Líbia floresce com 'água fóssil'

Governo de Kadafi adota processo semelhante ao da exploração do petróleo para obter água com o objetivo de irrigar fazendas no deserto

Sarah A. Topol The Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Em meio às areias amarelas escaldantes do deserto líbio, videiras cobertas de folhas verdes estão carregadas de cachos de uva; amendoeiras florescem em perfeitas fileiras e pomares de pereiras estendem-se indefinidamente.

A Líbia é um dos países mais secos da Terra, sem rios, lagos nem chuva. Mas o seu deserto está florescendo.

No Oriente Médio e no norte da África, a tentativa de transformar milhares de quilômetros de deserto em terra arável passou para um segundo plano diante da necessidade de conter uma ameaçadora escassez de água. Enquanto muitos países da região brigam entre si pelos direitos de exploração da água, a Líbia decidiu modificar sua topografia, transformando a areia em solo próprio para a agricultura.

O Grande Rio feito pelo homem, que é a ambiciosa resposta do seu líder Muamar Kadafi aos problemas de água, irriga enormes fazendas no deserto líbio. A rede de mais de 3.700 quilômetros de dutos transporta a água dos quatro principais aquíferos subterrâneos no sul da Líbia para os centros populosos do Norte. Poços pontuam a trajetória dos dutos, permitindo que os produtores agrícolas utilizem a rede de fornecimento de águas em seus campos.

O governo líbio afirma que o projeto tem 26 anos e custou US$ 19,5 bilhões. O Grande Rio feito pelo homem, que está quase concluído, é o maior projeto de irrigação do mundo e o governo pretende usá-lo para desenvolver 160 mil hectares de terra para a agricultura. É também a opção mais barata disponível para irrigar os campos no país onde a água é mais escassa e cuja precipitação média anual é de aproximadamente 25 mm.

"A precipitação atmosférica está concentrada em 5% da área do país, mais ou menos - 95% da nossa terra é deserto", diz Abdul Magid al-Kaot, ministro da Agricultura, durante uma apresentação no PowerPoint numa recente visita oficial de várias horas ao projeto e às fazendas nos arredores da capital, Tripoli. "A água é mais preciosa para nós do que o petróleo. Aqui na Líbia, a água é vida."

Assim como a Líbia explora o deserto em busca de petróleo, o governo está fazendo o mesmo para procurar "água fóssil" - água da Era do Gelo preservada nos bolsões porosos do Aquífero de Arenito Núbio. O enorme aquífero estende-se por baixo da Líbia, Egito, Chade e Sudão.

Ele inclui quatro bacias de água potável na Líbia, que contêm aproximadamente 10 mil a 12 mil quilômetros cúbicos de água de origem antiga a uma profundidade de 600 metros sob a superfície do deserto, disse o governo em sua apresentação.

A Líbia transfere o precioso recurso do solo para cinco gigantescos reservatórios acima do solo por meio de dutos de concreto protendido, pesando de 75 a 86 toneladas, que correm a pouco mais de 6 metros e meio de profundidade.

Guindastes de 450 toneladas operam sobre estradas especialmente construídas para a instalação dos cilindros enormes.

Outros países perfuram o solo em busca de água subterrânea com a mesma intensidade da Líbia. O país extrai 2,5 milhões de metros cúbicos diários, com a expectativa de chegar a bombear 6,5 milhões. Os especialistas disseram que o projeto equivale a transportar diariamente 2,5 milhões de automóveis Volkswagen (Fuscas) por mais de 3.200 quilômetros - um carro equivaleria aproximadamente a um metro cúbico de água, que pesa cerca de uma tonelada.

Consumo. Novas técnicas de irrigação por gotejamento estão sendo usadas para garantir que a água não seja desperdiçada. Mais de 70% da água deve ser usada como subsídio para a agricultura doméstica, e o restante para o consumo dos cidadãos. Ela não é reservada para a indústria pesada, segundo o governo.

Embora seja mais barato para a Líbia bombear a água subterrânea ou importar água, os especialistas estão preocupados com a decisão do país de irrigar fazendas em grande escala com a água fóssil.

"Para a Líbia esta água é muito cara. Não é tão cara quanto a água dessalinizada, mas para irrigar com ela provavelmente não é econômica do ponto de vista da relação custo/benefício", diz Aaron Wolf, professor e diretor do departamento de Geociências da Universidade do Estado de Oregon. "Se o produtor agrícola tivesse de pagar o custo total do bombeamento e distribuição da água até a sua fazenda, não compensaria para a agricultura, é por isso que outros países não estão fazendo isto."

O governo líbio subsidia abundantemente a água para os produtores agrícolas que pagam cerca de US$ 0,62 o metro cúbico, pouco menos do que a metade do preço que o cidadão comum paga a água que bebe.

"É basicamente uma das maravilhas do mundo, porque é exatamente como as pirâmides - é enorme, maciço e provavelmente não compensa do ponto de vista da relação custo/benefício."

O governo líbio afirma que as reservas durarão para o país 4.625 anos, às taxas atuais de demanda.

No entanto, estimativas independentes indicam que o aquífero pode ser esvaziado já de 60 a 100 anos desde o início da exploração, segundo Stephen Longhorn, professor de Geografia da Universidade de Victoria, no Canadá.

"As principais preocupações a respeito de um recurso não renovável são a taxa de depleção e a dependência inerente à sua utilização", afirmou o professor.

"A consequência secundária destes projetos é que quando a água acaba, já se criou uma dependência que só poderá ser atendida no futuro pela dessalinização ou a importação de água", disse Longhorn. Projetos como este criam "um legado que pode ter vantagens a curto prazo, mas em última análise tornam o país ou a região muito vulneráveis no futuro".

Por hora, enquanto esguichos gigantescos borrifam 100 mil oliveiras do viveiro de uma estufa cercada por areia nos arredores de Tripoli, os campos líbios estão florescendo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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