Lição do episódio McChrystal: preço é alto por criticar chefe

Washington não tolera gafes em tempos de guerra

Walter Rodgers, The Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2010 | 00h00

Destacar as falhas de nossos superiores - principalmente na vida pública - equivale a dar um tiro no próprio pé. O general Stanley McChrystal, que foi exonerado do comando no mês passado por insultar o presidente americano, Barack Obama, e outros funcionários do governo dos EUA, é a prova mais recente disso.

Aparentemente, McChrystal foi demitido por ter infringido o sagrado código do soldado segundo o qual um oficial não pode criticar publicamente seu comandante-chefe. Em 2004, no Iraque, nem os soldados de patente mais baixa do 101.º Batalhão Aerotransportado na Província de Nínive eram doidos a ponto de permitir que este repórter os atraísse para tal armadilha. Em um nível mais profundo, McChrystal fracassou no teste de Hamlet, ignorando o conselho de Polônio: "Não dê palavras a seus pensamentos. Nem ação a pensamentos precipitados."

No entanto, alguns observadores sem nada a perder sugeriram que McChrystal deveria ser aplaudido por "falar a verdade".

Absolvição. Talvez ele venha a ser absolvido pela História, principalmente, segundo foi noticiado, por julgar que Obama se sentia "intimidado e desconfortável" com os generais e "não parecia muito interessado" na reunião com McChrystal.

Mas o general não deveria ser aplaudido, porque "dizer a verdade" significaria dizer ao povo americano que a guerra no Afeganistão não pode ser vencida.

Se, como disse certa vez Michael Kinsley, "uma gafe é quando um político conta a verdade", uma avaliação de McChrystal sobre as perspectivas reais dos Estados Unidos no Afeganistão teria sido uma gafe que valeria a pena fazer para encerrar uma carreira.

Washington não tem muita tolerância para as gafes, principalmente em tempos de guerra.

Em 1968, o governador George Romney, candidato republicano à presidência, cometeu uma gafe que provavelmente lhe custou a indicação e quem sabe até a presidência.

Com outra guerra sem sentido no topo da agenda de todos, naquela época, Romney disse que inicialmente defendera a Guerra do Vietnã porque uma viagem de investigação que ele fizera em 1965 resultou na "maior lavagem cerebral à qual uma pessoa possa se submeter". Romney disse a verdade e foi ridicularizado pelos políticos - não importa se o presidente Lyndon Johnson mentiu durante anos aos americanos a respeito do Vietnã.

As pessoas que ocupam altos cargos às vezes põem em risco a própria carreira - e quem sabe até a vida - ao contestar a convicção geral de seus superiores. Na melhor das hipóteses, esses dissidentes são impelidos pela coragem moral. Na pior, são movidos pela perspectiva da venda de livros. Em ambos os casos, provavelmente serão tachados de traidores.

Vejamos o caso de Paul O"Neill, o secretário do Tesouro de George W. Bush. Ele foi obrigado a deixar o cargo porque em 2002 alertou sobre um enorme déficit do orçamento, se a Casa Branca não elevasse consideravelmente os impostos e fizesse amplos cortes dos gastos.

Para o círculo mais próximo de Bush, falar a verdade sobre os impostos era considerada uma deslealdade imperdoável. O"Neill saiu por ter infringido a linha do partido, embora suas recomendações possam ter sido ditadas pela prudência econômica.

Posteriormente, O"Neill escreveu um livro de memórias censurando severamente Bush por não agir de maneira inteligente nas reuniões do gabinete, e por desestimular seus assessores a manifestar opiniões discordantes. Os partidários de Bush reagiram, não negando suas acusações, mas atacando a credibilidade de O"Neill.

Preocupação. Muito embora os dissidentes muitas vezes sejam demonizados, como neste caso, eu pude constatar que a História pode absolver pessoas que pertencem ao círculo mais restrito do governo e se preocupam em expor as falhas de um programa político equivocado.

Enoch Powell, um brilhante membro conservador do Parlamento britânico anterior a Margaret Thatcher, alertou em 1968 a respeito de um significativo aumento da criminalidade, da pobreza e da violência decorrentes da imigração descontrolada.

Powell, ministro do gabinete paralelo do governo de Edward Heath, foi duramente criticado e demitido por seu discurso sobre os "Rios de sangue" (contra a imigração). Hoje, enquanto a Grã-Bretanha está às voltas com os guetos urbanos muçulmanos e com a série de ataques terroristas realizados por filhos de imigrantes paquistaneses nascidos na ilha, Powell é muitas vezes homenageado postumamente como profeta e lembrado como tal por muitos ingleses.

Aparentemente, os generais são mais propensos a atirar nos próprios pés. O marechal Nikolai Ogarkov era o militar de mais alta patente do Exército soviético na época em que seus superiores decidiram secretamente invadir o Afeganistão. Julgando esta decisão um erro terrível, Ogarkov procurou seu chefe, o ministro da Defesa, Dmitri Ustinov, para alertá-lo de que o regime Leonid Brejnev estava incorrendo em um erro militar colossal. Ustinov acabou imediatamente com seu rompante: "Sua função é planejar operações específicas e pô-las em prática. Cale a boca e obedeça as ordens."

É um fato que às vezes nos sintamos impelidos a falar coisas mesmo quando sabemos que estamos criando um problema muito grande para nós mesmos. Declarações muito francas têm claros limites entre os militares, no governo e no local de trabalho. Mas, e quando os planos do chefe comprometem os resultados finais da companhia, ou a segurança nacional? Neste caso, só teremos de nos guiar pela prudência e pela consciência. Uma atitude corajosa às vezes merece um prêmio, mas não sejamos ingênuos. Afirmar "mas eu estou certo" só acarretará a insegurança de nosso emprego. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-CORRESPONDENTE INTERNACIONAL SÊNIOR DA CNN

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