WAKIL KOHSAR / AFP
WAKIL KOHSAR / AFP

Libertação de prisioneiros é obstáculo a acordo de paz entre EUA e Taleban

Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, afirmou que decisão de libertar 5 mil homens do grupo rebelde não é decisão dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 10h58

CABUL - O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, afirmou neste domingo, 1º, que não libertará prisioneiros do Taleban antes das discussões sobre compartilhamento de poder no país, agendadas para a próxima semana. A declaração expõe o primeiro obstáculo na implementação do acordo de paz entre EUA e Taleban, assinado nesse sábado, 29, em Doha, no Catar.

O pacto firmado prevê como uma das condições para o cessar-fogo a libertação de até 5 mil prisioneiros do grupo rebelde pelo governo afegão, antes mesmo do início das negociações entre os grupos políticos do país, marcadas para o dia 10 de março, na capital norueguesa de Oslo. Em contrapartida, o grupo rebelde libertaria até 1 mil prisioneiros.

Contudo, o presidente afegão declarou em uma entrevista coletiva em Cabul que a condição firmada no Acordo de Doha não era uma promessa que os Estados Unidos poderiam fazer. Ele afirmou que a libertação de qualquer prisioneiro é uma decisão do governo e que ele não estava pronto para libertar prisioneiros antes do início das negociações.

"O pedido foi feito pelos Estados Unidos para a libertação de prisioneiros e pode fazer parte das negociações, mas não pode ser uma condição prévia", disse Ghani.

Retirada de tropas

Apesar dos desafios para a política interna do Afeganistão, o governo dos EUA afirmou que o planejamento da retirada de tropas ao longo dos próximos 14 meses está ligada ao desempenho antiterrorista do Taleban, e não ao progresso nas negociações entre os afegãos. O enviado de paz de Washington, Zalmay Khalilzad, que serviu como primeiro embaixador dos EUA no Afeganistão depois da invasão dos EUA em 2001, passou os últimos 17 meses conversando repetidamente com o Taleban para estabelecer o acordo.

O acordo de Doha é visto como uma oportunidade histórica para liberar os Estados Unidos do Afeganistão. No entanto, pode se desfazer rapidamente, principalmente se o Taleban não cumprir a promessa de que nenhum ataque terrorista seria lançado do solo afegão.

As negociações entre facções políticas do país e os insurgentes são ainda mais complexas. Apesar disso, um fracasso em potencial pode não afetar a retirada das forças americanas.

Construção de confiança

O ministro das Relações Exteriores do Catar, Mohammad bin Abdulrahman Al Thani, disse que considera a troca de prisioneiros uma importante medida de confiança. "Tudo está interconectado", disse ele no domingo sobre o prazo de 14 meses do acordo. "A troca de prisioneiros será uma das primeiras medidas de construção de confiança, por isso continuará sendo uma etapa muito crítica que precisamos avançar", acrescentou.

O presidente Donald Trump afirmou no sábado, 29, que o Taleban é um grupo "cansado da guerra". Ele disse achar que eles levam a sério o acordo que assinaram, mas alertou que, se falharem, os EUA poderiam reiniciar o combate. "Achamos que seremos bem-sucedidos no final", declarou, referindo-se às negociações de paz para os afegãos e a retirada dos EUA. Mas alertou: "Se coisas ruins acontecerem, voltaremos com o poder de fogo militar". /AP

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