Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

Leia a íntegra do discurso de Barack Obama na ONU

Presidente americano não rejeitou ideia de Estado palestino, mas somente perante acordo

estadão.com.br

21 Setembro 2011 | 12h54

NOVA YORK - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi o segundo chefe de Estado a falar diante da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU) nesta quarta-feira, 21.

 

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O presidente americano falou logo após a presidente Dilma Rousseff discursar em favor do reconhecimento do Estado palestino. Obama, porém, assumiu as mesmas posições que já eram previstas e manteve-se ao lado de Israel, pedindo aos palestinos que voltem às negociações. Leia a seguir a íntegra do discurso de Obama - e assista ao vídeo do discurso (fonte: Casa Branca).

 

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Barack Obama: "Senhor Presidente, Senhor Secretário Geral, caros delegados, senhoras e senhores: gostaria de abordar um assunto que está na essência das Nações Unidas - a busca da paz num mundo imperfeito.

 

 

Convivemos com guerras e conflitos desde o início da civilização. Mas na primeira parte do século 20, o desenvolvimento de armamentos modernos levou a morte a uma dimensão aterradora. E esses assassinatos compeliram os fundadores deste órgão a criar uma instituição concentrada não só em acabar com as guerras, mas impedir outras; uma união de Estados soberanos que busca evitar conflitos, mas também, ao mesmo tempo, afrontar as suas causas.

 

Nenhum americano fez mais para alcançar este objetivo do que o presidente Franklin Roosevelt. Ele sabia que a vitória numa guerra não era suficiente. Como disse numa das primeiras reuniões com vistas à criação das Nações Unidas, "Temos que fazer não apenas uma paz, mas uma paz duradoura".

 

Os homens e mulheres que fundaram esta instituição compreenderam que a paz é mais do que ausência de guerra. Uma paz duradoura - para nações e indivíduos - implica um sentimento de justiça e oportunidade; de dignidade e liberdade, exige luta e sacrifício; um compromisso e um sentido de humanidade.

 

Uma delegada na conferência de San Francisco que criou as Nações Unidas definiu isso muito bem : "Muitas pessoas", disse ela, "falaram como se todos nós, para conseguirmos a paz, tivéssemos que dizer em voz alta e frequentemente que amamos a paz e odiamos a guerra. Agora sabemos que não importa o quanto amamos a paz e odiamos a guerra, o fato é que não podemos evitar o irrompimento de uma guerra se existem convulsões em outras partes do mundo".

 

O fato é que a paz é difícil, mas nossos povos a exigem. Durante quase sete décadas, mesmo que as Nações Unidas tenham contribuído para impedir uma terceira Guerra Mundial, ainda vivemos num mundo marcado por conflitos e assolado pela pobreza. Embora proclamemos nosso amor pela paz e o ódio da guerra, existem convulsões em nosso mundo que nos colocam em perigo.

 

Assumi o governo numa época em que os Estados Unidos estavam envolvidos em duas guerras. E extremistas radicais que nos empurraram para essas guerra, - Osama bin Laden e sua organização, a Al-Qaeda - continuavam foragidos. Hoje, estabelecemos uma nova direção.

 

No final deste ano, as operações militares americanas no Iraque serão encerradas. Teremos uma relação normal com uma nação soberana e membro da comunidade das nações. Essa parceria de igual para igual será reforçada com o nosso apoio ao Iraque - para o seu governo e forças de segurança; para a população e suas aspirações.

 

À medida que encerramos a guerra no Iraque, os Estados Unidos e seus parceiros de coalizão iniciam uma transição no Afeganistão. Até 2014, um governo afegão e as suas forças de seguranças cada vez mais capacitadas assumirão a responsabilidade pelo futuro do país. E à medida que isso ocorrer, reduziremos nossas próprias forças no país, criando ao mesmo tempo uma parceria duradoura com a população afegã.

 

Portanto, que não haja dúvidas: a tendência à guerra está retrocedendo. Quando assumi o governo, cerca de 180.000 americanos serviam no Iraque e no Afeganistão. No fim deste ano, esse número estará reduzido à metade e continuará a diminuir. Isto é crucial para a soberania do Iraque e do Afeganistão e para o fortalecimento dos Estados Unidos à medida que, internamente, construímos nossa nação.

 

Além disso, estamos dispostos a por fim a essas guerras numa posição de força. Há dez anos, havia uma ferida aberta por aço retorcido e corações partidos nesta cidade. Hoje, uma nova torre que se eleva no Marco Zero simboliza a renovação de Nova York; a Al-Qaeda está mais pressionada do que nunca. Sua liderança tem se degradado. E Osama bin Laden, o homem que assassinou milhares de pessoas de dezenas de países, nunca mais colocará em risco a paz do mundo novamente.

 

Sim, foi uma década difícil. Mas hoje chegamos a uma encruzilhada da história com a chance de caminharmos decisivamente na direção da paz. Para isso, precisamos reincorporar a sabedoria daqueles que criaram esta instituição. A Carta das Nações nos exorta a "unir nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais". E o Artigo Primeiro da Declaração Universal de Direitos Humanos desta Assembleia Geral nos lembra que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos". Essa crença fundamental - na responsabilidade dos Estados e nos direitos de homens e mulheres - tem que ser nosso guia.

 

Neste sentido, temos razões para ter esperança. Este foi um ano de transformação. Mais nações adotaram medidas para manter a paz e a segurança internacionais. E mais indivíduos estão reivindicando seu direito universal de viver em liberdade e com dignidade.

 

Há um ano, quando nos reunimos aqui em Nova York, a perspectiva de um referendo, levado a termo com êxito no Sul do Sudão, ainda era duvidosa. Mas a comunidade internacional superou antigas divisões para apoiar o acordo que foi negociado para a autodeterminação do Sul do Sudão. E no verão do ano passado, quando uma nova bandeira foi içada em Juba, antigos soldados depuseram suas armas; homens e mulheres choraram de alegria; e as crianças finalmente tiveram a perspectiva de um futuro que elas forjarão.

 

Um ano atrás, a população da Costa do Marfim se aproximava de uma eleição histórica. Quanto o presidente então titular foi vencido e recusou-se a aceitar o resultado das urnas, o mundo não fez vista grossa. Forças de manutenção da paz foram perseguidas, mas não deixaram seu posto. O Conselho de Segurança, liderado pelos Estados Unidos, Nigéria e França, apoiou a vontade de povo. E a Costa do Marfim hoje é dirigida pelo homem que foi eleito para governar.

 

Há um ano, as esperanças dos cidadãos da Tunísia foram suprimidas. Mas ela preferiu a dignidade dos protestos pacíficos em vez de um governo de mão de ferro. Um vendedor de frutas ateou fogo no seu próprio corpo, tirando sua própria vida, mas inflamando um movimento. Em face de uma forte repressão, os estudantes soletraram a palavra liberdade. A balança do medo se inclinou do lado do governante para o dos governados. Hoje a população da Tunísia se prepara para eleições, mais um passo na direção da democracia que ela merece.

 

Há um ano o Egito tinha um presidente que governava há quase 30 anos. Mas, durante 18 dias, os olhos do mundo se voltaram para a Praça Tahrir, onde egípcios de todas as camadas sociais - homens e mulheres, jovens e idosos, muçulmanos e cristãos - exigiram seus direitos universais. Vimos naqueles manifestantes a força moral da não violência que incendiou o mundo de Nova Délhi a Varsóvia; de Sela à África do Sul - e sabíamos que a mudança chegara ao Egito e o mundo árabe.

 

Há um ano, o povo líbio era governado por um dos ditadores há mais tempo no poder. Mas, enfrentando balas e bombas e um ditador que ameaçou persegui-los como ratos, os líbios mostraram uma coragem implacável. Nunca esqueceremos as palavras do líbio que se levantou nos primeiros dias da revolução e disse: "Nossas palavras são livres agora. É um sentimento que não se pode explicar".

 

Dia após dia, enfrentando balas e bombas, os cidadãos líbios se recusaram a renunciar a esta liberdade. E quando foram ameaçados pelo tipo de atrocidade em massa que prevaleceu, inconteste, no século passado, as Nações Unidas agiram nos termos da sua carta de constituição. O Conselho de Segurança autorizou a adoção de todas as medidas necessárias para impedir um massacre. A Liga Árabe apelou aos países árabes, que se uniram numa coalizão liderada pela OTAN que conteve o avanço das forças de Kadafi.

 

Nos meses seguintes, a disposição da coalizão se manteve inquebrantável, e a determinação da população líbia não pode ser negada. Foram 42 anos de tirania que acabaram em seis meses. De Tripoli a Misratah e Benghazi, hoje a Líbia está livre.

 

Ontem, os líderes de uma nova Líbia assumiram seu lugar legítimo ao nosso lado e esta semana os Estados Unidos estão reabrindo sua embaixada em Tripoli. É desta maneira que a comunidade internacional deve trabalhar - nações se unindo em prol da paz e da segurança; indivíduos reivindicando seus direitos. Hoje, todos nós temos a responsabilidade de apoiar o novo governo líbio num momento em que enfrenta o desafio de transformar este momento promissor numa paz justa e duradoura para todos os líbios.

 

De maneira que foi um ano notável. O regime de Kadafi acabou. Ben Ali e Mubarak não estão mais no poder. Osama bin Laden desapareceu e a noção de que as mudanças só podem se realizar por meio da violência foi enterrada com ele. Algo está sucedendo no nosso mundo. As coisas não serão mais como foram. O domínio humilhante da corrupção e da tirania está sendo eliminado à força. A tecnologia está colocando poder nas mãos das pessoas. Os jovens estão contestando a ditadura e rejeitando a mentira de que algumas raças, religiões e etnias não desejam a democracia. A promessa escrita de que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos" está cada vez mais ao alcance das mãos.

 

Mas é bom lembrar: a paz é difícil. O progresso pode ser revertido. A prosperidade pode vir lentamente. As sociedades podem sofrer divisões. Nosso sucesso só pode ser avaliado em relação aos cidadãos, se estão conseguindo viver em liberdade, dignidade e segurança e de uma maneira sustentada. E as Nações Unidas e os seus Estados membros necessitam fazer a sua parte para apoiar essas aspirações fundamentais.

 

No Irã, temos visto um governo que não quer reconhecer os direitos dos seus próprios cidadãos. E enquanto, hoje, aqui estamos reunidos, homens, mulheres e crianças estão sendo torturados, presos e assassinados pelo regime sírio. Milhares foram mortos, muitos durante o período sagrado do Ramadã. Outros milhares fugiram através das fronteiras sírias. A população da Síria tem demonstrado dignidade e coragem na sua busca por justiça - protestando pacificamente, manifestando silenciosamente nas ruas, morrendo pelos mesmos valores que esta instituição representa. A questão para nós é clara: estamos com o povo sírio ou com seus opressores?

 

As Nações Unidas já estabeleceram sanções severas contra os líderes sírios. Apoiamos uma transferência de poder que leve em conta os desejos e necessidades da população síria. Muitos dos nossos aliados se juntaram a nós nesta iniciativa. Mas para o bem da Síria - e da paz e da segurança do mundo - precisamos falar a uma só voz. Não há desculpa para a inação. Este é o momento do Conselho de Segurança das Nações Unidas punir o regime sírio e se colocar ao lado dos cidadãos do país.

 

Por toda a região, teremos que responder aos apelos por mudanças. No Iêmen, milhares de homens, mulheres e crianças reúnem-se em cidades e praças diariamente, na esperança de que a sua determinação e o sangue derramado vença um sistema corrupto. Os EUA apoiam suas aspirações. Precisamos trabalhar com os países vizinhos do Iêmen e os nossos parceiros em todo o mundo para encontrar um caminho que permita uma transição pacífica do poder do presidente Saleh, e um movimento para a realização de eleições justas e livres o mais breve possível.

 

No Bahrein, medidas vêm sendo adotadas com vistas a reformas e a prestação de contas, mas é preciso muito mais. Os Estados Unidos são um país amigo do Bahrein e continuaremos a apelar ao governo e ao principal bloco de oposição - o Wifaq - para prosseguirem com um diálogo positivo que propicie uma mudança pacífica que atenda aos interesses da população. E acreditamos que o patriotismo que une os cidadãos do Bahrein deve ser mais poderoso do que as forças sectárias que podem dividi-los.

 

Cada nação precisa estabelecer a sua própria trajetória para atender as aspirações dos seus cidadãos, e os Estados Unidos não querem entrar em acordo com cada partido ou pessoa que se expresse politicamente. Mas sempre defenderemos os direitos universais estabelecidos por esta Assembleia: eleições livres e justas; uma governança que seja transparente e preste contas aos seus cidadãos; o respeito pelos direitos das mulheres e minorias; e uma justiça equânime e imparcial. É isto que os nossos povos merecem. Estes são elementos de uma paz duradoura.

 

Além disso, os Estados Unidos continuarão a defender todas aquelas nações que fizerem sua transição para a democracia - com mais investimentos e atividades comerciais, de modo que a liberdade seja acompanhada de oportunidades. Vamos nos engajar de maneira mais profunda com os governos, mas também em com a sociedade civil - estudantes e empresários, partidos políticos e imprensa. Proibimos aqueles que abusam dos direitos humanos de ingressar no nosso país e adotamos sanções contra os que menosprezam os direitos humanos em outras partes do mundo. E sempre seremos uma voz para aqueles que foram silenciados.

 

Ora, sei que para muitas pessoas aqui presentes, existe uma questão que constitui um teste para estes princípios - e para a política externa americana: o conflito entre israelenses e palestinos.

 

Um ano atrás, discursei deste pódio e pedi a criação de uma Palestina independente. Naquela época, eu acreditava - e acredito hoje - que o povo palestino merece um Estado próprio. Mas eu também disse que a verdadeira paz só pode ser posta em prática pelos próprios israelenses e palestinos. Um ano depois, apesar dos enormes esforços dos Estados Unidos e de outros países, as duas partes não dirimiram suas divergências. Diante deste impasse, em maio, apresentei uma nova base para as negociações. Esta base é clara, e bastante conhecida por todos os que estão aqui. Os israelenses devem saber que todo acordo oferece garantias para a sua segurança. Os palestinos merecem conhecer a base territorial do seu Estado.

 

Sei que muitos estão frustrados pela falta de progresso. Eu também. Mas a questão não é o objetivo que procuramos alcançar - a questão é como alcançá-lo. E estou convencido de que não existe um atalho para pôr fim a um conflito que dura dezenas de anos. A paz não nascerá de declarações e resoluções da ONU - se fosse tão fácil, a esta altura já teria sido alcançada. Em última análise, são os israelenses e os palestinos que devem conviver lado a lado. Em última análise, são os israelenses e os palestinos - e não nós - que devem chegar a um acordo a respeito dos problemas que os dividem: sobre fronteiras e segurança; sobre os refugiados e Jerusalém.

 

A paz exige compromissos entre as pessoas que devem conviver muito depois que nossos discursos terminarem, e depois que estiver concluída a contagem dos nossos votos. Esta é a lição que aprendemos da Irlanda do Norte, onde antigos antagonistas dirimiram suas divergências. Esta é a lição que aprendemos do Sudão, onde um acordo negociado permitiu criar um Estado independente. E este é o caminho para um Estado palestino.

 

Buscamos um futuro em que os palestinos possam viver em um Estado soberano próprio, sem sofrerem restrições para o que decidirem realizar. É inquestionável que os palestinos viram esta possibilidade ser adiada por um tempo excessivamente longo. E é exatamente por acreditarmos tão firmemente nas aspirações do povo palestino que os Estados Unidos investiram tanto tempo e esforços na criação de um Estado palestino, e nas negociações que permitirão realizá-lo na prática.

 

O compromisso dos Estados Unidos com a segurança de Israel é inabalável, e nossa amizade com Israel é profunda e duradoura. Portanto acreditamos que toda paz destinada a perdurar deve reconhecer as preocupações com a segurança real com as quais Israel se defronta a cada dia. Sejamos honestos: Israel está cercado por vizinhos que frequentemente travaram guerras contra ele. Cidadãos de Israel foram mortos por foguetes disparados contra suas casas e por bombas de terroristas suicidas em seus ônibus. As crianças de Israel crescem sabendo que em toda a região, outras crianças são ensinadas a odiá-las. Israel, um pequeno país de menos de oito milhões de habitantes, olha para um mundo onde os líderes de nações muito maiores ameaçam varrê-lo do mapa. O povo judeu carrega o ônus de séculos de exílios, perseguições e a lembrança recente do genocídio de seis milhões de pessoas mortas simplesmente por sua origem.

 

Não podemos negar estes fatos. O povo judeu criou um Estado bem-sucedido em sua pátria histórica. Israel merece este reconhecimento. Merece relações normais com seus vizinhos. E os amigos dos palestinos não lhes fazem nenhum favor a estes por ignorarem esta verdade, assim como os amigos de Israel devem reconhecer a necessidade de buscar uma solução que contemple dois Estados com Israel com a garantia de sua segurança ao lado de uma Palestina independente.

 

É esta verdade - a de que cada lado tem aspirações legítimas - que torna a paz tão difícil. E o impasse só poderá ser rompido quando cada um deles aprender a se colocar no lugar do outro. É esta atitude que deve ser incentivada. Este corpo - fundado, como foi, das cinzas da guerra e do genocídio; dedicado, como de fato é, à dignidade de cada pessoa - deve reconhecer a realidade vivida tanto por palestinos quanto por israelenses. Nossas ações devem sempre levar em conta a defesa do direito das crianças israelenses e palestinas de viverem em paz e segurança, com dignidade e oportunidade. Nós só teremos sucesso nesta empreitada se pudermos encorajar cada uma das partes a se sentar à mesa de negociações, a ouvir o que a outra tem a dizer, e a compreender as esperanças e os temores da outra parte. É este o projeto em que os Estados Unidos estão empenhados. E é nele que as Nações Unidas deveriam se concentrar nas próximas semanas e meses.

 

Agora, enquanto nos defrontamos com os desafios do conflito e da revolução, também devemos reconhecer mais uma vez que a paz não é apenas a ausência de guerra. A verdadeira paz implica a criação de oportunidades que façam com que valha a pena viver. E para tanto, devemos enfrentar os inimigos comuns do ser humano: as armas nucleares e a pobreza; a ignorância e as doenças. Estas forças corroem a possibilidade de uma paz duradoura, e é juntos que deveremos enfrentá-las.

 

Para acabar com o fantasma da destruição em massa, devemos nos unir para buscar a paz e a segurança num mundo sem armas nucleares. Nos dois últimos anos, começamos a trilhar este caminho. Desde a nossa Cúpula sobre Segurança Nuclear em Washington, cerca de 50 nações adotaram medidas para impedir que o material nuclear caia nas mãos de terroristas e contrabandistas. Em março do próximo ano, se realizará em Seul uma Cúpula em que apresentaremos os nossos esforços para bani-lo totalmente. O Novo Tratado START entre Estados Unidos e Rússia reduzirá os nossos arsenais instalados ao seu nível mínimo neste meio século, e nossas nações realizam conversações visando a uma maior redução. Os Estados Unidos continuarão trabalhando para conseguir a proibição dos testes de armas nucleares, e da fabricação do material físsil necessário para a sua produção.

 

À medida que cumprimos nossas obrigações, fortalecemos os tratados e as instituições que contribuem para impedir a difusão destas armas. Para tanto, devemos continuar fazendo com que as nações que os desprezam sejam obrigadas a prestar contas dos seus atos. O governo iraniano não pode demonstrar que seu programa é pacífico, ele não cumpriu suas obrigações, e rejeitou as ofertas que lhe proporcionariam poderio nuclear para fins pacíficos. A Coreia do Norte ainda não tomou medidas concretas para abandonar suas armas, e continua empreendendo ações beligerantes contra o Sul. As oportunidade futuras para os povos destas nações serão muito maiores se seus governos cumprirem suas obrigações. Mas se continuarem trilhando um caminho que desconhece as leis internacionais, deverão se defrontar com mais pressões e um isolamento maior. É o que exige nosso compromisso com a paz.

 

Para trazer a prosperidade ao nosso povo, devemos promover o crescimento que cria oportunidades. Neste sentido, não devemos esquecer de que fizemos enormes progressos nas últimas décadas. Sociedades fechadas deram lugar a mercados abertos.

 

A inovação e o espírito empreendedor transformaram o nosso modo de vida e a nossa maneira de agir. As economias emergentes da Ásia às Américas tiraram centenas de milhões de pessoas da pobreza. Entretanto, há três anos, sofremos a mais grave crise financeira dos últimos oitenta anos. A crise provou um fato que se torna mais claro a cada ano que passa - nossos destinos estão interligados; numa economia global, as nações se levantarão ou cairão juntas.

 

Hoje, estamos diante dos desafios que se seguiram a esta crise. A recuperação é frágil. Os mercados são voláteis. Um número excessivo de pessoas não tem trabalho. Nós nos empenhamos juntos para evitar uma Depressão em 2009. Mais uma vez, devemos adotar medidas urgentes e coordenadas. Aqui nos Estados Unidos, anunciei um plano para que os americanos voltem a trabalhar e impulsionem a nossa economia, e eu me comprometi a reduzir substancialmente nosso déficit ao longo do tempo. Apoiamos nossos aliados europeus enquanto reformulam as suas instituições e procuram resolver o seu problema fiscal. Os líderes de outros países enfrentam desafios diferentes enquanto transformam suas economias a fim de se tornarem mais autossuficientes, aumentando a demanda interna, reduzindo ao mesmo tempo a inflação. Portanto, cooperaremos com as economias emergentes que apresentaram uma recuperação vigorosa, para que o aumento do padrão de vida crie novos mercados de forma a promover o crescimento global. É o que exige o nosso compromisso com a prosperidade.

 

Para combater a pobreza que castiga os nossos filhos, devemos agir com a convicção de que libertar-se da necessidade é um direito humano fundamental. Um dos objetivos do compromisso dos Estados Unidos no exterior é ajudar pessoas a se alimentarem. E hoje, quando a seca e os conflitos levam a fome ao Chifre da África, nossa consciência nos insta a agir. Juntos, devemos continuar a dar assistência e a financiar as organizações que podem chegar até os necessitados. E juntos, devemos insistir no acesso irrestrito da ajuda humanitária para podermos salvar a vida de milhares de homens, mulheres e crianças. O que está em jogo é a nossa própria humanidade. Vamos mostrar que a vida de uma criança da Somália e tão preciosa quanto qualquer outra. É o que exige o nosso compromisso para com os nossos semelhantes.

 

Para deter as doenças que se espalham através das fronteiras, devemos fortalecer nossos sistemas de saúde pública. Continuaremos lutando contra o HIV/AIDS, a tuberculose e a malária. Cuidaremos particularmente da saúde das mães e das crianças. E devemos nos unir para prevenir, detectar e combater todo tipo de ameaça biológica - seja ela pandêmica como a H1N1, uma ameaça terrorista ou uma doença passível de tratamento. Esta semana, os Estados Unidos assinaram um acordo com a Organização Mundial da Saúde para afirmar nosso empenho em enfrentar este desafio. Hoje, peço a todas as nações que se uniam a nós para alcançar o objetivo da OMS que é garantir que todas as nações disponham de capacidade própria para tratar de emergências de saúde pública até 2012. É o que exige nosso compromisso para com a saúde do nosso povo.

 

Para preservar o nosso planeta, não devemos adiar as medidas exigidas pelas mudanças climáticas. Devemos explorar o poder da ciência para salvar recursos que são escassos. Juntos, devemos continuar nosso trabalho para ampliar o progresso conseguido em Copenhague e em Cancun, de maneira que todas as principais economias aqui representadas, hoje, também cumpram os compromissos que foram assumidos. Juntos, devemos trabalhar para transformar a energia que alimenta nossas economias, e apoiar outras que percorrerem este caminho. É o que exige nosso compromisso para com a próxima geração.

 

E para que nossas sociedades realizem seu potencial, devemos permitir que os nossos cidadãos realizem seu potencial pessoal. Nenhum país pode ser condescendente com o câncer da corrupção. Juntos, devemos conter o poder de sociedades abertas e de economias abertas. É por isso que nos associamos a países de todo o globo para lançar uma nova parceria entre Governos Transparentes que garanta a concessão de poderes aos seus cidadãos e para que estes se tornem mais responsáveis pelos próprios atos. Nenhum país deveria negar às pessoas seus direitos por causa de suas preferências de gênero, e é por isso que devemos defender o direito de gays e lésbicas em todo o mundo. E nenhum país pode realizar o seu potencial se a metade da sua população não consegue realizar o próprio potencial pessoal. Esta semana, os Estados Unidos assinaram uma nova Declaração referente à Participação das Mulheres.

 

No próximo ano, cada um de nós deveria anunciar as medidas que está disposto a adotar para quebrar as barreiras políticas e econômicas que tolhem a contribuição de mulheres e jovens. É o que exige nosso compromisso para com o progresso humano.

Sei que não existe uma linha reta até o progresso, não há um único caminho para o sucesso. Cada um de nós vem de uma cultura diferente, e traz consigo diferentes histórias. Mas nunca devemos esquecer de que enquanto estamos aqui reunidos na qualidade de líderes de diferentes governos, representamos cidadãos que compartilham das mesmas aspirações básicas - viver com dignidade e liberdade; ter acesso à educação e a oportunidades; amar nossas famílias e o nosso Deus. Viver na paz que faz com que valha a pena viver.

 

É próprio da natureza do nosso mundo imperfeito sermos obrigados a aprender esta lição inúmeras vezes. O conflito e a repressão perdurarão enquanto algumas pessoas se recusam a tratar os outros como gostariam de ser tratadas. Entretanto, é precisamente por esta razão que criamos instituições como esta em que nos encontramos que unem os nossos destinos - porque os que aqui vieram acreditam que a paz é preferível à guerra; a liberdade é preferível à supressão; e a prosperidade é preferível à pobreza. Esta é a mensagem que vem não das capitais mas dos seus cidadãos.

 

No lançamento da pedra fundamental deste edifício, o presidente Truman veio a Nova York e disse: "Os Estados Unidos são essencialmente uma expressão do caráter moral das aspirações do homem". Como vivemos em um mundo que muda a um ritmo alucinante, nunca deveremos esquecer desta lição.

 

A paz é difícil, mas sabemos que é possível. Juntos, vamos decidir o que fazer com base nas nossas esperanças e não nos nossos medos. Juntos, vamos trabalhar para fazer não apenas a paz, mas uma paz que seja duradoura. Obrigado."

 

Tradução de Anna Capovilla e Terezinha Martino

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