Lições da Guerra do Golfo e o desafio iraniano

O conflito ensinou que as sanções são insuficientes para convencer Teerã e o uso da força para impedir a fabricação de uma arma nuclear teria apoio de apenas alguns países

RICHARD N. HAASS, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Este mês marca os 20 anos da invasão do Kuwait por Saddam Hussein, então presidente do Iraque. O que se seguiu foi a primeira grande crise internacional da era pós-Guerra Fria, crise que, em menos de um ano, levou à libertação do Kuwait e à restauração de seu governo.

Isso foi conseguido a um custo humano e econômico considerado apenas modesto para a extraordinária coalizão multinacional reunida pelo presidente americano George H. Bush.

Desde então, os Estados Unidos recorreram ao uso da força militar em numerosas ocasiões para atingir objetivos de diferentes tipos.

Atualmente, os EUA tentam se retirar de um segundo conflito envolvendo o Iraque, procuram descobrir uma maneira de avançar no Afeganistão, e consideram a opção de usar a força contra o Irã. Assim, a pergunta surge naturalmente: o que podemos aprender com a primeira guerra do Iraque, considerada por muitos um sucesso militar e diplomático? Uma lição importante envolve a lógica da guerra. Uma coisa é modificar o comportamento de um país fora de suas fronteiras, e outra bem diferente é modificar o que ocorre dentro do território de outro país.

A Guerra do Golfo de 1990-91 foi travada para reverter a agressão armada do Iraque, algo fundamentalmente incompatível com o respeito à soberania, a mais básica dentre todas as regras que regem as relações entre os diferentes países no mundo atual.

Metas cumpridas. Depois que as forças do Iraque foram expulsas do Kuwait em 1991, os EUA não marcharam sobre Bagdá para substituir o governo iraquiano - nem permaneceram no Kuwait para impor a democracia ao país.

A guerra de 2001 contra o Afeganistão e a guerra de 2003 contra o Iraque divergiram muito deste paradigma. Ambas as intervenções buscaram depôr os governos instalados naqueles países, e ambas cumpriram a meta. Ainda defendo que a intervenção no Afeganistão foi justificada (para depôr o governo Taleban que ajudou na realização dos ataques do 11 de Setembro), mas não a deposição de Saddam Hussein.

Independentemente das opiniões individuais em relação a essas questões, não se pode duvidar que a tarefa de substituir um governo por algo melhor e mais duradouro é uma meta diferente e muito mais ambiciosa do que simplesmente alterar o comportamento de um governo.

Uma mudança de regime bem sucedida exige o prolongado envolvimento de força militar, de especialistas civis treinados na construção de uma sociedade moderna, de dinheiro e atenção - e ainda assim nada garante que os resultados justificarão o investimento feito.

Outro conjunto de lições da primeira guerra do Iraque (e também da segunda) sugere que há um limite para o que podemos esperar como resultado de sanções econômicas. Por si mesmas, as sanções, ainda que te

nham sido aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU e reforçadas pelo aparato militar, não foram capazes de convencer Saddam a se retirar do Kuwait, país que representava para ele uma espécie de prêmio. E as sanções mostraram-se igualmente incapazes de promover uma mudança de governo em Bagdá. De fato, sua capacidade de produzir resultados diminuiu com o tempo.

Um terceiro conjunto de lições diz respeito ao apoio internacional. A participação de muitos governos não apenas distribui entre eles o custo da guerra, como também confere legitimidade ao empreendimento militar.

O apoio multilateral pode ajudar a sustentar a aprovação doméstica - ou ao menos a tolerância - nos EUA e em outros países, incluindo aqueles dentro dos quais as hostilidades ocorrem.

O que estas lições nos dizem a respeito do rumo que devemos seguir no Iraque, no Afeganistão e no Irã? No caso do Iraque, o presidente Barack Obama reiterou sua promessa de promover a retirada de todos os soldados dos EUA até o fim de 2011.

Mas, a julgar pela incapacidade dos políticos iraquianos para formar um governo meses após as eleições nacionais, seu fracasso em proporcionar serviços essenciais e, acima de tudo, a continuidade da violência, os esforços de construção nacional no Iraque estão longe de sua conclusão.

O governo Obama deveria reconsiderar a decisão de retirar seus soldados do Iraque e, em vez disso, negociar um novo acordo (que permita, por exemplo, a permanência de até 20 mil soldados americanos no Iraque pelos próximos anos) se e quando um novo governo iraquiano surgir.

Terror como alvo. No Afeganistão, as lições estão relacionadas à natureza do nosso objetivo. A história indica que os EUA devem pensar duas vezes antes de dar prosseguimento a seus esforços para recriar a sociedade afegã e o governo do país. Em vez disso, os EUA demonstrariam mais sabedoria ao se limitarem à missão específica do combate ao terrorismo, em moldes mais semelhantes ao envolvimento americano na Somália e no Iêmen (e no Paquistão, até certo ponto).

No caso do Irã, a primeira guerra do Iraque nos ensina que sanções econômicas provavelmente serão insuficientes para convencer a Guarda Revolucionária (que cada vez mais domina o país) a aceitar limites verificáveis para seu programa nuclear. Entretanto, talvez as sanções possam persuadir outros grupos importantes dentro do Irã - como os clérigos, os comerciantes do bazar e os conservadores políticos - a se voltar contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad e a Guarda Revolucionária, que constitui sua base de apoio.

Mas, caso contrário, a opção de recorrer à força militar para frear o desenvolvimento de uma arma nuclear iraniana virá à tona. Na melhor das hipóteses, um pequeno número de governos vai apoiar esse recurso.

Ninguém pode prever quais seriam os resultados de um ataque limitado contra as instalações nucleares iranianas, nem qual seria seu custo. Mas a inação, que equivale a aceitar o poderio nuclear iraniano, traz consigo o risco de um futuro mais perigoso e cujo custo pode ser ainda mais alto. Como resultado, muito mais do que no Iraque e no Afeganistão, é no Irã que as lições da Guerra do Golfo devem ser debatidas e, finalmente, aplicadas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS DO DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA E ATUALMENTE É PRESIDENTE DO CONSELHO DE RELAÇÕES EXTERIORES. PUBLICOU "WAR OF NECESSITY, WAR OF CHOICE: A MEMOIR OF TWO IRAQ WARS" (GUERRA NECESSÁRIA, GUERRA ESCOLHIDA: LEMBRANDO AS DUAS GUERRAS NO IRAQUE).

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