Líder afegão rejeita diálogo com Taleban e EUA

Presidente Karzai anuncia rompimento da cooperação com Washington na área de segurança e reclama de escritório de insurgentes aberto no Catar

CABUL, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2013 | 02h06

Na véspera do primeiro encontro entre autoridades americanas e o Taleban para negociar a paz, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, anunciou ontem a suspensão do diálogo com os EUA sobre cooperação na área de segurança.

Em um comentário lacônico, o líder afegão argumentou apenas, por meio de nota, que "contradições entre o discurso e as ações" de Washington no diálogo de paz com os insurgentes levaram a essa decisão.

Horas depois, o escritório do presidente emitiu um novo comunicado, dizendo que o governo afegão não participará do encontro agendado para hoje com o Taleban. O argumento, desta vez, foi que autoridades de Cabul só participariam de um diálogo de paz "totalmente 'afeganizado'", recusando, portanto, a participação de estrangeiros. O governo afegão também afirmou que a abertura de um escritório de representação do Taleban no Catar vai contra promessas feitas pelos EUA a Karzai.

As decisões do presidente afegão são uma ducha de água fria nos recentes esforços de Washington para encontrar uma saída política para um conflito que já dura 12 anos. Segundo o cronograma estabelecido pelo governo de Barack Obama, as tropas americanas devem deixar o Afeganistão até o fim do ano que vem.

Há 18 meses, Obama vinha tentando - sem sucesso - retomar o diálogo político com o comando do Taleban.

Fontes afegãs disseram, sob condição de anonimato, ao New York Times, que Karzai irritou-se com a decisão de abrir uma missão do Taleban no Catar. O temor de Cabul é o de que o escritório passe a servir para o grupo arrecadar fundos e realizar campanhas políticas. Sobretudo, Karzai não quer que o Taleban passe a ser visto como uma alternativa ao seu governo.

Um dos porta-vozes do presidente afirmou que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, deu garantias explícitas de que não aceitaria a criação de uma missão do Taleban no Catar.

Poder paralelo. Autoridades diplomáticas dos EUA tentaram agir rapidamente para evitar o colapso do processo de paz. Nos bastidores, funcionários de Washington estariam pressionando os insurgentes a não se apresentarem como um "governo paralelo" no Afeganistão. As imagens de líderes do Taleban, diante da bandeira branca que o grupo usava enquanto estava no poder, causou revolta entre vários setores da sociedade afegã.

Muitos no país acreditam que os EUA, tentando a todo custo abandonar o atoleiro no Afeganistão, decidiram dar ao Taleban um status de "governo no exílio", com direito a um escritório no Golfo Pérsico. A rede de TV Al-Jazeera, do Catar, vem transmitindo, nos últimos dias, várias entrevistas com emissários do grupo guerrilheiro.

Ainda de acordo com um dos porta-vozes de Karzai, Kerry teria afirmado ao presidente afegão que o governo do Catar não permitira que o grupo usasse a bandeira branca do "califado afegão", promessa que teria sido violada.

Karzai é tido em Washington como um líder de personalidade errática, que repetidas vezes entrou em rota de colisão com o governo americano para, depois, buscar a reaproximação. As consequências das decisões tomadas ontem, entretanto, podem colocar em xeque os dois principais pontos do plano de retirada das forças americanas: um acordo político com o Taleban para cessar a violência e, em segundo lugar, um tratado com o próprio governo Karzai para manter uma pequena presença militar dos EUA, que atuaria no treinamento e em operações antiterror. / NYT

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