Lei proibe cidadãos da China de acessarem as instalações da Nasa

Se os marcianos aterrissassem em propriedade da Nasa, os cidadãos chineses não participariam do comitê de boas-vindas. Esta é uma possível consequência, mesmo que distante, de uma lei federal e uma moratória decidida em março, proibindo cidadãos da China e de algumas outras nações de acessarem as instalações da agência norte-americana. A justificativa do administrador da instituição, Charles Bolden, ao decretar a moratória, foi proteger os Estados Unidos e sua tecnologia espacial contra espiões. Isso depois de supostos atos de espionagem nas instalações da Nasa que acabaram se revelando falsos.

Adam Minter* - O Estado de S. Paulo,

10 de outubro de 2013 | 22h32

Uma consequência real das medidas adotadas é que pesquisadores e estudantes chineses não poderão participar de uma conferência em novembro sobre mundos alienígenas no Ames Research Center, em Mountain View, Califórnia. Por isso, diversos pesquisadores renomados decidiram boicotar a conferência.

Pode não parecer o fim do mundo e, naturalmente, não é. Existem assuntos mais importantes para a relação sino-americana do que a participação de chineses em discussões sobre "Análogos da Terra e Super-Terras", em instalações de propriedade do governo americano. Mas na China, país que tem enviado um número cada vez maior estudantes para faculdades americanas, a moratória é um símbolo de discriminação e humilhação nacional. Outros têm uma opinião mais pragmática, mais compassiva: "A China não faria o mesmo?"

O jornal Guardian, da Grã-Bretanha, é creditado por revelar os esforços dos chineses em busca de planetas extrassolares. Num artigo publicado sexta-feira que foi traduzido, distribuído e lido na Internet na China, o jornal descreveu como uma "reação não usual" de pesquisadores dos Estados Unidos diante da notícia de que a Nasa recusara inscrições dos chineses para participar da conferência. Mas poucas pessoas na China deram muita atenção aos esforços de cidadãos que não são chineses defendendo o direito de participação dos chineses.

Pelo contrário, seu foco está na exclusão. Muitos usuários da mídia social chinesa evocaram o Chinese Exclusion Act, uma lei deplorável promulgada em 1882 que estabelecia uma moratória para imigração aos Estados Unidos de trabalhadores chineses. No domingo, Deng Huabei, que trabalha para a MSN China, enviou este tuíte da sua conta no Sina Weibo, o mais popular serviço de microblog da China: "Espero que os Estados Unidos mantenham distância do Macartismo e jamais sancionem uma nova Chinese Exclusion Act", ele escreveu. "E como a ciência transcende as fronteiras nacionais, a lei não funcionaria de qualquer modo".

Alguns blogueiros foram ainda mais diretos, e mais modernos, em suas declarações sobre a proibição. Song Hongbin, conhecido comentarista e escritor com uma inclinação decididamente antiamericana, assim se manifestou no Sina Weibo, no domingo: "Devemos processar a Nasa. Não importa a razão apresentada por ela, o fato é que o motivo subjacente desta proibição tem a ver com discriminação racial". Outros criticaram ainda mais violentamente, como o internauta sediado na Suíça que criou um famoso aviso que os administradores coloniais de Xangai no século 20 supostamente teriam colocado na entrada de um parque (que provavelmente não existiu). "Isso me lembra um antigo aviso", ele escreveu no seu tuíte no domingo. ‘Cães ou chineses não são permitidos’. A proibição é um retrocesso’", afirmou.

A cólera online é com certeza real, mas, como muita coisa na internet, também é seletiva. O Guardian e os internautas chineses praticamente ignoram o fato de que a moratória também se aplica a cidadãos de Mianmar, Eritreia, Irã, Arábia Saudita, Sudão, Usbequistão. Seguramente, é improvável que Eritreia e Sudão tenham muitos cientistas estudando os planetas fora do sistema solar que desejariam participar desta conferência - e é improvável também que cidadãos dessas nações pretendam espionar instalações da Nasa.

Os cidadãos chineses, contudo, suportam o ônus do pouco empenho do seu país para proteger a propriedade intelectual e seu forte comprometimento com a espionagem. Certo ou errado, uma grande suspeita existe com relação aos chineses quando se trata de instrumentos e instalações do governo americano. Muitos dos mais de cinco mil comentários sobre a matéria publicada no portal online chinês Tencent foram de aprovação, ou pelo menos de simpatia para com as medidas da Nasa. Essas reações foram repercutidas no Sina Weibo.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, tais comentários podem parecer ingênuos. Talvez sejam. Mas eles também mostram como as suspeitas americanas corroem o espírito de cooperação necessário para a realização de pesquisas internacionais em colaboração, que são a base da ciência moderna. A proibição da Nasa intensifica os ressentimentos e, ao mesmo tempo, será garantia de que pelo menos alguns dos melhores cientistas e estudantes da China pensarão duas vezes se os Estados Unidos seriam o lugar certo para estudar ou seguir uma carreira.

*Adam Minter é correspondente em Xangai do blog World View

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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