LEITE E CARNE SÃO ITENS DE LUXO NA VENEZUELA

Falta de produtos básicos fez chamado da oposição a protestos ecoar no país

LUIZ RAATZ , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2014 | 02h03

O supermercado já estava cheio de gente e com algumas prateleiras vazias quando a empilhadeira chegou. Trazia um dos bens mais preciosos e escassos hoje em dia para um venezuelano: papel higiênico. Enquanto as pessoas se aproximavam, um segurança protegia o carregamento da mercadoria. O alerta era claro. Apenas dois pacotes por pessoa.

"Esse mercado é o menos pior dos ruins. Às vezes, como hoje, os produtos que estão escassos chegam, mas tudo é vendido, mesmo com restrições por pessoa", disse ao Estado a aposentada Rosa Guadarrama, enquanto esperava na fila do caixa na filial de Chacaito da rede de supermercados CM, uma das maiores do país. "Os mercados do Estado nem sempre estão abertos e sempre têm muita gente."

O papel higiênico, produzido na Venezuela pela papeleira Paveca, era vendido a 17 bolívares. Como quase tudo no país, no entanto, necessita de insumos importados. A matéria-prima vem do Chile. No fim do ano passado, depois de uma grave escassez de papel higiênico, o governo concedeu em regime de urgência dólares para a empresa aumentar a produção. Foi US$ 1,5 milhão destinado à fábrica da Paveca em Carabobo, o que permitiu um incremento de 10 milhões de rolos por mês na produção.

A medida mitigou a crise, mas na outra ponta da cadeia de consumo, há um fenômeno de "compras nervosas", que contribui também para a escassez. Os consumidores, temerosos de que não haverá uma próxima oportunidade de comprar o produto que está em falta, o estocam na primeira oportunidade. Segundo o governo, esse comportamento é estimulado pela imprensa.

Dos produtos da cesta básica, o que mais falta faz aos venezuelanos é o leite longa vida. "Não se encontra leite de jeito nenhum. Nem nos mercados privados, nem nos do Estado", contou Rosa. "Carne e frango também está difícil."

Num outro supermercado, no bairro de La California, no distrito de Sucre, irritada com a falta de carne bovina e frango a arquiteta Patricia Villanueva fez um desabafo à reportagem do Estado. "Não aguento mais comer atum. Sinto que estou comendo comida de gato", disse. "Às vezes, até tem carne, porque o governo tem acordos com a Argentina e o Uruguai, mas muitos mercados escondem para cobrar mais caro por fora."

Câmbio. A origem da atual crise econômica é de natureza cambial. Desde 2012, as reservas em moeda forte da Venezuela têm caído. No começo de 2012, segundo o Banco Central da Venezuela, o país tinha US$ 28 bilhões em caixa. No final de fevereiro de 2014, eram US$ 20 bilhões, queda acompanhada de uma forte restrição do governo ao acesso a dólares, o que fez a cotação da moeda americana no câmbio negro disparar.

Segundo economistas, a queda de reservas é a razão do acesso aos dólares ser cada vez mais restrito. Após duas eleições presidenciais praticamente seguidas - a de Hugo Chávez, em outubro de 2012, e a de Maduro em abril de 2013, os gastos públicos dispararam. Em 2011, o governo bolivariano gastou o equivalente a 40% do PIB. Em 2012, esse porcentual foi de 51%. Sem dinheiro em caixa, a ordem em 2013 foi tentar salvar as reservas em moeda forte.

Como a maioria dos bens de consumo é importada ou depende de insumos de fora da Venezuela, o descontrole cambial tem consequência direta na escassez que se reflete nas prateleiras.

"Os importadores não conseguem dólares do governo porque as reservas estão em baixa e isso prejudica a distribuição", diz a economista Jessica Grisanti, da Econométrica. "O governo tenta compensar isso importando alimentos diretamente de países vizinhos e controlando o preço dos alimentos para tentar controlar a inflação."

Dono de um restaurante no bairro de Chacao, Roberto Alib resume bem o impacto do controle de preços nos pequenos negócios. Em vez de água, ele prefere vender bebidas isotônicas. "O governo me vende uma garrafa de água a 7 bolívares e me obriga (pela Lei de Preços Justos) a comercializá-la por 7,50 bolívares", explicou, rabiscando os números num papel. "Só para zerar os gastos com aluguel, água e luz, eu teria de vendê-la a 12 bolívares para sair sem prejuízo."

Sem luxo. É no setor de bens não essenciais, no entanto, que a escassez é mais visível, uma vez que o chavismo se concentra em amenizar a escassez da cesta básica - que já é a maior da história, atingindo quase três em cada dez produtos.

No Boulevard Sabana Grande, tradicional centro de comércio de Caracas, muitas das lojas de sapatos estão com as vitrines vazias. Dono de uma delas, Ricardo Suárez trabalha com venda de tênis importados. Restavam apenas dez calçados na prateleira. "Não há acesso a dólares, principalmente para quem trabalha com bens não essenciais, como é o meu caso", lamenta. "Já não estou conseguindo fechar no azul em razão dessas restrições."

As concessionárias de automóveis de Caracas estão praticamente vazias. Não há carros. A venda de veículos em janeiro caiu 85% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram emplacados apenas 296 novos automóveis, segundo a Câmara Venezuelana de Automóveis (Cavenez). A produção de carros caiu 84% em relação a dezembro.

A Fedecámaras, principal entidade patronal da Venezuela, acredita que o governo deva US$ 13 bilhões a importadores. O caso mais grave é o das companhias aéreas. No Aeroporto de Maiquetía, a maioria das empresas se recusa a vender passagens em bolívares porque não consegue convertê-los em dólares. "Os voos têm saído vazios. O único jeito de comprar uma passagem para sair daqui é pela internet, de um servidor fora da Venezuela", disse um funcionário de uma companhia aérea que preferiu não se identificar.

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