Leis frágeis sobre armas fazem americanos alvos fáceis

Lacunas em lei federal fazem com que os EUA se sobressaiam por seu nível aterrorizador de violência com armas e, quase sempre, é preciso uma tragédia como a do Arizona para incitar o Congresso a agir

Paul Helmke, Bloomberg News, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2011 | 00h00

Gabe Zimmerman, John Roll e Christina Taylor Green, outrora uma pequena bailarina, têm algo em comum. Juntamente com Gabrielle Giffords e 16 outros, eles estão hoje, tristemente, na lista sangrenta de quase 1 milhão de pessoas que foram vítimas de disparos nos últimos 10 anos nos EUA; e dessas, mais de 300 mil, como Gabe, John e Christina, de 9 anos, foram mortas.

Mesmo assim, muitos de nossos líderes em Washington têm ignorado a vontade e os apelos da maioria dos americanos para que sejam impostas restrições para pessoas perigosas obterem armas. Em vez disso, as mínimas leis sobre armas existentes foram tornadas ainda mais frágeis.

Essas mortes trágicas, decorrentes do ataque a tiros de sábado em Tucson, no Arizona, levarão o Congresso a entender finalmente que aquilo que o país está fazendo no campo das armas não está funcionando? O que estamos fazendo hoje está nos deixando menos a salvo.

Embora não se conheça todos os detalhes, sabemos que Jared Loughner, de 22 anos, foi considerado uma pessoa muito perigosa para frequentar as aulas na faculdade. Que ele já tinha sido preso por drogas e foi recusado para prestar o serviço militar. Que seus colegas de classe tinham muito medo de ser alvejados por ele. E sabemos que, mesmo assim, ele conseguiu comprar uma pistola semiautomática e múltiplos carregadores de munição de grande capacidade.

Sabemos que o Estado do Arizona permitiu que ele mantivesse seu arsenal escondido sem qualquer permissão. E também que, no sábado, ele atirou contra 20 pessoas, deixando uma deputada americana gravemente ferida, e 6 pessoas mortas.

Os cartuchos de munição em posse do atirador "davam a ele uma vantagem tática", de acordo com um policial federal. "Não há nenhuma dúvida de que os carregadores aumentaram a letalidade e o número de vítimas do ataque."

A lei federal sobre armas de assalto - aprovada em 1994 - proibia a venda de novos carregadores para mais de dez balas. Mas os amigos do lobby das armas no Congresso não renovaram esta lei em 2004. Como resultado, os EUA não têm mais nenhuma barreira legal dificultando a compra, por alguma pessoa perturbada, de novos pentes de balas com os quais ela pode disparar sem precisar recarregar a arma.

Tragicamente, sempre é preciso caso como este para incitar o Congresso a agir. Depois da tentativa de assassinato de Franklin Delano Roosevelt e a violência semeada pelos gângsteres na época da Lei Seca, o Congresso, em 1934, restringiu vigorosamente as armas automáticas.

Mais tarde, com os assassinatos de Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, em 1968, o Congresso definiu as categorias de pessoas perigosas (como criminosos e pessoas mentalmente doentes) que não podiam adquirir armas. Os disparos contra Ronald Reagan e seu assessor de imprensa, Jim Brady, levaram a mulher de Jim, Sarah Brady a empreender uma campanha por leis mais vigorosas, que resultou na Lei Brady, exigindo que negociantes de armas autorizados pedissem investigação dos antecedentes criminais de pessoas que desejassem comprar armas, e a hoje caduca proibição de armas de assalto. Mas essas leis são praticamente tudo o que temos no plano nacional para nos ajudar a reduzir a violência com armas. E muitos Estados, entre eles o Arizona, não tomaram nenhuma providência a mais.

Depois do massacre no ginásio de Columbine, em 1999, o Senado aprovou medidas para cobrir uma brecha no âmbito das feiras de vendas de armas, passando a exigir uma checagem dos antecedentes criminais dos interessados por parte dos vendedores de armas. Mas tais medidas não passaram pela Câmara. Depois dos assassinatos de Virginia Tech, em 2007, a Campanha Brady e os sobreviventes e famílias das vítimas do ataque a tiros insistiram para o Congresso dar incentivos aos Estados para que enviassem mais registros para o sistema de verificação de antecedentes. Como resultado, mais de 1 milhão de nomes estão hoje no sistema.

Mas, hoje, as lacunas na lei federal permitem que vendedores particulares vendam armas sem essa verificação; armas militares e carregadores de grande capacidade são legais. E, em muitos Estados (entre eles o Arizona), a polícia não tem nenhum poder para impedir pessoas perigosas de portar uma arma em público. Por isso, os EUA se sobressaem entre os países industrializados por seu nível aterrorizador de violência com armas - que desta vez atingiu um dos mais admirados membros do Congresso. Precisamos nos assegurar deque nossos líderes nunca esqueçam das famílias dilaceradas pela violência em Tucson - ou as cem outras pessoas que diariamente são vítimas de ataques a tiros nos Estados Unidos.

Que, desta vez, o Congresso nos ouça, e saiba que está na hora de atender aos apelos da população. Sancionando as leis que precisamos para tornar nossas famílias e comunidades mais seguras, em nome de quase 1 milhão de pessoas que sofreram e perderam tanto, dando início a uma nova era de prevenção da violência com armas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRESIDENTE DA CAMPANHA BRADY DE PREVENÇÃO DE VIOLÊNCIA COM ARMAS

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