Líbios votam em massa para eleger Parlamento que definirá Constituição

Avanço. Primeira eleição desde 1954 apontará 200 deputados, incluindo 60 que escreverão a futura Carta; federalistas atacam seções em Benghazi, Derna e Ajdabiyah, onde 1 pessoa morreu, mas 94% das urnas funcionam e observadores fazem balanço positivo

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h01

Depois de mais de meio século afastada das urnas, a população da Líbia respondeu em massa ontem aos apelos para participar das eleições parlamentares, as primeiras desde 1954, 11 meses após a queda do ditador Muamar Kadafi. Mesmo episódios pontuais de violência no leste do país não afugentaram os eleitores líbios.

A votação definirá os 200 deputados que integrarão o Congresso. Entre os eleitos, serão escolhidos, em nova votação, os 60 membros incumbidos de redigir a Constituição do país. Os parlamentares elegerão ainda o novo premiê da Líbia.

Munidos de bandeiras revolucionárias, os líbios foram às ruas desde cedo em Trípoli. Balanços parciais da Comissão Eleitoral e de observadores internacionais de ONGs e das Nações Unidas indicam que 94% das seções eleitorais funcionaram sem problemas, embora incidentes tenham envolvido milícias armadas em Benghazi, Derna e Ajdabiyah, onde o ataque de um miliciano federalista a uma seção eleitoral deixou um morto e dois feridos.

No final da manhã, milhares de pessoas estavam nas ruas, a pé ou em carreatas, carregando bandeiras do país. Outros faziam manifestações em semáforos para cobrar - com bom humor - os líbios que ainda não tinham votado.

Nas seções, havia filas de eleitores, incluindo vários idosos que compareciam às urnas pela primeira vez. "Todos nós queremos mostrar o quanto estamos felizes por esse dia", resumiu Muktar Thawer.

O primeiro dia de eleições nacionais na Líbia desde 1954 teve início às 8 horas (3 horas em Brasília). Então, 2,8 milhões de eleitores inscritos para votar começaram a comparecer às seções eleitorais nas três províncias - Tripolitânia, Cirenaica e Fezan. Dos 1.554 locais de voto, 1.453 funcionavam sem problemas até as 16 horas. As demais haviam sido alvo de atos de vandalismo ou ataques de milícias em cidades do leste, onde o movimento federalista, que prega o boicote à votação por discordar do sistema, é mais forte. Também nos oásis de Jalo e Ojla houve problemas.

O gabinete substituirá o Conselho Nacional de Transição (CNT), presidido por Mustafa Abdeljalil, ex-ministro da Justiça de Kadafi e uma personalidade política contestada no país.

'Vitória'. Observadores das Nações Unidas e de organizações não governamentais acompanham a lisura do processo.

"É verdade que houve problemas nas três cidades do leste (Benghazi, Ajdabiyah e Derna), com urnas que foram destruídas ou seções que não puderam abrir", confirmou ao Estado Carlo Binda, coordenador da ONG National Democracy Institute. "Mas, para quem está realizando eleições nacionais pela primeira vez em décadas e após uma revolução armada, ter 94% das seções eleitorais abrindo no horário e funcionando sem incidentes é uma grande vitória."

"Hoje é nossa primeira vez. Foram mais de 42 anos ouvindo um falso discurso de democracia. Agora a democracia de verdade chegou. Com ela nós sepultamos o tempo do regime", disse Salam Gadah, empresário que estudou seis anos nos EUA.

Um dos problemas da votação é o número de candidatos - 3,7 mil para 200 vagas - e a confusão no programa ideológico dos partidos. Embora nenhuma pesquisa eleitoral tenha sido feita, três forças se destacam.

A primeira é Partido da Justiça e da Reconstrução, braço político da Irmandade Muçulmana, moderado e de centro. Também formado por religiosos muçulmanos, mas radicais, o Al-Watan é liderado pelo revolucionário e ex-chefe militar de Trípoli Abdelhakim Belhadj. O terceiro protagonista é a coalizão Aliança das Forças Nacionais, centrista e laica, conduzida pelo também revolucionário e ex-primeiro-ministro do CNT Mahmoud Jibril.

Esse partido, que conta com o apoio de grande parte dos intelectuais do país, tem a simpatia de muitas mulheres líbias. Isso porque defende uma sociedade mais aberta, garantindo a maior igualdade entre os sexos. "Até aqui, nós só podíamos dizer sim", disse Efwa Zara, 20 anos, estudante de engenharia que compareceu às urnas maquiada e vestindo um véu islâmico (hijab) colorido. Eleitora do partido de Jibril, ela quer completar sua revolução. "Agora, queremos ter nossa própria voz."

Estima-se que o eleitorado feminino chegue a 45% do total de votantes. As seções eram divididas por sexo.

Muitas mulheres preferem não revelar sua opção política, mas dão a entender que optarão por moderados ou liberais, os que mais asseguram a liberdade religiosa e a igualdade de gêneros. "Tenho muita esperança no futuro. Nós, mulheres, vamos ter nosso próprio espaço no país", disse Manahel El-Misdawi, dona de casa de 30 anos.

Segundo a Comissão Eleitoral, por razões logísticas o resultado da votação só será conhecido amanhã ou na terça-feira. No ano que vem, líbios votarão para presidente.

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