Liberais alcançam trabalhistas na Grã-Bretanha e Brown muda discurso

Surpresa. Após vencer debate, candidato do Partido Liberal Democrata, Nick Clegg, sobe quase dez pontos nas pesquisas e faz da eleição do dia 6 a mais disputada em décadas na Grã-Bretanha; sob pressão, trabalhistas deixam de mirar apenas conservadores

Reuters, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

LONDRES

O primeiro-ministro britânico, o trabalhista Gordon Brown, precisa derrubar não um, mas dois rivais se quiser ser reeleito no dia 6 de maio. A tradicional disputa bipartidária com os conservadores, representados por David Cameron, foi atropelada por Nick Clegg, um liberal de 43 anos que já lidera algumas pesquisas desde que roubou a cena no primeiro debate, há quatro dias. Um desempenho que obrigou Brown a rever sua estratégia.

Em entrevista à BBC, o premiê admitiu ter sido batido "em estilo e apresentação" no debate, transmitido pela primeira vez pela televisão. Ao reconhecer a derrota, Brown opinou sobre a ascensão de uma terceira força entre os britânicos. "Isso coloca a campanha totalmente em aberto, mas essa é uma longa corrida. Vamos vencer em substância, não em estilo", disse.

Desde que algumas pesquisas o colocaram em terceiro lugar na disputa, Brown passou a dividir sua munição. Acusa os conservadores de ameaçar a recuperação do país com excessivos cortes de gastos, mas logo se concentra na proposta de política econômica do novo rival.

"Por que os liberais querem cortar o abatimento de impostos segundo o número de filhos? Isso não é justo. Por que eles querem limitar os benefícios de inverno para aposentados?", questionou Brown.

Conservadores. A chamada "Cleggmania" influenciou também o comportamento dos conservadores, que lideram a maior parte das pesquisas por uma margem de aproximadamente 2 pontos porcentuais (cada candidato tem cerca de um terço das intenções de voto).

Os partidários de Cameron avaliam que Clegg tende a roubar mais votos dos trabalhistas nos próximos 17 dias de campanha. A má notícia é que, no próximo debate, trabalhistas e liberais devem concentrar sua artilharia no candidato conservador. Por isso, Cameron passou a intercalar as críticas a Brown a outras ao candidato liberal. O ponto fraco de Clegg, para os conservadores, é a política de imigração, considerada "muito tolerante com os estrangeiros ilegais".

Além do confiante Clegg, que ontem lançou uma campanha para incentivar o voto de eleitores de 18 a 25 anos, os liberais têm a seu favor um eleitorado descontente com o rumo do país durante a crise econômica e decepcionado com o tradicional bipartidarismo. Os trabalhistas foram a terceira força pela última vez na década de 1980. O último premiê liberal foi David Lloyd George, que liderou o país durante a Primeira Guerra Mundial, há quase cem anos.

O sistema britânico favorece o bipartidarismo. Mesmo que consiga a maioria dos votos, Clegg dificilmente se tornará o novo premiê porque há diferença no peso eleitoral das regiões. Mesmo assim, o desempenho atual dos liberais permitiria dobrar o número de cadeiras no Parlamento e daria ao partido condições de formar coalizão com qualquer vencedor.

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