Líder curdo pede fim da luta armada com turcos

Abdullah Ocalan diz que guerrilheiros do PKK devem buscar negociação política

ANCARA, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h14

O líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, Abdullah Ocalan, pediu ontem o fim da luta armada contra o governo turco, após 30 anos de confronto, e pediu uma solução política para o conflito. A medida foi bem recebida pelas autoridades de Ancara, que elogiaram a linguagem pacífica do líder guerrilheiro e prometeram uma trégua, desde que o PKK cumpra sua promessa.

"Vamos deixar as armas se calarem. Vamos deixar as ideias falarem", pediu Ocalan em uma carta escrita na prisão e lida pelo deputado Sirri Sureyya Onder a milhares de pessoas que celebravam o ano-novo curdo em Diyarbakir, no sudeste da Turquia. Ele pediu a todos os combatentes do PKK - considerado um grupo terrorista por Ancara, pelos Estados Unidos e pela União Europeia - que deixem o país.

Na carta, o líder pediu a organização de uma conferência regional sobre a questão turca, com representantes de outros países que também abrigam a etnia, como o Iraque e a Síria.

A carta de Ocalan é o desdobramento mais recente de uma série de esforços do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, para pôr fim ao conflito, que já deixou mais de 30 mil mortos. Para analistas, o premiê rompeu um tabu ao patrocinar conversas com o líder do PKK. Parte da população turca vê com ressalvas concessões aos rebeldes. Pesquisas indicam que dois em cada três turcos se opõem às negociações.

Em conversas com parlamentares de origem curda, no mês passado, Ocalan delineou planos para estabelecer uma Comissão da Verdade e o direito de retorno a moradores de vilarejos curdos. De acordo com o jornal Milliyet, o plano turco inclui direitos coletivos e uma reforma da lei para os curdos. Apesar disso, Ancara não permitiria que a etnia fosse além e exigisse autonomia. Caso as negociações falhem, segundo o jornal, Ocalan não descarta a possibilidade de um retorno à violência.

Reações. O ministro do Interior da Turquia, Muamer Güler, demonstrou satisfação com a declaração de Ocalan. "Utilizou a linguagem da paz. Temos de ver agora ele a colocar em prática", disse o ministro, segundo a agência Anatólia.

Em visita à Holanda, Erdogan disse ver o pedido de Ocalan como um desenvolvimento positivo, mas ressaltou a importância de colocá-lo em prática. "Precisamos ver até que ponto os rebeldes responderão", disse o primeiro-ministro, que qualificou o uso de bandeiras curdas em manifestações no Curdistão de "ato provocativo".

O PKK, por sua vez, prometeu acatar o pedido de Ocalan, apesar de deixar claro que continua preparado para o combate. "Todos têm de saber que o PKK está preparado tanto para a paz quanto para a guerra. Nesse marco, vamos cumprir com determinação o processo iniciado por Apo (nome de guerra de Ocalan)", disse o comandante militar do PKK, Murat Karavilan, de uma base guerrilheira no norte do Iraque.

Os curdos constituem uma das maiores etnias sem Estado do planeta. Muçulmanos encravados entre territórios árabes e turcos, vivem em áreas da Turquia, Síria e do Iraque, onde foram sistematicamente perseguidos pelo regime de Saddam Hussein.

Na Turquia, lutam há três décadas pela constituição de um Estado independente, o Curdistão. / AP e AFP

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