Lições de Srebrenica

Sérvios precisam admitir que sua dignidade depende de reconhecer a amarga verdade

STEVEN A. COOK - FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2015 | 02h02

 

A voz de Amir era fraca, mas seu medo chegava com clareza. Era julho de 1995 e o batalhão holandês enviado para proteger a área designada pela ONU em torno de Srebrenica havia se abatido depois que líderes da ONU rejeitaram solicitar ataques aéreos da Otan. "Os holandeses vão sair e nos deixar, os intérpretes, para trás", gritou Amir, pedindo para seu chefe de assuntos civis da ONU e para mim que obrigássemos os holandeses a resgatá-lo.

Preocupados com a retirada dos próprios soldados e sobrecarregados por milhares de crianças e mulheres muçulmanas expulsas de Srebrenica, os holandeses nos deram um "não". Um segundo telefonema de Amir me convenceu a escrever uma carta ríspida, declarando que, como membros da equipe da ONU, os intérpretes eram responsabilidade legal dos holandeses. Funcionou. Amir foi resgatado. Mas nossa carta não significou nada para os 8 mil muçulmanos homens e meninos que os holandeses deixaram para trás em Srebrenica.

Quase todos foram mortos por forças sérvias sob o comando do general Ratko Mladic, no pior massacre na Europa desde a 2.ª Guerra. Nas duas décadas seguintes, surgiram detalhes sobre o massacre, mas a justiça foi incompleta. Somente alguns sérvios foram condenados por genocídio. Mladic e Radovan Karadzic só agora estão enfrentando julgamento em Haia. Seu objetivo comum, a purificação étnica da região sérvia da Bósnia, foi em grande parte alcançado. A paz fria obtida após o fim da guerra agora está se esgarçando.

Novas forças centrífugas - o duplo espectro do Islã radical e a influência russa ressurgente - se combinaram com as divisões não resolvidas da guerra para de novo testar a coesão do país. A reconciliação entre sérvios, croatas e bósnios da Bósnia atual ainda parece uma proposta distante.

Milorad Dodik, presidente da República Sérvia da Bósnia, recentemente designou o massacre de Srebrenica como "o maior embuste do século 20". Depois que a Sérvia denunciou a resolução da ONU condenando tanto o genocídio em Srebrenica quanto qualquer negação de que ele ocorreu, a Rússia a bloqueou no Conselho de Segurança. E Dodik tem expressado sua intenção de separar a República Sérvia da Bósnia.

Há muito que a Europa - que divide a culpa pela tragédia de Srebrenica - perdeu o interesse pelo país. Hoje, Bruxelas está preocupada com o impasse e a estagnação econômica da Bósnia, mas só oferece respostas tímidas. Apesar do remorso, a UE ainda não consegue captar o pleno significado de Srebrenica.

A limpeza étnica que se tornou sinônimo de Bósnia não foi um subproduto da luta, mas seu propósito. O projeto sérvio de construir um Estado livre da "dominação muçulmana" requereu a obliteração demográfica da população bósnia muçulmana com a contiguidade ininterrupta com a mãe Sérvia. Srebrenica e dois enclaves muçulmanos remanescentes menores, Zepa e Gorazde, frustraram esse objetivo.

Apostando que a displicente ONU não convocaria o poderio aéreo da Otan para defender as "áreas protegidas", Mladic as tomou. Em Srebrenica, passou a exterminar a população masculina muçulmana. Quando eu o conheci, na vizinha Zepa, perguntei a Mladic se nos deixaria retirar os homens muçulmanos que se escondiam nas florestas. "Sim", disse sem qualquer ironia, "exceto os criminosos de guerra."

Permitir que pessoas como Dodik ameacem com a secessão da República Sérvia da Bósnia é um passo para justificar o projeto sérvio do tempo da guerra. Srebrenica permanece - e assim deve permanecer - como uma linha vermelha contra as aspirações maximalistas sérvias.

A cerimônia de 20 anos do massacre, que será realizada no sábado, é uma oportunidade para sérvios de boa-fé se associarem não só à comunidade internacional, mas às vítimas de Srebrenica. Sérvios de todas as partes precisam rejeitar o revisionismo e reconhecer que sua dignidade e segurança repousa em reconhecer a amarga verdade. As vítimas de Srebrenica jamais retornarão, mas a cada julho, o mundo sempre se lembrará de como morreram. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É DIRETOR EXECUTIVO DO INSTITUTE OF CURRENT WORLD AFFAIRS E EX-FUNCIONÁRIO DA ONU NA BÓSNIA DE 1992 A 1995 

 

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