Leste Europeu se une para conter avanço da Rússia

Na mira de Moscou, Ucrânia se junta a países da antiga Cortina de Ferro para evitar novas intervenções militares

AP, REUTERS E NYT, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2008 | 00h00

A invasão russa da Geórgia assustou os países do Leste Europeu, principalmente as ex-repúblicas soviéticas. Líderes de Lituânia, Estônia, Letônia, Polônia e Ucrânia se reuniram esta semana para expressar solidariedade a Tbilisi e tomar medidas para evitar outras intervenções militares semelhantes. O primeiro resultado concreto dessa coalizão foi percebido ontem, quando o presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko, impôs restrições à movimentação militar da Rússia em território ucraniano. A medida afeta principalmente a frota russa no Mar Negro, que está baseada no porto ucraniano de Sebastopol. A partir de agora, os navios de guerra e a aviação russa devem pedir permissão a Kiev com pelo menos 72 horas de antecedência antes de qualquer operação."Se não forem cumpridas essas exigências, as autoridades podem pedir aos navios de guerra, aos de abastecimento e às aeronaves russas que abandonem o território ucraniano", diz o documento emitido ontem pelo governo da Ucrânia.Moscou afirmou que a decisão é uma "medida grave". "O governo da Ucrânia tomou uma grave medida contra a Rússia", declarou Sergei Lavrov, ministro russo das Relações Exteriores. "A determinação complica gravemente as atividades da frota, em contradição com o acordo russo-ucraniano."Com o desmantelamento da União Soviética, nos anos 90, Rússia e Ucrânia dividiram a Frota do Mar Negro. Em 1997, os dois países assinaram um acordo que permitiu que a Marinha russa usasse o porto de Sebastopol, na Ucrânia. Em maio, Yushchenko afirmou que não renovará o acordo, o que levou os russos a apressar a construção de um porto em Novorossiysk, também no Mar Negro.O aumento das tensões entre Moscou e Kiev fez muitos analistas apontarem a Ucrânia como o próximo alvo da Rússia. Um quarto da população ucraniana fala russo e vive na margem leste do Rio Dnieper, onde estão os principais centros urbanos e a maior parte da riqueza do país. A divisão étnica é o pano de fundo da instabilidade política. Yushchenko, o presidente, e a primeira-ministra, Yulia Timoshenko, simpatizam com o Ocidente e defendem a entrada da Ucrânia na Otan. O opositor, Viktor Yanukovich, é pró-Moscou. A Rússia faz o que pode para manter o país sob controle. Uma das armas preferidas do Kremlin é o corte do fornecimento de gás em pleno inverno. Para Kiev, a questão é delicada. Cerca de 25% do gás consumido pela Ucrânia é russo. O resto, que vem de países da Ásia Central, como Turcomenistão e Casaquistão, é exportado pela estatal russa Gazprom.Os europeus também são dependentes do gás russo. Cerca de 80% das exportações de gás da Rússia para a Europa passam pela Ucrânia e um quarto do gás consumido pelos europeus chega pelo território ucraniano. A única possibilidade de a Europa diminuir essa dependência seria importar diretamente gás de países da Ásia Central, o que só poderia ser feito através de um gasoduto que passa pela Geórgia. A Rússia corre contra o tempo para manter o mercado europeu em duas frentes: obtendo controle sobre a Geórgia e fechando acordos com os países da Ásia Central para exploração e importação do gás. PRESSÃO Para os líderes dos países da antiga Cortina de Ferro, a maneira de conter o avanço russo é promover a entrada da Geórgia e da Ucrânia na Otan. Ontem, Lituânia, Estônia e Letônia, que já são membros da organização, pressionaram os outros membros da aliança a elaborar um plano para a entrada dos dois países. A medida tem apoio dos EUA e da Grã-Bretanha, mas conta com forte oposição de Alemanha, Itália e França, que não querem comprometer nem o fornecimento de gás nem as relações bilaterais com a Rússia. A proposta de inclusão de Geórgia e Ucrânia foi rejeitada na cúpula da Otan, realizada em abril, na Romênia.

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