Lições para o Tio Sam

Depois de amanhã, a maioria dos 211 milhões de eleitores dos EUA irá às urnas para votar para novos legisladores, governadores e representantes locais. O resultado será, como sempre, ansiosamente aguardado hemisfério afora. Pudera. Os EUA, mesmo combalidos pela Grande Recessão, com o dólar no chão e o bafo da China no cangote, ainda se credenciam como superpotência isolada. E eleição na superpotência reverbera. Se isso vai fazer alguma diferença para a América Latina é outra história.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Ao tomar posse em 2009, com seu carisma e dom da palavra, Barack Obama criou altas - e exageradas - expectativas mundo afora. A sensação foi potencializada pelo fato de ele suceder a George W. Bush, talvez o mais execrado líder americano na memória viva do país e, quiçá, do mundo. Bush deixou um legado pesado (herança maldita, no vernáculo político daqui) de duas guerras e, no apagar das luzes, o estouro da bolha imobiliária americana, que tragou o seu país e depois, todos os outros. A chegada de Obama parecia prometer não apenas mudança, mas a redenção - uma noção embutida na sua exortação quase religiosa de campanha, "Sim, nós podemos!"

A América Latina também se ajoelhou. Logo ascendeu a chama de iminentes mudanças fundamentais nas relações do hemisfério, como o fim do embargo a Cuba, relíquia da Guerra Fria que contrariava quase todos os países da região; distensão entre Washington e os países da aliança bolivariana liderado por Hugo Chávez, da Venezuela; um acordo generoso com o México que reconhecesse ao menos parte dos milhões de imigrantes clandestinos nos EUA; e até um grande pacto comercial mais justo que removesse barreiras protecionistas contra exportações latino-americanas, como o etanol brasileiro.

No entanto, nada disso aconteceu, ao menos como se imaginava. O governo relaxou as restrições às remessas de dólares para Cuba e liberou viagens entre parentes separados pelo Estreito da Flórida, mas não mexeu com o embargo quarentão à ilha.

Apesar de um breve veranico, a geleira entre Washington e Caracas persiste (Chavez chamou Obama de "ignorante"). A revolução da direita populista da turma da Tea Party constrangeu os Republicanos moderados (quem se lembra de John McCain?), tradicionalmente simpáticos tanto à liberalização da entrada de imigrantes quanto aos acordos de livre comércio.

A julgar pelas pesquisas, o governo Obama está em apuros. Embora a presidência não esteja em jogo, o pleito sem dúvida será um plebiscito sobre esse jovem político, que teve ascensão espetacular e agora amarga queda igualmente marcante. De todas as suas grandes iniciativas políticas nesses dois anos de governo, apenas uma, a que aumentou o controle regulatório sobre os bancos e instituições financeiras, tem plena aprovação do público (por uma margem de 37% a 61%), segundo o Instituto Gallup, em agosto.

As reprovadas são o pacote de estimulo econômico (por 43% a 52% dos pesquisados), a reforma do sistema de saúde (por 39% a 56%), o socorro aos bancos (por 37% a 61%) e ajuda à indústria automobilística (por 43% a 56%). Esse é o caldo para a temporada política, que aponta para uma retrocesso grande, talvez, imenso para a Casa Branca, lançando dúvidas até sobre a sua reeleição.

"Não, vocês não podem". Por essas e outras (acrescentam-se a encrencada guerra no Afeganistão e o desastre do Golfo do México) o Partido Democrata deve perder a sua maioria folgada na Câmara e ainda passar por um aperto no Senado. Se as pesquisas estiverem certas, a mensagem das urnas bem que pode ser: "Não, vocês não podem."

Em tese, a derrota do Obama não seria fatal aos interesses dos demais países das Américas. Afinal, se por um lado o sonhado redescobrimento da América Latina por Washington atolou no reinado democrata, uma vitória nas urnas dos Republicanos - tradicionalmente associados ao livre comércio - poderia reacender as esperanças. Mas a crescente estridência da polícia americana mina todas as teses.

Se é que as condições no hemisfério americano melhoram, grande parte do mérito é da ala do sul. Após anos de desmandos e passos falsos, com frequentes puxões de orelha de Washington, os países da América Latina abraçaram reformas profundas, consolidaram as suas democracias e estabilizaram as economias.

Passaram bem pelo teste da recessão global e estão crescendo (com exceção da Venezuela e do Haiti) a 4,5% ao ano - o dobro do ritmo da economia americana. Os déficits fiscais estão sob controle (2,3% do PIB, na média) e a dívida pública latino-americana não chega a metade daquela da Europa e os EUA.

Que Washington tome nota. Era uma vez, o Partido Republicano pregava a responsabilidade fiscal e o Democrata, defendia sem trégua o pequeno e o trabalhador.

Agora o partido de Obama resiste em cortar despesas, servindo-se do dinheiro suado do contribuinte, enquanto os republicanos esperneiam para manter os cortes bilionários de impostos.

Ganhe quem ganhar, o déficit público só cresce. Se fosse na América Latina, os paladinos da probidade fiscal denunciariam isso como populismo eleitoreiro. Com a palavra, o eleitor americano.

É COLUNISTA DO "ESTADO" E CORRESPONDENTE NO BRASIL DA REVISTA "NEWSWEEK"

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