REUTERS/Aziz Taher
REUTERS/Aziz Taher

Libaneses saem às ruas para primeiro aniversário de sua 'revolução'

Movimento de protesto popular que abalou política do país completa aniversário, mas ainda não provocou reformas concretas

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2020 | 12h27

BEIRUTE - Os libaneses recordam, neste sábado, 17, o primeiro aniversário do movimento de protesto popular, que abalou a liderança política do país, mas que ainda não conseguiu provocar reformas concretas. Três chefes de governo renunciaram desde o início dos protestos. Ainda assim, apesar da pressão dentro e fora do Líbano, as principais figuras políticas continuem no poder.

As manifestações começaram neste sábado, às 15h no horário local (9h em Brasília), em direção ao porto de Beirute, onde uma poderosa explosão ocorrida em 4 de agosto deixou mais de 200 mortos e cerca de 6.500 feridos.

Os manifestantes farão uma vigília à luz de velas às 18h07 (12h07 em Brasília), hora exata da explosão. A responsabilidade pela tragédia é atribuída, principalmente, à negligência das autoridades.

Próximo ao local, foi instalada uma estátua para relembrar o aniversário da "revolução" de 17 de outubro. "Continuamos a desconsiderar nossos líderes políticos como legítimos", disse Melissa, de 42 anos, que está fortemente envolvida no movimento. E completou: "Continuamos na rua (...), juntos contra o governo corrupto."

Os protestos começaram no outono de 2019, em reação a um projeto do governo para taxar as ligações feitas pelo aplicativo WhatsApp. Na sequência, tornaram-se um movimento nacional de alcance sem precedentes para exigir a renovação completa de uma classe política no poder há décadas e considerada incompetente e corrupta.

O país também enfrenta sua pior crise econômica desde a guerra civil (1975-1990). Cada vez mais libaneses caem na pobreza e no desemprego, o que leva muitos deles a tentarem a sorte no exterior. A situação se vê agravada pelo colapso da moeda nacional e pelas restrições bancárias a saques e a transferências para o exterior.

A este cenário, soma-se uma inflação galopante, dezenas de milhares de demissões e cortes nos salários. Tudo isso se agrava ainda mais no contexto da pandemia da covid-19.

As autoridades proibiram manifestações e reuniões públicas como forma de controlar os contágios por coronavírus. Mesmo com uma capacidade de mobilização reduzida nas ruas, muitos dizem, no entanto, que a revolta não para de crescer.

No Twitter, o cientista político Jamil Muawad observou que, apesar dos "inúmeros esforços" dos manifestantes, o movimento não tem um "programa político e liderança, o que impede seu progresso".

Enquanto isso, o coordenador especial da ONU para o Líbano, Khan Kubis, comentou na sexta-feira que, "em um ano catastrófico, as queixas e demandas legítimas dos libaneses não foram ouvidas". Ele concluiu que "tudo isso agravou ainda mais a falta de confiança que os libaneses têm em seus líderes".

A classe política permanece mergulhada em uma negociação sem fim para formar um governo, ignorando os apelos da comunidade internacional para iniciar reformas.

Inicialmente agendadas para quinta-feira, 15, as consultas parlamentares para nomear o futuro chefe de Estado foram adiadas por uma semana pelo presidente Michel Aoun./ AFP

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