´Libaneses viram as conseqüências de se aliar ao Hezbollah´

Embora não tenha conseguido eleger-se nas eleições parlamentares libanesas de 2005, o brasileiro Carlos Eddé participa ativamente da vida política do país como presidente do partido Bloco Nacional Libanês.Filho de um ex-ministro e neto de um ex-presidente do país, ele endossa a plataforma do grupo 14 de Março - bancada anti-Síria no Parlamento, que apóia o governo e engloba 71 deputados. De Beirute, ele falou ao Portal Estado.com.br sobre o assassinato do ministro da Indústria libanês Pierre Gemayel, morto a tiros nesta terça-feira. Embora diga-se consternado com a ousadia dos assassinos, ele acha que a reação ao crime pode trazer efeitos positivos para a política libanesa. "A solidariedade vai ser maior em torno do governo. Muitas pessoas vão ver quais são as conseqüências de se aliar com o Hezbollah." A entrevista: Como está sendo a repercussão da morte do ministro Pierre Gemayel?O clima aqui é de consternação e uma mistura de surpresa e não surpresa. A não surpresa é porque as forças pró-Síria do Líbano - chefiadas pelo Hezbollah e num segundo grau pelo general (Michel) Aun [cristão aliado da guerrilha xiita Hezbollah] - já vem ameaçando transformar o Líbano em caos há algum tempo. Eles querem emperrar o andamento do governo e principalmente do tribunal internacional, que deverá investigar os assassinatos políticos que vêm ocorrendo há quase dois anos. Deu para notar que a medida que o tribunal está sendo discutido e implementando, isso cria um grande nervosismo, a começar pelas lideranças sírias. Isso porque esses aliados da Síria teriam algum tipo de implicação nesses assassinatos, ou porque são satélites da Síria e têm que agir conforme instruções dela. Isso tem levado a um esforço para derrubar o governo atual, que depende de um consenso de maioria para aprovar suas medidas. A oposição tentou derrubar o governo com a retirada de alguns dos ministros, mas isso não foi suficiente. Então, a única forma de derrubar hoje o governo é com a morte de alguns ministros. Essa ameaça já existe há algumas semanas, e as forças anti-Síria já haviam sido avisadas de uma nova onda de atentados. Há mais de uma semana a possibilidade de assassinato de um ministro vinha sendo alertada com ênfase. De modo que para nós não há dúvidas de onde cai a responsabilidade.Isso está claro para vocês?Absolutamente. Não há a menor dúvida.E quem está sendo apontado como culpado?Os aliados pró-Síria. Ou porque eles tem uma implicação direta, ou porque tem criado o clima de impunidade que levou a esse crime. A Síria e o Hezbollah condenaram o crime. Qual é o significado desse tipo de declaração?Elas não são levadas a sério. É que nem em filme de máfia, em que eles matam e depois enviam coroa de flores. E como o Sr. vê o futuro político do Líbano? Como fica o governo de Fouad Siniora? Eu acho que por um lado a solidariedade vai ser maior em torno do governo. Muitas pessoas, principalmente entre os cristãos que estiveram ludibriados pelo apelo do general Aun, vão ver quais são as conseqüências de se aliar com o Hezbollah. Acho que isso vai criar algum tipo de reação. Nós estamos chamando para uma grande manifestação concomitante ao enterro do ministro falecido, e acho que com isso vamos mostrar que a maioria silenciosa do Líbano é a favor de soluções não violentas. As declarações recentes, principalmente do general Aun, eram de uma irresponsabilidade que lembravam muito os movimentos fascistas dos anos 30.O Sr. acha que o governo ainda tem força política pra se manter unido? Sim, porque tem a maioria no Parlamento. Mas a ameaça existe. Se mais um ministro morrer, o ministério cai. Só que aí o país ficaria imobilizado, porque, de um lado, as forças anti-Síria não poderiam formar um governo, e, de outro, nós também não conseguiríamos. Porque o ministério precisaria da ratificação do presidente, que infelizmente é um fantoche sírio. O Sr. Acredita que o gabinete tem o respaldo popular para se manter unido?Sim.Então esse tipo de golpe funciona só na esfera da intimidação.Exatamente. Só que é uma intimidação real. A mensagem que as forças pró-Síria estão mandando é que em plena luz do dia, em um bairro movimentado cristão, apesar de todo o apoio que o governo têm das Nações Unidas, eles podem assassinar impunemente. E se for necessários eles irão até as últimas conseqüências.Quais são as conseqüências imediatas desse assassinato?Eu acho que a solidariedade dos não alinhados libaneses, porque existem muitos que estão cansados da política. Acho que esses libaneses vão entender a importância de irmos em frente com um tribunal internacional e o quanto é necessário enfrentar esse tipo de ameaça.O Sr. acha que essa situação pode levar a uma contexto de violência sectária no Líbano?Existe o risco, mas estamos lutando para que isso não aconteça. Se acontecer, será culpa da Síria. Mas acho que não há interesse para que isso aconteça, porque as conseqüências seriam imensuráveis. Isso seria extremamente perigoso até mesmo para os xiitas, que têm mais armas.

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