Leste europeu atônito diante das críticas de Chirac

Romênia, Bulgária e os outros países do Leste europeu que apóiam os EUA na crise com o Iraque reagiram hoje com assombro perante as críticas feitas ontem pelo presidente francês, Jacques Chirac, contra essas nações, por ele qualificadas de "infantis" e "irresponsáveis". O ataque verbal de Chirac a esses países foi ouvido, alto e calro, em todo o Velho Continente. As declarações foram feitas por Chirac à noite, no final de uma reunião de cúpula em que os líderes dos 15 países europeus ocidentais chegaram a um sofrido compromisso a respeito da crise iraquiana, num pacto que tem todo o aspecto de ser um acordo de fachada. Em sua enérgica investida contra grande parte das nações do Leste ex-comunista que estão a ponto de entrar para a União Européia (UE) - a data da ampliação é março de 2004 -, Chirac disse, por exemplo, que os países candidatos que estão claramente inclinados a favor de Washington "perderam uma boa ocasião para se calar" e se comportaram com "certa superficialidade". A indignação do presidente francês - sem dúvida nenhuma, a "estrela" da cúpula de Bruxelas - se deve, sobretudo, à carta divulgada pelo "grupo de Vilnius", com a qual Eslovênia, Eslováquia, Romênia, Bulgária, Estônia, Lituânia e Letônia se pronunciaram a favor da posições que George W. Bush tem sobre o Iraque. "Entrar para a UE requer certo consenso", acrescentou Chirac que, em outro "puxão de orelhas" em meio a suas críticas, disse que a atitude desses países "foi inconsciente e não muito educada". De uma ou de outra maneira, e como vem ocorrendo freqüentemente nos últimos dias, Chirac foi o porta-voz do que muitos europeus pensam dos países candidatos à ampliação da UE. Grande parte da opinião pública da UE realmente considera que a Polônia e outros países do Leste serão muito beneficiados com a entrada para a UE, sobretudo levando-se em conta as vantagens financeiras obtidas para o desenvolvimento rural ou a modernização da indústria. Se a esta consideração se somar o fato de que muitos destes países estão a cada dia mais sintonizados com Washington, seria lógico se perguntar qual é a "vantagem" para os Quinze (a UE atual) ao abrir suas portas para o Leste. Diante do balde de água fria lançado por Chirac, a preocupação hoje em Bruxelas foi a de se tentar baixar a tensão nas duas frentes. O primeiro a intervir, logo à sua chegada à capital belga, foi o presidente da Romênia, Ion Iliescu, que em síntese disse que está tudo bem, além de lembrar os "velhos vínculos de amizade" entre a França e seu país. Por parte da Bulgária houve uma reação muito mais firme: com suas declarações, Chirac demonstrou "certo nervosismo", disse o vice-chanceler, Lubomir Ivanov. Sobre o tema interveio pouco depois também o presidenteda Comissão Européia, Romano Prodi, que não escondeu sua "amargura" pelo fato de que tanto o Leste como o Oeste da Europa não tenham refletido profundamente sobre a importância que os vínculos políticos têm dentro da UE. Prodi recordou que "a UE não é apenas uma associação econômica, mas também um profundo vínculo político"e "pouco a pouco e passo a passo todos nós iremos compreendendo isso, tanto eles como nós". Mas não é difícil deduzir que a mensagem que Prodi quis enviar está muito mais dirigida a "eles"do que a "nós". Já em Londres, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, defendeu hoje os países da Europa Oriental que irritaram o presidente francês.Blair afirmou que esses países candidatos à UE não deveriam se silenciar."Esses países têm o mesmo direito de manifestar suas opiniões, assim como o Reino Unido, a França, ou qualquer outro membro da União Européia", ressaltou."Eles sabem o valor que tem a união da Europa com os EUA", ponderou.

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