Líder chinês ignora Paris em visita à Europa

Encontro de Sarkozy com dalai-lama abala relação entre os dois países

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

28 de janeiro de 2009 | 00h00

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, iniciou ontem uma turnê por cinco países da Europa, a primeira após a crise diplomática com a França que resultou, no início de dezembro, no cancelamento da Cúpula União Europeia-China. Ainda que a viagem represente uma reaproximação do bloco econômico, o premiê chinês não fará escala em Paris, mantendo frias as relações diplomáticas bilaterais. A anulação da Cúpula União Europeia-China, que se realizaria na cidade francesa de Lyon, ocorreu por causa da insatisfação do governo de Pequim com o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Ele tinha um encontro marcado em Varsóvia, na Polônia, com o dalai-lama, líder político do Tibete, região autônoma da China que reivindica independência. A reunião entre Sarkozy e o dalai-lama foi o terceiro ato do governo francês que desagradou Pequim em 2008. Antes, um violento protesto pela independência do Tibete, nas ruas de Paris durante a passagem da tocha Olímpica, e a ameaça de boicote à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, feita por Sarkozy, haviam provocado atrito entre os dois países. O resultado foi a indiferença. Wen Jiabao partiu ontem de Pequim para a Suíça, onde participará do Fórum Econômico Mundial, em Davos. A seguir, o premiê visitará Alemanha, Espanha, Grã-Bretanha e Bélgica. Ele reforçará os contatos para a reunião de Cúpula do G-20, prevista para 3 de abril, em Londres, que deverá reformar os mecanismos de regulação do sistema financeiro internacional. Sarkozy, um dos líderes que mais defende a reforma, não será consultado. Questionado na semana passada sobre a frieza das relações com Sarkozy, Wu Hongbo, ministro-adjunto de Relações Exteriores da China, deixou claro que espera do Palácio do Eliseu o primeiro passo de reaproximação. Já a chancelaria francesa prefere o tom amistoso, mas sem ir além. "A França quer manter com a China uma relação útil aos todos, estável e calma", limitou-se a responder o porta-voz Frédéric Desagneaux. Mais conciliador, o embaixador da União Europeia em Pequim, Serge Abou, não ignorou a crise diplomática. "A relação entre UE e China não pode ser harmoniosa se há uma divergência com um grande país do bloco", afirmou à agência France Presse. "Será necessário que as duas partes dialoguem." A prova de que o clima entre os dois países não vai bem foi a total ausência de comemorações, ontem, pelo 45.º aniversário da reconciliação diplomática entre França e China, após o rompimento provocado pela Revolução Comunista de Mao Tsé-tung. A comemoração, que deveria ser festejada "dignamente", conforme declarou em outubro o presidente chinês, Hu Jintao, durante a última visita de Sarkozy à China, acabou se limitando a um coquetel na Embaixada da China em Paris.

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