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Líbia, um barco à deriva

Desde a queda de Kadafi, país vive anarquia: tem dois governos e é reduto do EI

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 05h00

Há meses, especialistas em geopolítica pintam a Líbia em tons vermelhos (a cor do fogo, do perigo, da morte). Esse país muçulmano, que tem o Egito a leste e Tunísia a oeste, possui um longo litoral no Mar Mediterrâneo e limita-se ao sul com os vastos espaços dos países da areia, para os quais é um caminho para a África Central e a Equatorial. 

Tudo conspira para fazer da Líbia o palco de um próximo abalo político-militar: o fim do Estado Islâmico (EI), cujos assassinos se dispersaram por vários países – entre eles a Líbia – e a anarquia na qual o país patina desde o fim de Muamar Kadafi. A Líbia tem hoje dois governos. Um é reconhecido por ONU e Europa, instalado na capital, Trípoli, sob a autoridade de Faiez Saraj. Diante dele, está o governo do marechal Khalifa Haftar, que há semanas luta para derrubar Saraj, sem conseguir. 

Duas outras circunstâncias deixam a Líbia permanentemente perto de um conflito violento. A primeira é o fim do coronel Kadafi, personagem brilhante, detestável, mas que conseguia manter seu país fora do duplo perigo do caos e do islamismo sangrento – até ser estupidamente morto por uma operação da Otan orquestrada pelo francês Nicolas Sarkozy. Desde essa época, a Líbia é um grande barco desgovernado.

A segunda vulnerabilidade da Líbia é ter se tornado um caminho para os migrantes que buscam especialmente a Itália – aprisionada pelo ministro do Interior, Matteo Salvini, uma das últimas vias para entrar na Europa.

Nestes dias, a realidade nos deu uma ilustração do emaranhado de perigos que envolve a Líbia. Na noite de terça-feira, um ataque aéreo atingiu um centro no qual estão detidos 600 migrantes perto de Trípoli, resultando em 44 mortes. O ataque parece ter sido efetuado por aviões de Haftar, que há semanas assedia Trípoli sem conseguir entrar na cidade. 

Por que as numerosas ONGs assistem, sem reagir, a essa orgia de sangue? Resposta de Julien Rackman, chefe de missão do Médicos Sem Fronteiras: “Não temos meios de proteger os migrantes que chegam à Líbia, apesar de muitos deles terem direito ao status de refugiado”. 

O Conselho de Segurança da ONU não conseguiu emitir uma declaração unânime sobre os massacres. Faltou uma voz, provavelmente a dos EUA. 

Assim, a Líbia está no alto da tragédia migratória. Enquanto o fluxo de migrantes diminuiu na Europa à medida ela se fechava em leis, egoísmos e decretos, a Líbia se tornou mais visada. Atualmente, 660 mil migrantes estão estacionados na Líbia, ansiosos em ir para a Europa. Eles esperam em condições sórdidas. Paula Barrachia, do Acnur, diz: “Estão confinados, famintos, sofrendo de tuberculose, sujeitos a ataques a qualquer hora. São torturados, surrados, vendidos”. Para Pascal Brice, diretor do escritório francês de proteção a refugiados, “eles podem escolher entre vagar no Mediterrâneo e serem bombardeados”.

Outro triste espetáculo: um navio humanitário alemão, com imigrantes à beira do desespero, tentou atracar num porto italiano. As ordens de interdição de Salvini foram seguidas ao pé da letra. A capitã alemã do barco resistiu o tempo que foi possível, e então ordenou à tripulação que furasse o bloqueio. Ela foi presa, mas uma juíza disse que ela protegia os refugiados.

A jovem capitã, de 31 anos, chama-se Carola Rackete. O dramaturgo alemão Bertold Brecht talvez a chamasse de “Mulher Coragem”. E o grande Sófocles, um dos inventores do teatro grego, quem sabe a chamaria de Antígona. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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