Lembram do Cairo?

A tentação de ignorar a calamidade egípcia é poderosa, mas é algo a que o governo dos Estados Unidos precisa resistir

O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2013 | 02h09

Com o mundo concentrado na crise da Síria e a possibilidade de uma aproximação entre EUA e Irã, o fato de que a situação no Egito está indo de mau a pior ficou abaixo do radar político. Para grande alívio dos generais no Cairo - e, provavelmente, de alguns membros da equipe de política externa do presidente Barack Obama -, os EUA parecem estar empurrando com a barriga outra decisão difícil de política regional.

Isto é um erro. Ao aprovar o golpe de 3 de julho e a subsequente repressão dos seguidores do presidente deposto Mohamed Morsi, os EUA podem estar plantando sementes que poderão resultar numa insurgência dispendiosa e profundamente desestabilizadora no futuro.

O governo Obama reagiu à repressão militar egípcia com o equivalente diplomático de alguns tapinhas leves nos dedos dos generais. Cancelou exercícios militares conjuntos com e anunciou que a equipe de segurança nacional da Casa Branca começaria uma revisão abrangente da ajuda bilateral.

Desde o fim de agosto, uma recomendação para suspender a maior parte da ajuda militar ao Cairo está parada com o presidente. Autoridades americanas - em privado e a contragosto - tentaram recuar da afirmação bizarra do secretário de Estado John Kerry de que os líderes militares egípcios estavam "restaurando a democracia" e também postergaram a entrega de caças F-16.

No entanto, a resposta de Washington ao desmanche do processo democrático no Egito nem de longe fez jus à gravidade da crise. As forças de segurança reforçaram sua campanha contra a Irmandade Muçulmana, atacando baluartes do movimento e prendendo algumas figuras importantes da Irmandade que ainda não estavam detidas.

A resposta anêmica do governo Obama é indicativa da deriva estratégica maior da resposta americana aos levantes árabes. Logo em seguida às revoluções no Egito e na Tunísia, Obama admitiu que os EUA não haviam instigado com suficiente vigor a democracia no mundo árabe e prometeu uma nova maneira de lidar com a região. Nos momentos onde pôde fazê-lo, porém, ele optou por alguma versão da "barganha autoritária" que caracterizou a política regional americana durante décadas.

Isso ficou explícito no pronunciamento de Obama nas Nações Unidas, em 24 de setembro. Em tom de desalento, ele admitiu que a democracia era secundária na política do Oriente Médio, que questões de segurança e "interesses centrais" teriam precedência.

Obama parece estar à espera de que os militares egípcios, apesar de sua brutalidade - ou, talvez, por causa dela - propiciarão uma migalha de estabilidade. Eles ameaçam repetir os mesmos erros do período anterior à Primavera Árabe: apesar de uma sensação de calma ter voltado a partes do Cairo, o espectro de um reinício da violência ainda paira sobre a região. Nesse ínterim, o Estado perdeu o controle de alguns baluartes pró-Morsi e teve de recorrer ao uso de extrema violência nas cidades de Dalga e Kerdasa na tentativa de recuperar sua autoridade.

Esses incidentes podem ser apenas um gostinho inicial do que virá. A guerra civil argelina, que resultou na morte de dezenas de milhares, oferece um aviso: o conflito não descambou para a violência plena logo em seguida ao golpe militar de janeiro de 1992, mas cerca de sete meses depois.

Para piorar, o novo governo egípcio não parece aspirar a um retorno do velho regime estagnado, mas a algo pior e mais perigoso. Diferentemente de Hosni Mubarak - que tolerava certo nível de dissidência no Parlamento e na mídia -, mesmo as críticas mais brandas ao Exército egípcio podem levar o indivíduo a ser tratado como um traidor.

A cada semana que passa, a ordem autoritária no Egito se fecha mais em si mesma. Em 23 de setembro, o Judiciário egípcio proibiu não somente a Irmandade Muçulmana, mas "todas as atividades de que ela participa e qualquer organização dela derivada", como colocou o juiz presidente. Antes dessa decisão, havia a possibilidade de que, apesar de a Irmandade ser dissolvida, seu partido político, o Partido da Liberdade e Justiça, poderia ter permissão de operar. Isto agora parece cada vez mais improvável. Em vez de esperar que alguns cenários negativos se concretizem, os EUA precisam se afastar da gestão de crise ad hoc e mudar fundamentalmente sua política para o Egito. Não há soluções fáceis, mas isso não é desculpa para não fazer nada.

Primeiro, os EUA deveriam suspender sua ajuda militar ao Cairo. Eles deveriam também esboçar as condições para retomar a ajuda, que deveriam incluir a reintegração dos apoiadores de Morsi e de ativistas antigolpe. Isto reintroduziria alguma clareza na política americana e sinalizaria que a ajuda estrangeira ao Egito não pode continuar em qualquer forma - reduzida, reestruturada ou outra - nas circunstâncias presentes.

Para reforçar ao máximo sua influência, Washington deveria coordenar essa mudança com seus parceiros na Europa, Japão e outros países na região, como Turquia e Catar. Qualquer acordo do FMI com o Egito - que junto com subvenções e promessas afins poderiam alcançar até US$ 15 bilhões - deveria ser condicionado a um progresso político tangível envolvendo todos os principais partidos.

Alguns observadores do Egito, como o ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Steven Simon, argumentaram que Washington tem pouca influência porque a Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico prometeram cobrir qualquer redução do financiamento. Isto é simplesmente uma inverdade. Riad e seus vizinhos podem substituir a ajuda econômica perdida, mas não podem fornecer o equipamento e o treinamento militar que são essenciais para a manutenção dos tanques e jatos de combate mais avançados do Egito. Para todos os efeitos, a Arábia Saudita, bem como os Emirados Árabes Unidos, é dependente do guarda-chuva de segurança americano, particularmente no que diz respeito às ameaças iranianas.

Por fim, os EUA precisam reordenar fundamentalmente suas prioridades estratégicas no Egito. É preciso ir além da mitologia de Camp David - a ideia de que Washington precisa "comprar" paz, com Israel, do Cairo - e rejeitar a ideia de que o mundo árabe deve escolher entre segurança e democracia. Ele deveria agir agora de acordo com o reconhecimento feito pela ex-secretária de Estado Hillary Clinton, em 2011, de que "a escolha real é entre reforma e agitação social".

No longo prazo, os interesses estratégicos americanos só poderão ser preservados com o apoio ao de uma genuína democracia no Egito. Países que prestam contas a seus cidadãos são mais estáveis porque oferecem meios pacíficos e legítimos de seus cidadãos expressarem suas queixas. A "estabilidade" de regimes autoritários é frágil e ilusória - como as revoltas no Egito e na Tunísia nos mostraram. A tentação de ignorar a calamidade egípcia é poderosa, mas é uma tentação a que os EUA precisam resistir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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