Levantes na periferia de Trípoli e em povoados do oeste isolam Kadafi

Enquanto nos bairros pobres da capital moradores denunciam o uso de ambulâncias em ataques com munição de artilharia antiaérea, nos povoados do oeste do país, onde o governo ainda acredita ter apoio, grupos populares assumem o comando sem disparar um tiro

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em 41 anos, o líbio Muamar Kadafi nunca esteve tão longe do poder. Seu governo desmorona pela força em Trípoli, onde bairros pobres se sublevaram ontem contra ataques de artilharia antiaérea. Em Benghazi, um opositor proclamou uma república. Mas o golpe mais inesperado vem dos povoados do interior. Ali, sem violência, os líbios assumiram serviços públicos, a segurança e hastearam a bandeira que Kadafi baniu em 1969.

O Estado ingressou no lado oeste da Líbia na noite de sexta-feira, pela fronteira de Dehiba, região que Kadafi considera sob seu controle. Ao longo de 400 quilômetros, a reportagem encontrou uma realidade desconhecida dos líbios nas últimas quatro décadas: em grande parte do país, o povo já está no poder na prática.

Ontem, no centro petrolífero do país, a unidade da Líbia foi questionada: um opositor declarou uma república em Benghazi. A iniciativa, entretanto, é isolada. O movimento mais importante não vem das manifestações de novos líderes. A insurreição é comandada por personagens anônimos e se espalha pelo país.

O movimento iniciado no leste do país se espalhou também pela porção ocidental. Tribos, vilarejos, cidades a 300 quilômetros da capital se sublevaram sem banhos de sangue. Bandeiras com as cores verde, negro e vermelho tremulam em prédios públicos e marcos municipais, substituindo painéis com a imagem do ditador. Ações de guerrilha se multiplicam e tornam possível a tomada e ocupação de símbolos do poder, como delegacias e alguns prédios das Forças Armadas. Em lugar dos "comitês revolucionários" - as instâncias locais de poder criadas por Kadafi -, comitês populares usam a estrutura estatal para redistribuir alimentos e combustível.

"A Líbia estava pronta há mais de uma década para o que está acontecendo em razão das injustiças e das tiranias do regime de Kadafi. Com os eventos na Tunísia e no Egito, encontramos a energia de reação que necessitávamos", disse Milad Amin, um dos líderes da insurreição em Az Zintan, onde aconteceu o primeiro levante no oeste do país.

Colapso. A perspectiva do fim de Kadafi espalha euforia, expectativa, preocupação mas, sobretudo, adesão. Mesmo antigos colaboradores do regime, pessoas que participavam dos comitês revolucionários, da polícia ou das Forças Armadas, juntam-se ao movimento. Muitas desertam, poupando o país de mais mortes e unindo diferentes tribos contra a histórica estratégia de Kadafi para se manter no poder: semear o terror, em geral empregando soldados mercenários de países da África negra.

"A ideia tradicional que temos de um governo ditatorial está entrando em colapso: a segurança e a espionagem. Até os comitês revolucionários, símbolos do poder, estão caindo", diz Khalid Sukri, líder da insurreição no vilarejo de Jadou. "Mas a vitória não está garantida. Ainda precisamos combater as milícias de Kadafi, que continuam fortes, em especial em torno de Trípoli."

Com a conquista progressiva do interior, a metrópole é o foco dos combates. Bairros pobres da periferia da capital líbia desafiaram ontem abertamente o poder de Kadafi. Forças de segurança abandonaram o distrito operário de Tajoura, após cinco dias de manifestações antigovernamentais, segundo disseram moradores a correspondentes estrangeiros.

Moradores denunciaram que soldados fiéis a Kadafi atiraram contra a população de dentro de ambulâncias, segundo relatos de moradores da capital. Armamento antiaéreo também teria sido usado para dispersar manifestantes. Atiradores se posicionaram em pontos estratégicos de Trípoli e abriram fogo contra opositores que tomavam as ruas. Crescem os rumores na capital de que forças rebeldes se aproximam e chegariam na cidade ainda no fim de semana.

Manifestantes que tentavam marchar de Tajoura à Praça Verde, no centro da cidade, foram dispersados com disparos - pelo menos cinco pessoas teriam morrido. O enterro na manhã de ontem de uma das vítimas se transformou em outro ato de desafio a Kadafi. "Nós nos manifestaremos de novo e de novo, hoje, amanhã, depois de amanhã, até eles mudarem", disse um manifestante. / COM REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.