Lições da América Latina

Mesmo após o surgimento de uma grande classe média, as desigualdades crescentes entre ricos e pobres colocam sob pressão a coesão e a harmonia de qualquer sociedade

É EX-CHANCELER DO MÉXICO, JORGE G., CASTAÑEDA, THE NEW YORK TIMES, É EX-CHANCELER DO MÉXICO, JORGE G., CASTAÑEDA, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h02

Em um estudo sobre justiça social da Bertelsmann Foundation divulgado recentemente, os Estados Unidos figuram em último lugar entre os países ricos, tendo apenas Grécia, Chile, México e Turquia com um registro pior. Nas classificações de prevenção de pobreza, pobreza infantil, desigualdade de renda ou saúde, os EUA ficaram abaixo de países como Espanha e Coreia do Sul, para não mencionar Japão, Alemanha ou França.

Isso foi um novo sinal do mal que os americanos estão fazendo a sua classe média. Guerras, fome e violência já devastaram classes médias antes, na Alemanha e no Japão, na Rússia e no Leste Europeu. Mas quando a fumaça se desfazia e a poeira baixava, uma estrutura social aproximadamente similar à que existia antes, sempre ressurgia.

Nenhum país jamais perdeu uma classe média existente, e os EUA não estão ameaçados disso ainda. Mas a porcentagem da renda nacional em mãos do 1% mais rico de americanos passou de cerca de 10% em 1980 para 24% em 2007, e esse é um sinal preocupante.

Portanto, antes de os EUA continuarem seu curso atual de desmantelamento de sua versão de Estado de bem-estar social, de retalhamento de sua rede de proteção social, de alargamento do abismo entre ricos e pobres, os americanos poderiam perfeitamente dar uma olhada para o sul. A lição é que, mesmo após o surgimento de uma grande classe média, as desigualdades crescentes entre ricos e pobres colocam sob pressão a coesão e harmonia de qualquer sociedade.

Se algum estereótipo geográfico já teve alguma verdade, foi que, na América Latina, um punhado de magnatas imensamente ricos exerceram o poder sobre um mar de pobres. Se já houve um clichê social com raízes na realidade, foi que uma vasta classe média sempre foi a espinha dorsal da força dos EUA. O país nunca teve o tipo de Estado de bem-estar social que os europeus construíram após a 2.ª Guerra. Não precisou disso.

Com a iniciativa provada e esforços para igualar as oportunidades, há muito que os americanos asseguraram que uma enorme classe média provesse a cola social para manter a sociedade unida.

Se essa classe média murchar, como ficarão os EUA? Bem, como a América Latina costumava ser e, em certa medida, ainda luta para deixar de ser.

Portanto, duas perguntas se colocam: os EUA realmente querem se parecer com a América Latina do passado? E haverá uma lição a ser aprendida com seus vizinhos do sul - a de que quando a desigualdade se torna entranhada, revertê-la torna-se incrivelmente difícil?

Antes de continuar, abordemos um pouco de história. Da era pré-colombiana até boa parte do século 20, a sabedoria convencional pintava a América Latina como a região mais desigual do planeta, onde a pobreza extrema de seus destituídos convivia com a riqueza extrema de seus ricos. Aliás, essa percepção começou a deixar de ser verdadeira há cerca de 50 anos na maior parte da região, e hoje só é verdadeira em alguns países: Haiti, Honduras, Bolívia e, talvez, Nicarágua. Em 1970, os países maiores como Brasil, México, Colômbia, Venezuela, Chile e Peru tinham testemunhado o surgimento de classes médias expressivas. Outros, como Argentina e Uruguai, haviam sido, para todos os efeitos práticos, sociedades de classe média desde pelo menos a metade do século (embora os argentinos, em décadas posteriores, tenham se esforçado para regredir).

Abismo. Mas sempre houve um abismo entre essas sociedades e os EUA. Até muito recentemente, as classes médias latinas mal constituíam um terço da população, e alguns de seus membros mais proeminentes - Che Guevara na Argentina, Fidel Castro em Cuba, Salvador Allende no Chile - fizeram carreiras políticas da causa de erradicar a desigualdade. Essa causa era compartilhada por milhares de estudantes, líderes sindicais, acadêmicos e políticos moderados, que consideravam seu modo de vida moralmente intolerável e politicamente insustentável.

Após anos de frustrações e fracassos, no fim do século 20 alguma coisa começou a mudar. Nos últimos 15 anos a tendência tornou-se inconfundível. Segundo uma definição de classe média usada em pesquisa recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a classe média é maioria em Chile, Brasil, México, Uruguai, Costa Rica e, em menor escala, Colômbia. Nos anos 60 e 70, mesmo após décadas de crescimento robusto, essas classes médias mal chegavam a 30%; hoje, no México, Brasil e Chile, os números variam de 55% a 60%.

Sim, ainda é uma maioria pequena e precária, e não é mãe das classes médias - tão protegida e bem de vida como na Europa, EUA, Japão ou Coreia do Sul. A classe média latina ainda enfrenta dificuldades, com padrões de vida muito aquém dos padrões dos ricos locais. Mas é uma classe média mesmo assim: com telefones celulares e carros usados, com casas pequenas, mas bem construídas, com todos os eletrodomésticos; e com férias modestas, mas intensamente aproveitadas na praia.

Os mercados de consumo ampliaram-se. O Banco Mundial e a OCDE, escritores como este que lhes escreve e universidades como a Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro produziram resmas de dados e análises sobre o tamanho, profundidade e poder duradouro dessa classe média. Os políticos sabem que só podem ser eleitos se fizerem conexão com essa classe e estão condenados quando são atraentes somente para os pobres que, embora sejam uma minoria agora, ainda são uma parcela significativa da população.

Pode-se dizer, pois, que boa parte da América Latina chegou lá: é democrática, com uma maioria pequena, mas crescente, de seu povo próspera, competitiva e com ambições internacionais (reais, mas nem sempre realistas).

Mas reduzir a pobreza e construir classes médias amplas não reduz automaticamente a desigualdade. As medidas estatísticas de desigualdade conhecidas como coeficientes Gini começaram a cair lentamente na América Latina, mas continuam sendo as mais altas do mundo, com os 1%, 5% ou 10% mais ricos da população controlando parcelas incrivelmente altas da riqueza ou da renda total. No Brasil, Chile e México, que juntos representam quase 70% do Produto Interno Bruto (PIB) e da população da região, os 10% mais ricos detinham uma média de 42% da renda nacional em 2008-09; a cifra equivalente para os EUA foi 29%.

É por isso que centenas de milhares de estudantes chilenos levaram o governo de seu país a uma virtual paralisia neste ano, apesar de o Chile ser o país latino mais bem-sucedido por qualquer critério econômico ou social. É por isso que Colômbia, Brasil e México têm índices de assassinato e sequestro bem superiores aos dos países mais ricos, que são, a despeito de sua riqueza, menos desiguais.

Aliás, as desigualdades históricas que persistem produziram traços singulares de caráter nacional, passados de uma geração para outra, que precisam mudar se essas sociedades quiserem continuar reduzindo a desigualdade e realizando sua promessa. Fatalismo brasileiro, insularidade chilena e individualismo mexicano estão sendo lentamente abandonados. E isso é bom; esses traços deveriam ser eliminados completamente para essas sociedades terem a esperança de alcançar o nível de igualdade para o qual os EUA têm sido seu modelo.

E, no entanto, enquanto tudo isso está ocorrendo, os EUA - esse modelo de sociedade de classe média, de sonho igualitário que atraiu milhões de imigrantes da América Latina - começaram a se tornar latino-americanos. Eles vivem um processo de encolhimento da classe média estrutural e ampliação da desigualdade que talvez jamais tenha ocorrido em nenhum outro lugar (de novo, com a possível exceção da Argentina).

Os americanos podem objetar - e nisso teriam razão - que sua sociedade difere da América Latina, pois existe mobilidade no topo e no fundo. Ao sul do Rio Grande, os ricos são sempre os mesmos; nos EUA, eles variam de geração para geração, às vezes bastante. É isso que dá a tantos americanos a impressão - falsa como deve ser para maioria - de que um dia eles poderão atingir o topo e os que já estão lá abrirão espaço para eles. Mas essa capacidade de aspirar não aborda efetivamente a questão de quanto está aumentando a distância entre os do topo, do meio e do fundo; nem conforta os do meio que veem sua chance de ascender tornar-se cada vez menor.

Exemplo. O que leva a uma questão para os EUA: por que eles deixariam isso ocorrer, quando nós na América Latina podemos lhes mostrar como é difícil alcançar o tipo de classe média exemplar que eles foram os primeiros a criar, e lhes deram tamanho poder econômico e coesão social - ao menos desde os anos 20 do século passado? Especialmente quando todos sabemos que sua existência é crucial para preservar alguns dos melhores traços de seu próprio caráter nacional?

Alexis de Tocqueville defendeu esse ponto de vista há quase dois séculos. Alguma coisa no caráter americano havia produzido uma sociedade bem mais igualitária que qualquer outra na Europa. E alguma coisa nessa sociedade estava produzindo um caráter nacional diferente, mais moderno e empolgante, com espaço para experimentação, cooperação e aceitação de diferenças. Os americanos não podem conservar o caráter nacional tolerante, inovador e voltado para o futuro que apreciam se desistirem da configuração de classe média igualitária que o acompanha.

O México e outras terras latino-americanas estão reformulando nossos caráteres nacionais e políticas democráticas em nossa busca de uma classe média maior e mais vibrante, e ao menos já estamos tendo algum sucesso. A classe média americana está ficando sob crescente pressão na medida em que a diferença de renda entre ela e os muito ricos se amplia.

Será que os americanos não teriam realmente algo a aprender conosco, depois de termos aprendido tanto com eles? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.