Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Lições da gripe de 1918

A única forma de reduzir dano é transferir renda para os que precisam durante a quarentena

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 05h00

O grande dilema do nosso tempo é: impor rigoroso isolamento e distanciamento social para evitar o colapso do sistema de saúde ou fazer algo mais limitado para diminuir ao mínimo o dano sobre a economia. A escolha precisa ser feita com base em evidências empíricas. E elas já existem.

Para não comparar realidades diferentes, vamos olhar para o que aconteceu com quatro Estados do Meio-Oeste americano com populações mais ou menos equivalentes. Ohio adotou medidas rigorosas, enquanto seus vizinhos Michigan, Illinois e Pensilvânia foram mais complacentes. Segundo o jornal Washington Post, Ohio tinha, na quinta-feira, 5.148 casos confirmados e 193 mortes. Já na Pensilvânia, eram 16.239 casos e 309 mortes; em Illinois, 15.478 infectados e 462 mortos; e em Michigan, que tem uma população menor, 20.346 casos e 959 mortes. Ohio fez menos testes que os dois primeiros e mais ou menos o mesmo número que Michigan. Quanto menos testes, maior a taxa de mortalidade.

O epidemiologista Anthony Fauci, da força-tarefa da Casa Branca, reduziu a projeção de mortes no país para 60 mil. O cálculo anterior era de 100 mil a 240 mil, com as medidas de distanciamento social; sem elas, até 2 milhões. A redução da estimativa tem ligação direta com a adoção em massa das medidas restritivas de circulação em 47 dos 50 Estados americanos. Depois de relutar muito, o presidente Donald Trump passou a apoiar essas medidas, e baniu aglomerações com mais de dez pessoas e atividades não essenciais.

Alguns ainda argumentam que as mortes pela depressão econômica serão maiores do que pela covid-19 se for mantida a quarentena. A forma empírica de testar essa hipótese é olhar para o único exemplo histórico com registros confiáveis de algo semelhante: a pandemia de influenza de 1918.

Foi o que fizeram os economistas Sergio Correa, do Conselho de Governadores do Banco Central americano, Stephan Luck, da sucursal do BC em Nova York, e Emil Verner, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em um estudo intitulado Pandemias Deprimem a Economia, Intervenções de Saúde Pública, Não: evidência da gripe de 1918”, publicado no dia 26 pela plataforma de trabalhos científicos SSRN. 

Os pesquisadores constataram que as economias das cidades que adotaram medidas de distanciamento social abrangentes e nos estágios iniciais retomaram a atividade mais depressa e até cresceram já em 1919. Em contrapartida, as que foram mais lentas ou mais frouxas nas medidas tiveram recessão que se estendeu pelo ano seguinte ao da pandemia. 

A ciência não deixa de pé também uma outra objeção à quarentena no Brasil, a de que o vírus não se alastra no clima quente. Numa carta à Casa Branca, integrantes de um comitê da Academia Nacional de Ciências advertiram que a chegada do verão no Hemisfério Norte não vai necessariamente diminuir a capacidade de proliferação do vírus.

Segundo cientistas, de fato, há evidências de que, quanto mais altas a temperatura e a umidade, menor a eficiência da transmissão. Mas, como uma fatia ainda muito pequena da população teve contato com o vírus, falta imunidade. Por isso, “essa redução na eficiência da transmissão pode não levar à queda significativa da proliferação da doença sem a concomitante adoção de grandes intervenções de saúde pública”. 

Estudos do surto na China mostraram que, mesmo sob condições extremas de calor e umidade, o vírus se espalhou “exponencialmente”, diz a carta. E em países com temperaturas altas no momento, como Austrália e Irã, a proliferação tem sido rápida. A única forma conhecida de reduzir o dano socioeconômico é transferir renda para os que precisam durante a quarentena. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.