Norberto Duarte /AFP
Norberto Duarte /AFP

Polícia paraguaia mata líder de grupo que queimou Congresso e prende 200

Rodrigo Quintana, da juventude do Partido Liberal Radical Autêntico, levou 8 tiros em ação policial após protesto contra manobra parlamentar por reeleição presidencial; governo ataca imprensa e opositores e detém policial suspeito

O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 08h27
Atualizado 01 Abril 2017 | 13h57

ASSUNÇÃO - O presidente da juventude do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) do Paraguai, Rodrigo Quintana, de 25 anos, foi morto com oito tiros em uma operação policial na madrugada deste sábado, 1º, durante a repressão a um ato em Assunção contra uma manobra para permitir a reeleição presidencial. Os confrontos entre policiais e o grupo opositor deixaram mais de 30 feridos e ao menos 200 pessoas foram detidas.

O presidente do PLRA, Efraín Alegre - que lidera a oposição à emenda constitucional sobre a reeleição -, informou que Quintana foi baleado por policiais na sede do partido, no centro da capital, onde se refugiou durante os distúrbios. Alegre disse que a polícia invadiu “de forma bárbara o local”, no centro de Assunção, e disparou contra os manifestantes.

“(Os policiais) entraram na sede do partido e procuravam de maneira muito insistente pelo meu escritório. Foi selvagem o que fizeram. Nem (Alfredo) Stroessner agiu assim”, disse à rádio ABC Cardinal, se referindo ao ditador que governou o país por 35 anos, de 1954 a 1989.

O diretor do Hospital de Traumas de Assunção, Aníbal Filártiga, afirmou à imprensa local que 36 pessoas com vários tipos de ferimentos causados por balas de borracha foram atendidas depois da manifestação. “Eles tiveram ferimentos superficiais, ferimentos por projéteis de bela de borracha. Também atendemos uma mulher com uma fratura”, disse o médico.

“No caso de Quintana, (o ferimento fatal) não foi causado por bala de borracha. Ele morreu com um ferimento na cabeça e outros no tórax causados por uma arma de fogo. O ferimento na cabeça e os oito ferimentos no tórax e nas costas causaram a hemorragia que resultou na mote”, explicou, em entrevista à rádio 970 AM.

Dilan Carreras, uma testemunha da ação da polícia na sede do PLRA, disse ao jornal ABC Color que o tiro fatal que atingiu Quintana foi disparado por um agente que estava atrás dele. “Quando pediram que se levantasse, já não se movia. Deram um chute para ele levantar e, ao notarem que ele estava morto, deixaram o lugar”, disse Carreras. A testemunha disse também que os policiais não prestaram nenhum tipo de socorro ao dirigente da juventude do partido enquanto ele agonizava no chão.

A procuradora María Raquel Fernández informou ontem que o policial Arnaldo Andrés Báez, suposto autor dos disparos contra Quintana, foi preso preventivamente. Ela explicou que várias testemunhas na sede do partido disseram que Báez era o responsável pela morte do líder político.

O Ministério do Interior do Paraguai afirmou que as autoridades “investigam as circunstância da morte supostamente causada por um membro da Polícia Nacional” durante os protestos. “Vamos esclarecer totalmente o ocorrido e os responsáveis serão colocados à disposição da Justiça”, informou.

Uma equipe do Ministério Público também será integrada às investigações da morte de Quintana. “O procurador-geral do Estado, Javier Díaz Verón, afirmou que uma equipe se preparou para otimizar as tarefas de investigação dos acontecimentos”, disse o MP.

Violência. Os protestos no Paraguai se intensificaram na sexta-feira depois que 25 senadores votaram a favor do projeto de emenda constitucional nas dependências da Frente Guasú, do ex-presidente Fernando Lugo, e sem a presença dos demais legisladores e do presidente do Senado, Roberto Acevedo.

Os membros do PRLA coordenavam as manifestações que terminaram com distúrbios no centro da capital, além da destruição e do incêndio de parte do Congresso. Os incidentes mais violentos tiveram início na Praça de Armas, ao lado do Congresso. Os bombeiros controlaram as chamas no local, que teve grandes danos materiais, e em seguida, os manifestantes foram para as imediações do Panteão Nacional dos Heróis, também no centro histórico da capital paraguaia.

Na noite de sexta, o presidente Horacio Cartes qualificou como “bárbaros” os manifestantes que protestavam perto do Congresso e responsabilizou “um grupo de paraguaios enraizados na política e nos meios de comunicação com o objetivo de destruir a democracia e a estabilidade política e econômica” pelos acontecimentos.

“A democracia não se conquista nem se defende com violência”, escreveu Cartes em sua conta no Twitter, onde também confirmou a “vigência do Estado de direito” no país.

Depois da onda de violência, o Paraguai amanheceu ontem com um forte esquema de segurança na capital, especialmente nos arredores do Congresso, onde centenas de policiais cercavam o edifício para evitar novos atos de vandalismo. Militares também reforçaram a guarda no Palácio de Governo, a dois quarteirões do Legislativo.

Ao mesmo tempo, milhares de ativistas contrário à volta da reeleição chegavam em Assunção vindos de várias cidades do interior, sinalizando que a onda de protestos contra a emenda à Constituição deve continuar nos próximos dias. / AFP, EFE e REUTERS

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