Lei de talião levará à forca mulher que matou seu estuprador no Irã

Lei iraniana do 'olho por olho, dente por dente' pune os delitos de sangue com a morte, mas dá à família da vítima a possibilidade de conceder o perdão

O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 19h23

TEERÃ - Terminado o prazo de dez dias de adiamento de sua execução, a jovem iraniana Reyhaneh Jabbari, condenada a morte por matar o homem que a estuprou, pode ser enforcada a qualquer momento, após a recusa da família da vítima em perdoá-la."Quero que o direito do sangue de meu pai seja cumprido o mais rápido possível", declarou à agência EFE Jalal Sarvandi, filho da vítima, Morteza Abdolali Sarvandi, médico e ex-funcionário do Ministério de Inteligência assassinado por Jabbari, como ditou a decisão da corte iraniana que a condenou em 2009 a morrer na forca.

Organizações defensoras dos direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, pediram a suspensão da sentença por considerar que o julgamento da jovem, que tinha 19 anos quanto foi estuprada, não contou com as garantias necessárias.

A União Europeia também pediu esta semana que as autoridades iranianas revoguem a decisão e realizem um novo julgamento.

Jabbari admitiu ter esfaqueado Sarvandi no pescoço depois de ele tentar agredi-la sexualmente, mas garante que não o matou. Ela afirmou que havia uma terceira pessoa no quarto que pode tê-lo matado.

A lei iraniana de talião ("olho por olho, dente por dente") pune os delitos de sangue com a morte, mas dá à família da vítima a possibilidade de conceder o perdão e também de participar da execução da sentença.

"O julgamento foi independente. Foi um assassinato intencional, ela o apunhalou com uma faca de 50 centímetros que carregava na bolsa, comprada dois dias antes. Que outra intenção poderia ter?", questionou Jalal, que lembrou ter apenas 24 anos e seu irmão caçula apenas 9 na época do crime , em 2007.

"A lei de talião é correta e a pena de morte se aplica em muitas partes do mundo, inclusive nos EUA", justificou o filho da vítima, ao acrescentar que a duríssima lei do "olho por olho, dente por dente" acalmará "parte do dor" de sua família.

Diversas organizações ressaltaram a falta de garantias e questões não esclarecidas no julgamento, entre elas a descoberta no local (um apartamento que a jovem teria sido contratada pelo médico para redecorar, alegou ela) de um copo com sedativos comprados pelo médico horas antes.

Jalal nega que fossem sedativos, mas de um remédio de sua tia, proprietária do apartamento, e se recusa a acreditar que um homem poderia levar uma jovem a um edifício tão movimentado com a intenção de estupra-la. Ele acredita firmemente que a faca e uma mensagem de Jabbari enviada a um amigo na véspera mostram ter se tratado de "um crime organizado e premeditado".

Perguntado se algum membro de sua família aceitará o habitual convite para empurrar a cadeira sob os pés de Jabbari quando ela estiver com a corda no pescoço, Jalal disse que "ainda não pensamos nesses detalhes".

Apesar da provável iminência da execução - na semana passada ela foi transferida para ser enforcada, mas devolvida à prisão depois de as autoridades ordenarem uma suspensão de dez dias que termina nesta quinta-feira, 9 - sua família ainda tem esperança de que algo mude no último minuto.

"Milhares de vezes nestes sete anos fomos à casa dos Sarvandi para pedir que a perdoassem, mas sempre nos deparamos com uma porta fechada", lamentou a atriz iraniana e mãe de Jabbari, Shole Pakravan, que deposita suas últimas esperanças na pressão internacional para evitar o enforcamento.

"A única coisa que quero neste momento é que Reyhaneh volte a casa. Que Deus devolva a minha filha", desabafou à EFE.

Sua advogada, Parisa Ganbari, explicou à EFE que os tribunais "ainda não receberam o expediente de execução da pena", trâmite que deve ser realizado pelo menos uma semana antes da execução, o que garante que Jabbari permanecerá viva pelo menos pelos próximos sete dias.

O chefe do Poder Judiciário em Teerã, Gholamhosein Esmaili, afirmou esta semana que o atraso se deve ao tempo que quiseram dar para as "negociações" com a família da vítima.

"Há esforços para conseguir o perdão da família e esperamos que se consiga. Se consentirem, então a sentença tomará outra forma (prisão), mas se não, ela será executada", assinalou. / EFE 
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