Lições da negociação sobre a Bósnia

Qual a probabilidade de o regime de Bashar Assad negociar sua própria saída, uma vez que está em melhor situação militar? Até que ponto os representantes da oposição podem atuar em favor das forças fragmentadas - e até rivais - que combatem na Síria? Desde o início da guerra civil, muitos observadores têm traçado paralelos entre a Síria e a Bósnia. Que lições podemos extrair das negociações há 20 anos? Uma delas é a necessidade de ser humilde. A guerra civil é extraordinariamente resistente à intervenção externa. E isso tem três implicações importantes.

ANÁLISE: Philippe Leroux-Martin* / NYT - O Estado de S. Paulo,

22 de janeiro de 2014 | 23h56

A primeira é que iniciativas de paz com frequência são uma lente pouco confiável para se observar um conflito. Há uma tendência de achar que fatos ocorridos em campo, na Bósnia e Síria, podem ser controlados por estratégias e cronogramas estabelecidos por estrangeiros. Não é o caso.

O conflito se insere no ambiente, planos de paz vêm e vão. Os Acordos de Dayton que puseram fim aos combates na Bósnia em 1995 foram precedidos por quatro iniciativas infrutíferas. O conflito na Síria também já teve iniciativas frustradas. Também crucial é indagar de que modo esforços podem interferir no conflito. Na Bósnia, em 1993, o efeito do fracassado Plano de Paz Vance-Owen, que propunha novas entidades políticas divididas com base nas etnias, foi intensificar o genocídio étnico à medida que grupos beligerantes tentavam fortalecer suas posições de antes da divisão.

Uma segunda implicação é a necessidade de entender o quadro regional, como o enviado americano Richard Holbrooke mostrou nos esforços que levaram ao Plano Dayton. Ele assegurou o apoio de seus parceiros europeus e da Rússia e integrou os líderes de países vizinhos de Bósnia, Croácia e Iugoslávia (hoje Sérvia) no processo.

O acordo de Dayton estava longe de ser perfeito, como mostram os problemas atuais da Bósnia. Mas a estratégia criou as condições para se impor um pacto. Rússia, União Europeia e seus membros individualmente tiveram papel crucial na implementação do acordo e a comunidade internacional conseguiu a cooperação da Croácia e da Sérvia para controlar os acontecimentos na Bósnia. A estratégia adotada pelo governo Obama, apoiando as conversações de Genebra no âmbito de uma ampla coalizão que inclui a Rússia, é a correta. Mesmo se a ausência do Irã da mesa de negociações se tornar um fator limitador.

Finalmente, a Bósnia nos ensina que a guerra não acaba quando as armas são baixadas. As elites da época da guerra continuam a perseguir objetivos beligerantes.

Em vez de concentrar seus esforços exclusivamente no fim da violência no curto prazo, os negociadores devem considerar qualquer acordo de paz para a Síria como um momento de transição, quando as partes definem parâmetros legais e institucionais com base nos quais continuarão em conflito, mas não mais por meio das armas. As facções não abandonarão suas aspirações na mesa de negociação. O poder da diplomacia repousa muito na sua capacidade de moldar o comportamento futuro das partes mediante uma engenharia constitucional e eleitoral.

Mesmo se essas conversações tiverem êxito, no sentido de acabar com a violência, as potências estrangeiras devem estar conscientes de que, como na Bósnia, algumas facções tentarão arruinar o frágil acordo por outros meios. A insurgência não é um fenômeno puramente militar. Conquistar a paz jamais é um trabalho de curto prazo.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

PHILIPPE LEROUX-MARTIN É MEMBRO DA FUTURE OF DIPLOMACY PROJECT

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