Lições de Fukushima

A população japonesa é corajosa, eficaz e orgulhosa. Quando, no dia 18, a França propôs enviar ao Japão 130 toneladas de material de alta tecnologia, em particular robôs concebidos para operações em ambiente perigoso e extremo, as autoridades do Japão agradeceram com elegância e recusaram a oferta. Não sabiam para que esses robôs poderiam servir no desastre das centrais de Fukushima.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2011 | 00h00

Ontem, os japoneses já se mostravam menos orgulhosos. Os três grupos franceses especializados em energia nuclear (Areva, EDF e a CEA), responderam ao pedido de ajuda da Tokyo Power Company, que administra a central de Fukushima.

Não sabemos se os especialistas da Areva estão levando os tais robôs e as 130 toneladas de material ou se essa será apenas uma missão de aconselhamento, com os engenheiros franceses oferecendo uma "nova visão" sobre o acidente, graças à longa experiência da França na área nuclear.

Dias antes, a Areva já tinha enviado ao Japão 100 toneladas de ácido bórico, substância que absorve nêutrons, para ser misturado à água destinada ao resfriamento dos reatores, além de equipamentos de uso individual, como máscaras, luvas e aparelhos respiratórios.

Paralelamente, na França as dúvidas recaem sobre o estatuto e os perigos do átomo. Claro que, apesar do respeito aos ecologistas franceses, não existe no país uma rejeição em massa à energia nuclear para fins civis como ocorre na Alemanha. Em Paris, o desastre de Fukushima vem provocando um debate centrado menos na necessidade da energia nuclear e mais nas cautelas impostas por esse tipo de fonte energética.

Nesse ponto, uma opinião predomina: a infelicidade dos japoneses deixou à vista de todos o que há muitos anos se suspeitava: uma irresponsabilidade escandalosa das autoridades japonesas, uma despreocupação criminosa na escolha dos locais para a instalação dessas usinas, uma falta total de transparência desde o início da catástrofe e, enfim, o sacrifício deliberado dos interesses coletivos (a população japonesa) em detrimento de interesses privados (da Tokyo Power Company).

O enorme abalo moral que sacode o mundo depois dessa "marcha para o apocalipse" iniciada com a explosão dos reatores de Fukushima levou muita gente a questionar a necessidade da energia nuclear.

Os mais radicais, como o Partido Verde alemão, exigem um abandono puro e simples da energia nuclear civil. Na França, os incrédulos são mais sutis. E se perguntam se, depois do desastre no Japão, temos o direito de deixar a gestão dessa área para empresas privadas - cuja lógica, por definição, é a "rentabilidade". Somente o Estado seria capaz de dominar e controlar essa aterradora energia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.