Libertação de Suu Kyi não indica avanço, diz Pinheiro

Para ex-relator da ONU para Mianmar, soltura de dissidente não pode ser comparada à de Mandela

Jamil Chade CORRESPONDENTE/ GENEBRA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2010 | 00h00

O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, ex-relator da ONU para a defesa dos direitos humanos em Mianmar, alerta que a libertação Aung San Suu Kyi não deve ser vista como a libertação de Nelson Mandela na África do Sul. Para o diplomata, que ocupou o cargo na ONU por oito anos até 2008 e se reuniu mais de dez vezes com a prêmio Nobel da Paz em sua residência, o país não dá sinais de abertura.

Aung San Suu Kyi, que passou 15 dos últimos 21 anos detida, foi libertada da prisão domiciliar no sábado. Pinheiro admite que a libertação é "um grande acontecimento e deve ser comemorada" . Mas essa comemoração não pode ocorrer "de forma ingênua". Em entrevista ao Estado, ele disse que não se pode ter a ilusão de que Mianmar caminhe para ser uma democracia, apesar das eleições realizadas no dia 7.

"O Ocidente e a comunidade internacional não podem cair na ilusão de que as eleições foram positivas. Foram a consolidação do poder da junta", afirmou. "No caso dos africanos, tirar Mandela da prisão teve uma conotação de transição e fazia parte de uma negociação entre o regime no poder e as forças de oposição", disse. "No caso de Mianmar, nada disso ocorreu", alertou.

Questionado sobre se a ativista ficará solta por muito tempo, Pinheiro afirmou que "só o tempo dirá". "Não há liberdade de expressão nem de associação no país. Enquanto as centenas de outros presos políticos não forem libertados e seus direitos civis e políticos respeitados, não podemos dizer que as coisas caminham para um bom sentido."

Pinheiro também defende uma posição mais ativa da diplomacia brasileira na questão. "O País tem uma embaixada em Mianmar e deve usar sua presença para defender a abertura do regime. O Brasil não pode e não deve celebrar as eleições lá", alertou.

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