Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Líder da oposição venezuelana pede ‘ingerência humanitária’ internacional

Em entrevista, Antonio Ledezma afirma que ‘tempo da diplomacia contemplativa já acabou’ e ressalta que a ‘Venezuela é uma ameaça para o continente’

Entrevista com

Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2018 | 12h12

GENEBRA - Antonio Ledezma, um dos principais nomes da oposição venezuelana e ex-prefeito de Caracas, pede uma “ingerência humanitária” em seu país, acatada pela comunidade internacional e seguida por um governo de “transição”. “O tempo da diplomacia contemplativa já acabou”, declarou.

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O político escapou da Venezuela em novembro de 2017, passando pela Colômbia e se refugiando na Espanha. Seu trajeto é mantido em sigilo, mas ele garante que foi ajudado por “militares venezuelanos e por um terço” que até hoje leva consigo. Ledezma admitiu que chegou a planejar uma fuga por Boa Vista, porém optou pela fronteira com a Colômbia.

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Ele foi afastado da prefeitura de Caracas em 2015 e preso, sob a alegação de ter tentado organizar um golpe contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Ele acabou sendo transferido meses depois à prisão domiciliar, mas escapou há quatro meses.

De passagem por Genebra para falar com a ONU sobre a necessidade de uma “intervenção”, ele conversou com o Estado e falou sobre a situação em seu país, deixando claro que é contrário a qualquer participação da oposição nas eleições programadas pelo governo chavista para abril. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

A oposição boicotará as eleições convocadas por Maduro em abril?

Acho que a palavra certa não é boicote, mas sim desconhecer. Isso não é uma eleição. Isso é uma jogada que se soma a uma série de fraudes. Maduro vem castigando a vontade do povo. O que o regime faz é roubar a opinião das pessoas por meio do voto.

Mas deixar que a votação ocorra sem a participação da oposição não deixaria a via livre para mais quatro anos de Maduro no poder?

Não. O que o regime quer é se oxigenar com a boa fé das pessoas. Por isso, o governo ganhou tempo com o diálogo na República Dominicana. Não era um dialogo, era um monólogo. O que ocorreu ali foi uma paródia de uma negociação. Eles se burlaram até mesmo do papa Francisco. Fala-se de quatro pontos que teriam de ser cumpridos. Entre eles, estavam eleições livres, respeito pela divisão dos poderes e liberdade dos presos políticos. Nada disso existe hoje. Temos mais presos políticos que antes de a negociação começar. Também se falava em aceitar um canal humanitário, que o governo rejeitou.

Qual é a dimensão de apoio que hoje Maduro teria em uma eleição livre?

Não passaria de 20%. E parte disso em razão das pressões e ameaças.

Qual a situação humanitária hoje?

O governo prefere que as pessoas morram de fome a admitir que seu plano para a pátria fracassou. Por isso, a ajuda humanitária não chega. Na Venezuela, hoje está se materializando um genocídio. Maduro sabe que pacientes de câncer morrem gritando. Não há calmantes para doentes terminais. Não há morfina, não há remédios. A narco-tirania desenvolveu uma repressão sistemática e se transformou em uma política de Estado, assim como também é a corrupção. Na República Dominicana, se falou muito em conseguir eleições livres. Por isso o processo não avançou por lá.  

Foi dito que o processo negociador estava perto de um acordo.

Isso nunca foi assim. O governo se aproveitou da boa fé de parte da oposição venezuelana que arriscou o seu prestígio. O que o governo fez foi confundir a opinião pública, inicialmente aceitando que se falaria de quatro pontos principais. Isso acabou desmobilizando as pessoas. Os protestos foram suspensos e os debates foram interrompidos para aguardar o processo negociador. Mas nada foi cumprido. Presos políticos não foram liberados, repressão é maior e eleição é uma fraude.  

O sr. defende uma investigação internacional?

Isso nem é mais necessário e disse isso ao alto comissário de Direitos Humanos da ONU, Zeid Al-Hussein. As pessoas estão morrendo por não haver remédios de tratamento de diabete. As crianças com câncer não têm nem mesmo os cremes para aliviar a pele. Em média, seis crianças morrem por semana na Venezuela por falta de alimentos. Temos 1,2 milhão de pessoas vivendo em uma situação crônica. Doenças que tínhamos vencido voltaram com força, como a dengue e tantas outras. Foram 320 mil casos de malária em 2017. E isso sem contar a explosão da violência. Hoje, na Venezuela, quem não morre de fome, morre por falta de remédios ou nas mãos da repressão. Existe um genocídio e, por isso, acredito que estamos falando de uma situação que dá brecha para o princípio de que o direito à autodeterminação dos povos ceda ao princípio da ingerência humanitária. Na Venezuela, precisamos de uma ingerência humanitária urgente. Temos de fazer a pergunta sobre o motivo pelo qual não há remédios por lá. Os ministros de Saúde recebiam até US$ 600 milhões para comprar remédios. Esse dinheiro sumiu. Em um dos países mais ricos em petróleo no mundo, morre-se hoje de fome.

Mas essa ingerência envolveria uma intervenção militar?

A Venezuela está sitiada militarmente, invadida pelos interesses cubanos, pela máfia e pelo narcotráfico. Precisamos de uma ingerência humanitária, da forma pela qual está determinada pelos tratados internacionais. Fiquei mil dias preso. Tantos outros continuam presos e 30 milhões de pessoas estão sequestradas pela narco-tirania. Precisamos de um resgate.

Mas, na prática, como isso ocorreria?

Sempre dentro das normas internacionais. O que eu digo é que o tempo da diplomacia contemplativa acabou. A diplomacia de pêsames se esgotou. Agora, precisamos de uma diplomacia que impeça que os crimes continuem a ser cometidos. Queremos agora que a ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos) marquem um passo significativo. Os detalhes de como isso ocorreria não compete a mim. Obviamente que uma ingerência humanitária precisa de toda uma logística. O que estamos vivendo é pior que Saddam Hussein, pior que (Muamar) Kadafi. A Venezuela é um problema internacional e uma ameaça para o continente. Dali, saem hoje terroristas com passaportes dados pelo governo.

E o que o sr. defende que se faça diante do apoio militar a Maduro dentro do país?

A eles eu digo uma coisa: vocês não se olham no espelho? Não veem avós enterrando seus netos? O que eles precisam fazer é respeitar a Constituição. Apenas isso. Olha, foram militares que me ajudaram a escapar. Muitos, porém, têm medo de represálias e dos infiltrados cubanos nos quartéis. Queremos que haja uma atuação internacional para que isso tudo acabe. Se a comunidade internacional vê como os venezuelanos estão morrendo e não faz nada, ela também é responsável.

Existe resistência a esse caminho na América do Sul. O Grupo de Lima, por exemplo, deixou muito claro que era contra qualquer tipo de intervenção quando o assunto foi levantado pelo governo americano.

Eles estavam dando oportunidade para que houvesse algum avanço nas negociações na República Dominicana. A região precisa deixar essa diplomacia contemplativa para tomar medidas, como fez o Peru ao não convidar Maduro para a cúpula regional. Com uma ingerência humanitária, poderia se estabelecer os termos para a instalação de um governo de transição.

Qual seria seu pedido ao governo brasileiro sobre a situação de imigrantes e refugiados na fronteira com Roraima?

Tenho conversado com a chancelaria brasileira. O que pedimos é um mecanismo de regularização temporária para essas pessoas.

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