IMED LAMLOUM / AFP
IMED LAMLOUM / AFP

Líbia adia eleições por temor de violência

Após discussões com o parlamento, a Alta Comissão Eleitoral propõe o adiamento do primeiro turno da eleição para 24 de janeiro de 2022; o parlamento será responsável por adotar as medidas

Hamza Mekouar, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 12h59

Após vários dias de dúvidas, as autoridades líbias confirmaram nesta quarta-feira, 22, que a eleição presidencial prevista para sexta-feira, 24, neste país abalado por uma guerra civil há vários anos, não acontecerá. A proposta é de adiar o pleito em um mês.

A menos de 48 horas do dia D, uma comissão do Parlamento encarregada do monitoramento das eleições concluiu a "impossibilidade" de realizar as eleições na data prevista, que foi estabelecida um ano atrás.

As conclusões da comissão foram publicadas quando já se esperava há vários dias o anúncio do adiamento das eleições pela falta de preparações adequadas e em um contexto de discordâncias insuperáveis entre os adversários.

Desde a queda de Muamar Khadafi em 2011, a Líbia não consegue sair do caos, marcado nesses últimos anos pela existência de poderes rivais no leste e oeste do país e por uma série de conflitos armados.

As eleições de 24 de dezembro seriam a conclusão de um processo político com mediação da ONU para encerrar esse capítulo de divisões e instabilidade.

Mas "após consultar os relatórios técnicos, jurídicos e de segurança, informamos a impossibilidade de realizar a eleição na data de 24 de dezembro de 2021 prevista pela lei eleitoral", escreveu o presidente da comissão em um documento enviado ao chefe do Parlamento, sem adiantar uma nova data.

O texto pede ao presidente do Parlamento, Aguila Saleh, para retomar suas funções, das quais se afastou para se candidatar à eleição presidencial, e então "retomar o processo político e reformular o plano" para conduzir o país à democracia.

Situação de segurança tensa

A Alta Comissão Eleitoral líbia (HNEC) reagiu a este relatório com a proposta de adiar a eleição em um mês.

"Após discussões com o Parlamento, a Alta Comissão Eleitoral propõe o adiamento do primeiro turno da eleição para 24 de janeiro de 2022. O Parlamento será responsável por adotar as medidas necessárias para superar os obstáculos no processo eleitoral", anunciou a HNEC em um comunicado.

A Líbia vive há um ano uma calma relativa, desde a trégua histórica de outubro de 2020 entre as regiões oeste e leste. Um governo de transição assumiu o comando em março para administrar o país do norte da África até as eleições.

No entanto, persistem as divergências entre os lados rivais e existe uma insegurança crônica.

Nenhuma instituição parecia querer assumir a responsabilidade de oficializar o adiamento das eleições.

Ao propor uma nova data, a HNEC "busca colocar a responsabilidade nas mãos do Parlamento", opina Wolfram Lacher, especialista sobre a Líbia do instituto alemão SWP. "É o Parlamento que deve aprovar a nova data, mas é pouco provável que o faça", disse.

Entre os problemas no processo estão uma lei eleitoral controversa, um calendário modificado para adiar as legislativas e figuras polêmicas como candidatos.

Além disso, vários incidentes graves foram registrados.

Homens armados bloquearam o acesso ao tribunal de Seba (sul) para impedir a acesso dos advogados de Seif al-Islam Khadafi, filho mais novo de Muamar Gadafi, que pretendiam apelar contra a rejeição a sua candidatura presidencial.

Na terça-feira, milicianos armados se mobilizaram em Trípoli, gerando preocupações de um retorno da violência.

O enviado dos Estados Unidos para Líbia, Richard Norland, pediu nesta quarta-feira "calma" e "medidas adequadas para descomprimir a tensa situação de segurança" na capital e no resto do país.

Norland também pediu aos dirigentes líbios para agirem "rapidamente para eliminar todos os obstáculos jurídicos e políticos" para a celebração das eleições.

Além do filho de Khadafi, os principais candidatos que se apresentaram às eleições são o marechal Khalifa Haftar, homem forte do leste, e o primeiro-ministro Abdelhamid Dbeibah./AFP

 

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