Credit Peggy Peattie/San Diego Unior Tribune
Credit Peggy Peattie/San Diego Unior Tribune

‘Líder corre o risco de provocar lutas de poder no partido’

Para especialista, Xi poderia causar um racha no Partido Comunista da China, na forma de rebelião da elite ou golpe

Entrevista com

Susan Shirk, diretora do 21st Century China Center

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2018 | 13h17

WASHINGTON - A decisão de Xi Jinping de mudar a Constituição para permanecer no comando da China por tempo indeterminado poderá provocar lutas de poder no Partido Comunista e levar à esclerose de sua liderança, diz Susan Shirk, diretora do 21st Century China Center da Universidade da Califórnia em San Diego e autora do livro China: Fragile Superpower (China: Superpotência Frágil). A mudança põe fim à inovação institucional que deu estabilidade à China nas últimas três décadas, ao criar um mecanismo de liderança coletiva e alternância no poder, observou. “Não importa quanto poder Xi tenha, ele sempre terá medo de que outros políticos estejam conspirando contra ele.” A seguir, trechos da entrevista:

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Quais são as implicações do anúncio de que não haverá mais limite de tempo para a permanência de Xi Jinping no poder?

O mais importante é que a inovação institucional de sucessões regulares e pacíficas de líderes foi eliminada. A China foi o primeiro país comunista a adotar a prática. Era uma fonte de estabilidade para os governos comunistas, pois reduzia o risco de lutas pelo poder e a esclerose de líderes.

Essa instituição também permitia a renovação de lideranças?

Claro. Ter transferências regulares de poder abre oportunidades para outros políticos e é uma forma de compartilhar o poder. Ao abandonar isso, Xi causa grande ansiedade em outros políticos, que agora veem que o líder não respeita suas carreiras e interesses. Depois da morte de Mao (Tsé-tung), Deng Xiaoping disse que os problemas de sua era, como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, eram o resultado do excesso de concentração de poder e não do caráter pessoal de Mao. Por isso, era necessário instituir um sistema coletivo de liderança, com limites para mandatos e idade para aposentadoria. Todas essas instituições estão sendo abolidas por Xi. Foi uma conquista rara o Partido Comunista governar sobre uma sociedade tão diferente da que existia na URSS ou durante o período de Mao. A fonte dessa resiliência autoritária era essa institucionalização da liderança coletiva, em particular a transição regular e pacífica de poder.

Qual o risco para Xi e o partido?

O maior risco é que, ao monopolizar o poder, Xi venha a causar um racha na liderança do partido, na forma de rebelião das elites ou golpe. É difícil organizar esse tipo de resistência, mas ele comunicou de maneira tão clara sua intenção de liderar até o fim da vida que se colocou em uma posição de risco. Claro que isso criaria séria instabilidade na China. Deng alertou para outro risco, que são decisões arbitrárias e erros nas políticas públicas. Xi está cercado de pessoas que só dizem ‘sim’ e é difícil para ele ter conselhos francos ou informação precisa sobre a situação do país. 

Ele é o mais poderoso desde Mao? Mais do que Deng?

Sim. Deng compartilhou poder com outros líderes da Longa Marcha. Mesmo Mao teve de compartilhar poder sobre o Exército com outros generais. Agora, não há ninguém no mesmo patamar que Xi.

A China de hoje é mais ou menos frágil do que quando a sra. escreveu seu livro em 2008? 

Mais. A sociedade continua a mudar e se modernizar, há uma grande classe média urbana educada, as pessoas tiram férias no exterior e mandam seus filhos para o exterior. Ao mesmo tempo, temos um Partido Comunista e uma liderança que está retornando a uma ditadura leninista obsoleta. Não importa quanto poder Xi Jinping tenha, ele sempre terá medo de que outros políticos estejam conspirando contra ele. Estabilizar a política das elites será mais difícil agora do que quando escrevi meu livro. E impedir protesto social também é mais difícil, pois a sociedade continuou a se modernizar e a abordagem adotada é a de um Estado policial repressivo. Nenhuma dessas coisas cria estabilidade no longo prazo.

Haverá mais repressão?

Não importa quanto poder tenha, Xi vai se sentir inseguro e verá qualquer afrouxamento como uma ameaça. E não há pesos e contrapesos para suas políticas repressivas. Ele controla o aparato policial repressor e não há nenhum sinal de relaxamento na trajetória de aumento da repressão.

Qual pode ser o impacto sobre a relação entre China e EUA? 

Isso deverá aumentar as preocupações nos Estados Unidos e fazer com que a China pareça mais ameaçadora.

 

Qual é a diferença entre Xi e Kim Jong-un ou Mao ou Stalin? 

Não é tão ruim quanto esses outros ditadores, mas sua decisão evidencia a diferença de valores entre nossos países.

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