presidentes Porfirio Lobo, de Honduras, Laura Chinchilla, da Costa Rica, e o premiê de Belize, Dean Barrow. Eles não disseram explicitamente que relaxariam suas políticas antidrogas, mas deixaram claro que ficou mais difícil manter a proibição.

Os quatro pediram que a Organização dos Estados Americanos (OEA) estude o impacto da legalização da maconha e disseram que a Assembleia-Geral da ONU deveria convocar uma sessão especial sobre o tema.

Há duas semanas, um dos mais próximos assessores de Peña Nieto disse que seria muito difícil o país manter a proibição de cultivo e tráfico de uma droga que agora é legal em alguns Estados americanos.

Luis Videgaray, chefe da equipe de transição de Peña Nieto, disse que os acontecimentos nos EUA "complicam" o compromisso de seu país com o combate ao narcotráfico. "Obviamente, não podemos lidar com um produto que é ilegal no México, tentando impedir sua venda para os EUA, quando lá, pelo menos em parte do país, ele agora tem um status diferente", disse.

A ameaça deve aumentar a pressão para que o presidente Barack Obama faça cumprir a lei federal americana que ainda proíbe o uso da maconha. Obama, porém, ainda não definiu como responderá aos referendos em Washington e Colorado - se tentará impor a proibição ou respeitará a vontade dos eleitores.

"É preciso analisar em profundidade as implicações para as políticas públicas e para a saúde em nossos países dos movimentos que estão surgindo em escala local que permitem a produção, o consumo e a distribuição de maconha em alguns países do continente", disse Calderón, após reunião como Lobo, Laura e Barrow. "A legalização da maconha por Estados americanos é uma mudança de paradigma." / AP

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