ADRIANA CARRANCA / ESTADÃO
Refugiados no Porto de Augusta, Sicília; mais de 86% das mortes no mar este ano ocorreram entre o Norte da África e a costa italiana  ADRIANA CARRANCA / ESTADÃO

Pesadelo no Mediterrâneo: Lei mais dura na Europa, mais mortos no mar

Desesperados, candidatos ao refúgio lançam-se em rotas cada vez mais arriscadas

Adriana Carranca, Enviada Especial / Trappani, Itália, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2016 | 05h00

TRAPPANI, ITÁLIA - Na noite do dia 25, 11 barcos foram lançados ao mar da costa da Líbia com 304 pessoas, rumo à Itália. No menor deles, viajavam oito famílias sírias. O mar parecia calmo e o contrabandista garantiu que em pouco mais de duas horas eles estariam em terra firme. Em alto-mar, porém, o cenário era outro. Os passageiros de um dos botes viram quando uma grande onda virou a pequena embarcação e jogou os 27 sírios ao mar.

O bote estava distante demais, lotado demais, sem comunicação para pedir socorro e sem combustível suficiente para retornar – uma estratégia dos traficantes, para obter mais lucro, é lançar as embarcações ao mar com combustível suficiente apenas para chegar até águas internacionais, onde operam os navios de resgate no Mar Mediterrâneo. Com o filho de 5 anos em um dos braços, Abdel Azis el-Assaf tentou sustentar a mulher com o outro, mas teve de deixá-la por um momento para socorrer a filha. 

Assaf nadou até a menina, mas, ao aproximar-se dela, viu que estava morta. Quando tentou voltar ao ponto onde deixara a mulher, Jihan, já não a encontrou. Provavelmente, afundara – o grupo usava colete salva-vidas, mas os artefatos, entregues pelos traficantes, são falsos, preenchidos apenas com espuma. 

Duas crianças morreram por dia no Mediterrâneo no último ano, desde 1.º de setembro de 2015, quando a foto do corpo do menino sírio Aylan Kurdi, encontrado em uma praia da Turquia, chocou o mundo. A imagem obrigou a União Europeia a responder à tragédia, mas não evitou que outras 4.376 pessoas morressem no mar nestes 12 meses. São 6.600 desde janeiro de 2015; 9.969 desde 2014, quando o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) avançou sobre terras sírias e iraquianas e a guerra se intensificou. 

“Tentar manter as pessoas fora (da Europa) não está funcionando. O fechamento das fronteiras e a política para refugiados adotada pela União Europeia reduziram as chegadas, mas o número de mortos continua crescendo. Isso indica que eles estão chegando por meios mais perigosos e por rotas mais letais, como Líbia-Itália”, afirma Andrea Ciocca, coordenador das operações da ONG Médicos Sem Fronteiras em Trappani.

Mais de 86% das mortes no mar este ano ocorreram entre o Norte da África e a costa da Sicília. Entre janeiro e agosto, 2.726 morreram ou desapareceram nesta travessia, de acordo com a Organização Internacional de Migração – quase o total de mortos em todo o ano passado (2.892) na mesma rota. 

Um em cada 39 dos que tentaram a travessia morreu. A proporção de mortes na rota entre Líbia e Itália, em relação ao número de chegadas, é 11 vezes maior do que na rota via Grécia, mais curta, mas menos usada após o acordo da União Europeia com a Turquia, firmado em março, que prevê a deportação de novos refugiados, requerentes de asilo e migrantes que chegam às ilhas gregas.

Escolha. Assaf e Jihan decidiram arriscar-se na rota desde a Líbia porque a irmã dela, que chegou à Grécia há cinco meses, contou estar encurralada com o marido e os dois filhos no país, vivendo em condições precárias, sem direitos e sob ameaça de serem enviados de volta à Turquia. 

Outras 50 mil pessoas estão na mesma situação – 38% delas crianças –, mantidas em “campos de detenção”, segundo o Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). 

A família fugiu de Raqqa, “capital” do Estado Islâmico na Síria. Os pais de Assaf continuam na cidade, prisioneiros na própria casa, sem eletricidade ou água potável. Os pais de Jihan fugiram para a Turquia. 

“Por favor, me diga que ela está viva”, dizia a mãe, por telefone, ao sobrinho Karom Fihan, de 20 anos, único da família que conseguiu cruzar as fronteiras da Europa até a Holanda, onde pediu asilo, após ser preso duas vezes pelo Estado Islâmico – a primeira, por seis dias, por fumar e a segunda, por 20 dias, por não atender a uma convocação do grupo. “São um bando de loucos”

Veja abaixo: Assista trecho do documentário 'Quando Eu Era Você'

O centro forense onde estavam os cinco corpos resgatados na noite do naufrágio, dois deles de crianças, fica em um prédio com vista para o Mar Mediterrâneo. Os corpos foram identificados como sendo de um egípcio que conduzia a embarcação, mas seu nome não foi revelado; de Hadida Mataibe al-Faris, de 26 anos, que viajava com o marido; e das meninas Dania e Alaa, de 1 e 2 anos, e sua mãe, Raja Saleh, de 36 anos. O marido de Raja e pai das crianças, Yasir Ahmad Ramadan, de 40 anos, foi o único sobrevivente da família.

 

Culpa. O Estado conversou com Assaf e Yasir dentro do centro para refugiados de Trappani, uma antiga prisão de muros altos vigiada pelo Exército italiano, um dos chamados “hot spots” para onde são levados os resgatados do mar. 

Confusos e chorando, Assaf e Yasser estavam impedidos de deixar o local. Assaf ainda acreditava que a mulher podia estar viva. Ele contou que o traficante que organizou a travessia assegurava que o pequeno barco de madeira, mais leve que os grandes botes levando centenas de pessoas, era mais seguro. Pelo serviço “vip” cobrou US$ 1.700 por adulto e US$ 1.000 para as crianças. 

Dias depois, Assaf foi transferido com o filho para um abrigo em Roma, onde estão outros 300 refugiados. “Todo o sistema de recebimento é de controle e não de assistência”, diz a ativista marroquina Nawal Soufi. “Eles chegam, são registrados e depois transferidos para os centros onde têm moradia, mas passam a viver por conta própria.” 

Sozinho com o filho de 5 anos, sem documentos ou dinheiro, perdidos no naufrágio, e sem falar italiano ou inglês, Assaf tem medo de deixar o centro. Passa os dias revendo a tragédia no mar e remoendo a culpa por não ter podido salvar a mulher e a filha.

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De campo nazista a cemitério da fuga

Campo de Ferramonti di Tarsia, na região da Calábria, foi o maior dentre 15 mantidos por Benito Mussolini, aliado da Alemanha de Hitler, durante a 2.ª Guerra

Adriana Carranca, Enviada Especial / Tarsia, Itália, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2016 | 05h00

TARSIA, ITÁLIA - Parte do terreno de um campo de concentração nazista está sendo preparado para abrigar o primeiro cemitério internacional para refugiados mortos no Mediterrâneo. O Campo de Ferramonti di Tarsia, na região da Calábria, foi o maior de 15 campos mantidos por Benito Mussolini, aliado da Alemanha de Hitler, durante a 2.ª Guerra. Dos 3,8 mil judeus aprisionados no campo, entre 1940 e 1943, somente 141 eram italianos.

Desde 2014, quando a guerra na Síria se intensificou, 9.969 pessoas morreram na travessia – 11 por dia. A maioria nunca foi identificada. Os corpos estão enterrados em covas espalhadas por 70 cemitérios comuns – a maioria em cidades e vilarejos da Sicília, onde há sepulturas sem registro e outras identificadas apenas por um número. O projeto da prefeitura de Tarsia prevê que os corpos resgatados do mar, mas não identificados, também sejam sepultados no novo cemitério, que se tornaria um ponto de referência para parentes e amigos dos desaparecidos. 

“Dar às pessoas um enterro digno e a seus parentes um local que possam visitar é um ato humanitário”, diz Franco Corbelli, um ativista local. “A ideia é que seja um cemitério inter-religioso.” O projeto prevê ainda um monumento em homenagem ao menino sírio Aylan Kurdi, cuja imagem em uma praia da Turquia se tornou símbolo da tragédia dos refugiados, e daria nome ao cemitério. 

Pouco sobrou do Campo de Ferramonti, localizado em uma área rural ao longo do Rio Crati, a seis quilômetros da cidade de 2 mil habitantes. À margem do rio fica o cemitério local, onde estão enterrados, em uma parte reservada, os judeus mortos no campo. É na frente deste cemitério que está sendo preparado o terreno para abrigar os refugiados mortos no Mediterrâneo.

A construção do campo teve início no dia 4 de junho de 1940, uma semana antes da entrada da Itália na guerra. Mussolini começou a perseguição e prisão de judeus pouco depois e os primeiros presos chegaram no dia 20. A intenção era deportá-los mais tarde para a Alemanha. 

Veja abaixo: Número de refugiados atinge recorde

Maria Lavorato, que trabalha como voluntária na recuperação da história de Ferramonti, conta que quando os alemães chegaram à cidade, o comandante do campo hasteou a bandeira amarela, que indicava epidemia de tifo entre os presos, salvando-os de serem transferidos para Auschwitz. Apenas uma casa que servia de alojamento para os comandantes permanece original, mas está abandonada. O local está sendo recuperado e a área onde ficavam os prisioneiros, abrigará um museu. 

Parte do acervo já pode ser vista em um espaço que tem as bandeiras de Itália e Israel na entrada. Monia Martorando, que trabalha com a integração de refugiados em Tarsia, diz que a restauração, que inclui o cemitério para refugiados, custará € 4,3 milhões, financiados pelo governo da Calabria, governo italiano e UE.

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Risco da travessia vale se a morte é certa em casa

No Porto di Augusta, na Província de Siracusa, o navio da marinha Nave Sirio aportou trazendo 576 pessoas a bordo; os sinais de exaustão e sofrimento estavam no rosto de cada um, mas havia também um ar de alívio

Adriana Carranca, Enviada Especial / Tarsia, Itália, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2016 | 05h00

TARSIA, ITÁLIA - Nas duas últimas semanas, mais de 17,8 mil pessoas foram resgatadas do Mediterrâneo central – 6,5 mil delas, que viajavam em 40 embarcações naufragadas ou encontradas à deriva, foram salvas em um só dia. No Porto di Augusta, na Província de Siracusa, o navio da marinha Nave Sirio aportou trazendo 576 pessoas a bordo. Os sinais de exaustão e sofrimento estavam no rosto de cada um, mas havia também um ar de alívio. 

Elas vinham de 11 países – Nigéria, Sudão, Eritreia, Guiné, Gâmbia, Etiópia, Senegal e Somália, Costa do Marfim, Egito e Bangladesh –, fugindo de conflitos, epidemias, tirania e pobreza extrema. A travessia do Mediterrâneo é arriscada, mas é também a ultima etapa de uma longa jornada que envolveu perigos maiores: exploração, escravidão, abuso sexual, perseguição, sequestros, prisões arbitrárias, tortura, fome. O mar é recomeço.

“Quais são as chances de sobreviver na travessia do mar? Cinquenta por cento? Metade vai chegar vivo, é isso? Para nós, é chance suficiente! De onde a gente vem, é chance suficiente! Você entende? Porque ficar é certo que vai morrer”, diz Ademola, de 32 anos, comerciante. Ele e a mulher saíram da Nigéria há três anos, quando um amigo o convenceu de que havia trabalho na Líbia. Em Trípoli, acabou lavando carros nas ruas para sobreviver. Uma noite, homens encapuzados invadiram sua casa e o sequestraram. “Roubaram tudo o que eu tinha: 500 dinares (algo como US$ 360). Não há governo na Líbia, os bancos não funcionam, então, todo o dinheiro fica em casa”, diz. “Eles nos amarraram e espancaram. Minha mulher desmaiou, ela tinha nosso filho de 2 anos nos braços. Durante um mês, ficamos presos, trabalhando como escravos. ‘O que você está fazendo na Líbia, seu negro!’, eles gritavam. Depois, nos jogaram no mar.”

Vitória, de 42 anos, que fugiu da Nigéria com os filhos Vitor e Comfort, recém-nascida, conta ter sido mantida por dois anos em um bordel na Líbia para pagar pela travessia do Mediterrâneo. Eles foram resgatados de um pequeno bote que levava 130 pessoas, da costa líbia à Sicília. Este ano, mais de 112 mil fizeram a travessia Líbia-Itália.

O caos na Líbia transformou o país em um centro de traficantes de pessoas. A União Europeia planeja “treinar” a guarda costeira líbia para identificar os criminosos, mas é provável que ela também lucre com o contrabando, assim como as facções que lutam em seu território. Pouco antes de salvar do mar parte das 576 pessoas que desembarcaram no porto de Augusta, o navio de resgate Bourbon Argos foi abordado por homens armados, em uma lancha, que dispararam contra a embarcação e, em seguida, o invadiram. O envolvimento de homens da marinha líbia foi confirmado mais tarde. As organizações de ajuda humanitária pedem a abertura de um corredor seguro para os que tentam chegar à Europa.

Os relatos dos que chegam pelas mãos de traficantes formam um quebra-cabeça de horror sobre a situação em regiões ignoradas pela comunidade internacional.

Veja abaixo: Número de refugiados atinge recorde

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Refugiados sofrem com exploração econômica

Após travessia, migrantes acabam em situação análoga à escravidão na Itália

Adriana Carranca, enviado especial / Cassibile, Itália, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2016 | 05h00

CASSIBILE, ITÁLIA - O sudanês Mustafa Said, de 29 anos, espera ansioso o período de colheita de tomates na Sicília, Itália. Sem ter onde morar, está acampado em uma lavoura cujo proprietário desconhece. Seu contato é um atravessador, a quem descreve como “dono” dos trabalhadores, que vivem em situação análoga à escravidão. A exploração de refugiados é a nova face da economia do Mediterrâneo. 

Há outra, ainda: a das ruas. O Estado encontrou dezenas de refugiados dormindo nas ruas e mendigando nos faróis de Catania, Palermo, Messina, Trapani, Siracusa, vítimas de políticas adotadas pela União Europeia no último ano, que jogaram milhares na clandestinidade.

Said dorme em uma barraca de plástico que improvisou. Outros, ao relento, em colchões úmidos. Não há eletricidade, água potável ou coleta de esgoto no acampamento, improvisado pelos trabalhadores. O banheiro é a terra. Eles saem antes do amanhecer e só retornam depois de o sol se pôr. 

Na Europa de Said, as condições de vida são parecidas às do país de onde fugiu. “A diferença é que aqui não tem guerra, o resto é mais ou menos igual”, diz. “Se conseguisse trabalho contínuo, a vida melhorava. Porque na minha terra (uma pequena aldeia na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul) isso também não tem.” 

A mãe de Said morreu, o pai e os irmãos mais jovens ficaram para trás – refugiar-se exige dinheiro. Somente ele e um irmão migraram, ambos estão nas mãos de intermediários que selecionam trabalhadores para as lavouras do sul da Itália. “Negros fortes, feito eu e meu irmão, têm mais chance, porque aguentam mais horas e carregam mais peso.” Nas raras vezes que conseguem juntar algum dinheiro, o enviam para a família. Said não tem coragem de dizer a eles que o sonho da Europa se tornou um pesadelo. 

“Essa é uma grande fonte de estresse psicológico para essas pessoas, porque os parentes acreditam que os que migraram estão melhor de vida e os pressionam para que enviem dinheiro. Muitas dessas famílias investiram tudo para mandar o filho para a Europa”, diz o padre Carlo Dantom, que abriga em sua igreja, em Siracusa, refugiados e migrantes excluídos do sistema de proteção italiano. Mais de 20 mil deles passaram pela casa que mantém com doações. 

A maioria dos que se sujeitam à exploração não tem documentos. Muitos tiveram o pedido de asilo recusado. A Oxfam (grupo de ONGs humanitárias) estima que mais de 5 mil migrantes receberam a carta de expulsão do governo italiano há um ano, quando a União Europeia adotou nova política de registro de migrantes e refugiados, na tentativa de excluir do sistema aqueles que buscam asilo por questões econômicas, embora isso contrarie leis internacionais.

Veja abaixo: Assista trecho do documentário 'Quando Eu Era Você'

O documento determina que deixem o país em uma semana. Mesmo que quisessem voltar para casa, eles não têm dinheiro para isso. Mais de 90% caem na clandestinidade – e na teia de criminosos que lucram com o trabalho escravo e as ruas.

“A polícia, as autoridades, os empregadores, todos sabem que eles não têm papéis. Mas fazem vista grossa, porque a ilegalidade é uma forma de exercer controle sobre eles”, diz o padre Carlo. O trabalho na lavoura era antes exercido por italianos, o que obrigava os donos de terra a pagar a eles o mínimo previsto por lei e garantir moradia e alimentação. “O uso de ilegais barateou os custos da produção. São eles que hoje sustentam a agricultura mediterrânea.”

Said recebe pelo que colhe. A colheita do tomate, base da culinária italiana, é a que melhor paga: 6 euros por contêineres, no caso dos tomates pequenos, e 3 euros, dos maiores. Quem pesa é o “patrão” e Said não tem alternativa, a não ser confiar nele. Esses atravessadores protegem os donos de terra de processos por uso de trabalho escravo, embora seja improvável que um ilegal consiga ingressar com ação por direitos na Justiça. 

Nas ruas. Hamza, de 26 anos, fugiu da Somália após um carro-bomba explodir na frente do pequeno comércio da família em Mogadíscio. O prédio caiu. Como muitos que fogem do Chifre da África, ele atravessou 9.675 km em ônibus, caminhões e a pé em uma jornada que se arrastou por 18 meses e passou por cinco países. Em cada parada, fazia bicos para custear o próximo trecho. 

Na Líbia, acabou em uma prisão em Gharyan, a cerca de 80 km de Trípoli, da qual escapou com outros 150 prisioneiros. Após a fuga, foi capturado novamente, dessa vez por contrabandistas. “Eles queriam US$ 3 mil por minha libertação. Se não conseguiam falar com minha família, me batiam até eu desmaiar.” Quando viram que a família não mandaria o dinheiro, eles o soltaram.

Hamza diz que seguiu sem destino até se esconder na boleia de um caminhão. Assim, chegou a uma fazenda. Trabalhou na lavoura por quatro meses e pagou a travessia de barco para a Sicília. Em Catania, fez bicos para pagar a viagem de ônibus a Munique, na Alemanha, onde ficou por dois anos.

Há seis meses, foi colocado em um avião e deportado para Milão, com base na Convenção de Dublin. Hamza passou a viver nas ruas de Catania. Durante o dia, perambula pelas proximidades da estação de trem, onde contrabandistas costumam recrutar estrangeiros para a lavoura ou o mercado informal. Muitas mulheres acabam exploradas pela rede de prostituição. 

Para entender

A Convenção de Dublin, aprovada em 2013, prevê que pedidos de asilo só podem ser feitos nos países de chegada. Há um ano, a agência da União Europeia para controle de fronteiras (Frontex) passou a colher impressões digitais dos que chegam ainda nos portos. Isso tem mantido milhares na Itália, principal entrada dos que tentam chegar à Europa, após acordo da UE com a Turquia, que prevê a deportação dos que chegam pela Grécia de volta ao país. A nova política foi justificada sob a promessa de que pelo menos 160 mil deles seriam realocados no continente. Mas, até o primeiro semestre, pouco mais de 800 pessoas foram realocadas da Itália. Somente neste ano, mais de 112 mil pessoas chegaram ao país pelo mar.

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Rota migratória intensifica máfia da prostituição na Itália

Tráfico de nigerianas, denunciado há ao menos três décadas na Europa, dobrou de 2015 para 2016

Adriana Carranca, enviada especial / Catania, Itália, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2016 | 05h00

CATANIA, ITÁLIA - A nigeriana Isoke Aikpitanyi, de 38 anos, chegou à Itália com a perspectiva de trabalhar. Acabou numa rede de prostituição, explorada pelas máfias italiana e nigeriana. Foi humilhada, violentada por traficantes e obrigada a trabalhar nas ruas de Turim por 10 euros o programa. 

O tráfico de nigerianas para exploração sexual na Itália tem sido denunciado há pelo menos três décadas, mas atraiu novamente a atenção da comunidade internacional quando as autoridades perceberam que os contrabandistas estavam usando a rota do Mediterrâneo para infiltrar vítimas. 

No primeiro semestre deste ano, ao menos 3,6 mil nigerianas chegaram de barco, pela travessia entre a costa líbia e a Sicília. O número representa o dobro do ano passado, o maior salto da década. Mais de 80%, segundo a Organização Internacional para Migração, foram traficadas para exploração em bordéis da Itália e outros destinos europeus. As autoridades estimam que 120 mil mulheres sejam exploradas para prostituição na Itália, um terço nigerianas.

Muitas vêm acompanhadas do “marido”, mas, como não têm documentos, é difícil saber se falam a verdade. As autoridades creem que muitos acompanhantes façam parte da rede de tráfico e sejam também explorados para trabalho escravo ou para pedir dinheiro nas ruas. 

Essas pessoas são trazidas de seus países com esse objetivo, pelas mãos da mesma rede que lucra com refugiados. “Eles não sabem que serão explorados. Ninguém acredita que esse tipo de coisa ainda exista, mas a escravidão moderna é uma realidade perversa”, diz Isoke. Ela conseguiu escapar pelas mãos de um cliente, com quem fugiu, e hoje ajuda outras mulheres.

“Temos percebido também um aumento no número de menores desacompanhadas”, diz Lucia Borgh, da ONG Borderline. Ao chegar à Itália, elas são obrigadas a assumir dívida pela viagem que chega a 40 mil euros, segundo Isoke, a serem pagos com “trabalho”. Muitas são exploradas ao longo do caminho, principalmente na Líbia.

Veja abaixo: Assista trecho do documentário 'Quando Eu Era Você'

De um lado, a possibilidade de obter asilo garante a permanência das mulheres no país, evitando o risco de deportação, o que seria prejuízo para os criminosos. De outro, quando têm o pedido negado, elas se tornam presas fáceis dos traficantes.

“Essas mulheres escapam de miséria, conflitos, da violência de grupos como Boko Haram para serem exploradas na Europa”, diz o tradutor eritreu Abraha Tewolde, na Itália há 40 anos. Segundo ele, os criminosos se beneficiam de falhas no sistema italiano. Após desembarcarem, os que chegam pelo Mediterrâneo são encaminhados para abrigos em cidades, onde vivem à espera de decisão sobre o asilo. As mulheres têm desaparecido desses centros.

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