William Fernando Martinez/AP
William Fernando Martinez/AP

Líder das Farc morto fugia de forma paranoica

Investigadores dizem que Alfonso Cano suspeitava até de rastreadores em botas; planejamento da operação foi feito pelo grupo que resgatou Ingrid

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h05

BOGOTÁ - Fontes do grupo de inteligência do Exército colombiano revelaram que o líder supremo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Alfonso Cano, morto na sexta-feira, 4, viveu os últimos meses de forma paranoica. Achava que os poucos guerrilheiros que lhe acompanhavam tinham rastreadores nos sapatos, e decidiu raspar a barba que ele havia mantido por mais de 40 anos para mudar sua aparência.

Os investigadores disseram ao jornal colombiano El Tiempo que os homens que planejaram a operação que matou Cano foram os mesmos que participaram do resgate da ex-candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt e três americanos em 2008.

Segundo o grupo, os movimentos de Cano eram acompanhados de perto desde o meio do ano passado. Na mesma época, o então chefe militar da guerrilha, Mono Jojoy, foi morto. Após uma nova investida do Exército em dezembro, Cano abriu mão dos 300 homens que formavam os 3 anéis de segurança.

Apenas 25 guerrilheiros acompanharam o líder das Farc até maio. Com a perseguição militar, Cano optou por manter apenas dez homens de sua confiança, sua mulher Patrícia e dois cachorros. Com o grupo menor, era possível mudar mais vezes de acampamento, e grande parte dos pertences eram deixados para trás.

Em junho, Cano conseguiu escapar de uma nova ofensiva do Exército, fugindo cerca de 12 horas antes do ataque militar. O grupo abandonou todos os pertences. Na ocasião, o presidente Juan Manuel Santos confirmou que Cano teria dormido no acampamento no dia da ação militar, e revelou que a localização do chefe da guerrilha havia sido dada por um integrante das Farc.

Os investigadores afirmaram que apenas três comandantes da guerrilha sabiam detalhes das movimentações de Cano após o ataque do Exército. Foi quando o líder das Farc obrigou os guerrilheiros a se desfazerem de suas botas, suspeitando de rastreadores. "O desespero de Cano aumentou, e foi nesse momento que ele começou a cometer erros", disse um dos responsáveis pela operação.

Segundo a fonte consultada pelo jornal, ao tirar a barba, Cano perdeu a estabilidade emocional e afetou o grupo que o acompanhava. "Os guerrilheiros começaram a pensar na desmobilização. Nesse momento, o grupo fugia apenas com duas mudas de roupa", relatou. O comandante supremo das Farc deixou de ser identificado pelo nome, e sua segurança dependia totalmente dos homens que o acompanhavam. "Estava submisso, já não comandava a situação."

Os homens do grupo de inteligência perceberam a hora de agir quando Cano pediu aos guerrilheiros que organizassem melhor o rancho, já que ele pensava em viver no local por seis meses.

Cadáver. O corpo de Cano permanece no Instituto Médico Legal de Bogotá e será entregue aos parentes nos próximos dias. Eles não poderão cremar o corpo do líder guerrilheiro, e a localização do sepultamento deverá ser revelada ao governo. / AP

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