Lições para os sírios tiradas da guerra na Líbia e no Iraque

Mesmo com o impasse na Síria, os diplomatas precisam pensar no futuro do país quando se encerrar o conflito. Os que planejam o dia seguinte deveriam se preocupar em aprender com o passado, evitando uma abordagem que foi adotada na Líbia e no Iraque e só ampliará as divisões em vez de cicatrizar as feridas.

ANÁLISE: Tamara Alrifai / MCT, É DIRETORA DE AÇÕES PARA O ORIENTE MÉDIO DA HUMAN RIGHTS WATCH., ANÁLISE: Tamara Alrifai / MCT, É DIRETORA DE AÇÕES PARA O ORIENTE MÉDIO DA HUMAN RIGHTS WATCH., O Estado de S.Paulo

13 Junho 2013 | 02h04

O Congresso Nacional da Líbia aprovou recentemente uma lei impedindo pessoas que trabalharam no regime de Muamar Kadafi de voltar a ocupar cargos públicos, o que tende a criar problemas na transição rumo à democracia. A lei foi aprovada por pressão de milícias armadas, que ocuparam e sitiaram edifícios ministeriais. Infelizmente, os líbios não parecem ter aprendido com a história recente do Iraque.

Há dez anos, após derrubar Saddam Hussein, os EUA instalaram uma autoridade provisória, antes de entregar o poder, em 2004, para um governo iraquiano interino. Depois, veio uma campanha para expulsar do serviço público, da polícia e das Forças Armadas todas as pessoas que haviam pertencido ao partido Baath, responsável por dar sustentação ao regime repressivo de Saddam durante as décadas em que ele se manteve no poder. Transformada em lei, a "desbaathificação" custou o emprego de milhares de iraquianos e os impediu de voltar a trabalhar no setor público. Poucos deles, e isso vale também para os militares - eram acusados de ter cometido crimes durante o regime anterior. No entanto, não lhes foi oferecida nenhuma oportunidade de reconciliação.

É quase certo que essa vingativa e míope política de "desbaathificação" contribuiu para alimentar a violência que ainda hoje assola o Iraque. Muitos ex-policiais e ex-soldados se associaram a grupos insurgentes, levando consigo suas habilidades organizacionais e sua experiência policial e militar. Oficialmente, o governo interino revogou a "desbaathificação" em junho de 2004, mas na prática muitos iraquianos continuaram impedidos de assumir cargos públicos por seus vínculos com o governo anterior.

No Iraque de Saddam, as oportunidades de emprego, as promoções e até mesmo o aprimoramento educacional dependiam sobretudo da suposta fidelidade das pessoas ao único partido político com permissão para existir. Havia quem se filiasse por se identificar com os ideais do partido, mas, para muitos, a filiação era apenas uma maneira de assegurar a subsistência e não despertar a suspeita da todo-poderosa polícia secreta.

Na Síria, como no Iraque, o partido Baath se fazia presente em quase todas as instâncias da vida - políticas, acadêmicas, culturais. Tentar expurgar toda e qualquer pessoa que tenha tido laços com o partido de Bashar Assad ampliaria as chances de termos uma guerra civil ainda mais prolongada e brutal. As pessoas que cometeram atrocidades devem ser responsabilizadas, mas membros partidários que não fizeram nada de errado devem ser totalmente reintegrados na nova Síria. Na transição síria, é preciso que a ideia de reconciliação se sobreponha aos impulsos de exclusão e retaliação. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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