AFP PHOTO / Josep LAGO
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Líder catalão está dividido entre antecipar eleições ou declarar independência

De acordo com fontes próximas a Carles Puigdemont, o presidente regional da Catalunha 'está consciente das consequências de tudo'; ele também analisa se irá ou não ao Senado nesta semana para explicar por que se opõe à intervenção de Madri

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 12h03

BARCELONA - Ante a intervenção iminente da autonomia catalã por parte de Madri, as dúvidas assolam o governo regional da Catalunha, onde alguns querem que o presidente Carles Puigdemont convoque logo eleições invés de declarar a independência unilateralmente.

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Na sexta-feira, em Madri, o Senado espanhol deve aprovar uma bateria de medidas sem precedentes em 40 anos de democracia, com as quais o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy quer liquidar o desafio separatista das autoridades catalãs.

Nesse dispositivo, amparado pelo artigo 155 da Constituição, está o bloqueio do governo de Puigdemont, a convocação de eleições regionais em um prazo máximo de seis meses e a tomada de controle da polícia catalã.

Isso inaugurará um cenário inédito, no qual a grande dúvida é se o governo de Rajoy seria capaz de conduzir a situação na Catalunha. A resistência viria de várias frentes, tanto das ruas, onde os separatistas estão muito mobilizados, como das instituições, onde seria exposto no dia a dia o boicote de milhares de funcionários públicos.

Ante este panorama caótico são muitos os membros do governo catalão que pedem a Puigdemont que antecipe as eleições, na esperança de evitar o que as fileiras separatistas chamam de "liquidação" do governo, indicou uma fonte do governo. Puigdemont, no entanto, ainda avalia as opções.

"Ele está consciente das consequências de tudo", tanto da aplicação do artigo 155, como da convocação de eleições, o que implicaria acatar a ordem constitucional que Puigdemont precisamente quer romper, explicou a fonte.

Até agora Puigdemont vem repetindo que se deve respeitar o "mandato" do referendo ilegal de autodeterminação realizado em 1º de outubro, em que, segundo o governo, 90% dos votos pediram a separação, com 43% de participação popular.

Rajoy firme

A pressão sobre o dirigente catalão também vem por parte do Partido Socialista, que acertou com Rajoy as medidas do artigo 155 e reiterou nesta quarta que as eleição são uma forma de saída da crise.

"Se Puigdemont aceitar convocar as eleições dentro do marco constitucional, não cabe nem política nem juridicamente a aplicação do artigo 155", afirmou a porta-voz socialista, Margarita Robles.

Na semana passada, o próprio governo central mostrou a Puigdemont essa possibilidade, mas sua posição parece ter endurecido, como demonstra as declarações de Rajoy nesta quarta no Parlamento.

Respondendo a um deputado nacionalista catalão, que pediu para "frear a repressão representada pelo artigo 155", Rajoy disse que esta disposição "é a única resposta possível para restaurar a legalidade na Catalunha".

Puigdemont, que milita pela causa separatista há décadas, quando esta opção política era ainda marginal na Catalunha, deve também deve decidir se vai ou não ao Senado explicar por que se opõe à intervenção no governo regional.

Poderá fazer isso na sexta-feira, ou mesmo na quinta, quando também está prevista uma reunião do Parlamento, que discutirá a aplicação do artigo 155.

Grupos de resistência da autodeterminação catalã marcaram para esta quarta uma marcha até a câmara catalã como medida de pressão para exigir uma declaração unilateral de independência.

Cenário: O que aconteceria depois da declaração de independência?

A iniciativa surgiu dos chamados Comitês de Defesa do Referendo, criados nos bairros e municípios para coordenar a resistência cidadã ante a tentativa de Madri de impedir a votação separatista de surtir efeito.

Também são preparadas mobilizações de duas grandes associações separatistas, a Assembleia Nacional Catalã e a Òmnium Cultural. / AFP

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