Leia artigo de Schlesinger sobre a guerra dos EUA no Iraque

Em texto publicado no Estado em 25 de março de 2003, o historiador americano que morreu na quarta-feira criticou a política externa do governo Bush a decisão de atacar o Iraque. Eis a íntegra: A boa política externa, uma vítima da guerraArthur Schlesinger Jr.Estamos em guerra de novo - não por causa de um ataque inimigo, como na 2.ª Guerra Mundial, nem de uma tendência cumulativa, como na Guerra do Vietnã, e sim graças à escolha deliberada e premeditada de nosso próprio governo. Agora que embarcamos nessa aventura perigosa, esperemos que nossa intervenção seja rápida e decisiva e que a vitória venha com o mínimo de vítimas americanas, britânicas e civis iraquianas.Mas continuemos a perguntar por que nosso governo escolheu impor essa guerra. A escolha reflete uma guinada fatal na política externa dos EUA, na qual a doutrina estratégica da contenção e da dissuasão, que nos levou à vitória pacífica durante a guerra fria, foi substituída pela Doutrina Bush de guerra preventiva. O presidente adotou uma política de ?defesa antecipada? alarmante em sua semelhança com a política empregada pelo Japão imperial em Pearl Harbour, numa data que, como previu um presidente americano anterior, vive na infâmia. Franklin D. Roosevelt estava certo, mas hoje somos nós, os americanos, que vivemos na infâmia. A onda de simpatia global que envolveu os EUA depois do 11 de setembro deu lugar a uma onda de ódio global contra a arrogância e o militarismo americanos. Pesquisas de opinião pública em países amigos mostram George W. Bush como uma ameaça à paz maior do que Saddam Hussein. Manifestações ao redor do planeta, em vez de denunciar o governo cruel do presidente iraquiano, atacam os EUA diariamente.A Doutrina Bush transforma-nos em juízes, júri e carrascos do mundo - uma posição autonomeada que, embora de motivação benigna, está destinada a corromper nossa liderança. Como John Quincy Adams avisou em 4 de julho de 1821, as máximas fundamentais de nossa política ?mudariam insensivelmente da liberdade para a força. (... ) (Os EUA) poderiam tornar-se o ditador do mundo. Eles não mais seriam os governantes de seu próprio espírito.? Os danos colaterais a nossas liberdades civis e a nossos direitos constitucionais, provocados pelo fanático religioso que é nosso procurador-geral, já são consideráveis - e mais está por vir.O que alimentou a corrida à guerra? Saddam tem uma força militar significativamente menor do que em 1990 e foi ficando mais fraco à medida que novas armas iam sendo expostas e destruídas sob o regime de inspeções das Nações Unidas. A causa de nossa corrida à guerra foi tão trivial que pareceu idiota. Foi o clima. As tropas americanas, dizem-nos nossas chefias, perderiam a vantagem no sol do meio-dia do Golfo Pérsico; então, tivemos de ir à guerra antes do verão. Essa é uma razão para correr à guerra? Temos, afinal, um exército profissional - e um exército profissional não deveria perder sua vantagem tão rápido e com tanta facilidade.Há uma suspeita de que estejamos indo à guerra contra o Iraque porque esta é a única guerra que podemos vencer. Não podemos vencer a guerra contra a Al-Qaeda, pois ela ataca das sombras e nelas desaparece. Não podemos vencer uma guerra contra a Coréia do Norte porque ela tem armas nucleares. Na verdade, o perigo da Coréia do Norte é muito mais claro, presente e urgente do que o perigo do Iraque, e nosso tratamento diferente a esses dois países é um potencial incentivo para outros Estados fora-da-lei desenvolverem seus próprios arsenais nucleares.Como pudemos entrar nessa trágica encrenca sem buscar o debate? Nenhuma guerra foi mais extensamente prevista do que esta. Apesar das negativas pro forma, a determinação do presidente Bush de ir à guerra era evidente desde o início. Por que, então, essa ausência de diálogo? Por que o colapso do Partido Democrata? Por que deixar o movimento de oposição cair nas mãos de esquerdistas infantis?Penso que a mídia é uma grande culpada. Houve esforços parlamentares para impulsionar um debate. Os senadores democratas Edward M. Kennedy e Robert C. Byrd fizeram discursos fortes e bem elaborados opondo-se à corrida à guerra. Eles foram grandemente ignorados pela mídia. Algum filantropo teve de pagar ao jornal The New York Times para publicar o texto do veemente discurso feito por Byrd em 12 de fevereiro, num anúncio de página inteira - um discurso ignorado pela mídia quando foi proferido. A mídia deu atenção às manifestações de massa em detrimento do argumento razoável contra a guerra.Segundo pesquisas, uma quase maioria de americanos mal-informados acredita que Saddam tenha tido algo que ver com os ataques a Nova York e ao Pentágono e o conseqüente massacre de quase 3 mil inocentes. Saddam é um grande vilão, mas não teve nada que ver com o 11 de setembro. Muitos americanos, talvez a maioria, crêem que uma guerra contra o Iraque será um golpe contra o terrorismo internacional. Mas evidências da região indicam com clareza que a guerra tornará muito mais fácil o recrutamento da Al-Qaeda e de outras gangues assassinas.O que deveríamos ter feito? E se a mídia tivesse dado uma oportunidade justa à oposição à guerra? Há dois argumentos fortes a favor da guerra - o de que Saddam poderia acabar adquirindo armas nucleares e o de que o povo do Iraque merece ser libertado dessa tirania monstruosa.Diferentemente das armas químicas e biológicas, as armas nucleares - e suas instalações de produção - são difíceis de esconder. Inspeção, vigilância, grampos telefônicos e espionagem poderiam detectar qualquer iniciativa nuclear da parte de Saddam. Ele pode ser contido, e não é imortal.O argumento mais forte é a intervenção humanitária. Isso parte, com má vontade, de um governo que inclui pessoas que não se opuseram às atrocidades de Saddam contra os direitos humanos quando ele estava em guerra com o Irã. Mas temos obrigação moral de combater tiranos desprezíveis em toda parte?Saddam é, sem dúvida, um monstro. Mas isso significa obrigatoriamente que temos de removê-lo do poder? ?Onde quer que a bandeira da liberdade e da independência tenha sido ou venha a ser hasteada?, disse Adams no mesmo discurso de 4 de julho, ?lá estarão seu coração, suas bênçãos e suas orações. Mas ela não vai ao exterior em busca de monstros para destruir.? Hoje estamos indo ao exterior para destruir um monstro. O que vier em seguida - como os EUA se portarão no Iraque e no mundo - será um teste crucial para determinar se a guerra pode ser justificada.Os EUA como juízes, júri e carrascos autonomeados do mundo? ?Precisamos encarar o fato?, disse uma vez o presidente John F. Kennedy, ?de que os EUA não são nem onipotentes, nem oniscientes; de que representamos apenas 6% da população do mundo; de que não podemos impor nossa vontade aos outros 94% da humanidade; de que não podemos consertar tudo o que está errado ou reverter qualquer adversidade; e de que, portanto, não pode haver uma solução americana para cada problema do mundo.?Arthur Schlesinger Jr., historiador, autor, mais recentemente, de A Life in the 20th Century: Innocent Beginnings (Uma Vida no Século 20: Primórdios Inocentes), foi assessor especial do presidente americano John F. Kennedy

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