AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Líder cubano ‘despista’ temas mais sensíveis

Em entrevista conjunta com Obama, Raúl Castro devolve a repórter pergunta sobre prisões políticas na ilha

CLÁUDIA TREVISAN - ENVIADA ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S. Paulo

22 de março de 2016 | 05h00

A formalidade da inédita entrevista coletiva dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro foi quebrada quando um assessor do dirigente cubano subiu ao palco e começou a conversar com ele em espanhol, enquanto o americano respondia a uma pergunta. Com o ruído do seu lado esquerdo, Obama interrompeu as declarações, olhou sorrindo na direção do anfitrião e disse “desculpe?”. 

Depois de risos, Raúl se justificou com o argumento de que não havia entendido a pergunta do jornalista americano Jim Acosta. Filho de cubanos, o repórter havia falado em espanhol sobre um tema inconveniente para o líder: a existência de presos políticos em Cuba. 

A situação foi interrompida pelo assessor de Raúl, que decidiu passar a palavra a um jornalista cubano, o único do país a fazer perguntas. Ruídos de tradução voltaram a ocorrer na segunda pergunta do lado americano, feita por Andrea Mitchell, da rede NBC. A jornalista pediu ao presidente cubano que apresentasse sua visão para o futuro da relação bilateral, que poderá enfrentar um teste difícil caso um republicano vença as eleições presidenciais de novembro.

O acordo entre os protocolos americano e cubano era o de que Obama responderia a duas perguntas e Raúl, a apenas uma. Quando Mitchell se dirigiu aos dois presidentes e Raúl pareceu confuso diante da situação, Obama intercedeu e disse que ela era uma das mais respeitadas jornalistas de seu país, mas que caberia a Raúl decidir se responderia ou não a pergunta.

O presidente cubano vacilou por alguns momentos. Por fim, disse que havia concordado em responder a uma pergunta e acabaria respondendo a uma e meia. Em vez de apresentar sua visão de futuro, voltou a falar de direitos humanos e se dirigiu à repórter: “Agora, eu vou fazer uma pergunta a você”. O presidente indagou se Andrea sabia quantos acordos internacionais tratam de direitos humanos. Ele próprio respondeu que são 61, dos quais Cuba cumpriria 47.

A seu lado, Obama se empenhava em ganhar a simpatia dos cubanos, que assistiam pela TV à transmissão ao vivo. O americano iniciou seu pronunciamento com “buenas tardes” e a afirmação de que “es un nuevo día” nas relações bilaterais. Obama agradeceu pela acolhida, elogiou a culinária local e disse que fez questão da companhia das filhas na viagem.

Obama elogiou a “cortesia” e o “espírito de abertura” demonstrados por Raúl e se desculpou com antecedência pelo que previu que seria um discurso mais longo que o do anfitrião. “O presidente Castro sempre brinca comigo sobre como os discursos dos irmãos Castro podem ser longos”, disse Obama. Segundo ele, o seu provavelmente seria mais longo. “Temos meio século para recuperar.”

Mais conteúdo sobre:
CubaEUARaúl CastroBarack Obama

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.