Frank Van Beek / ONU / ICJ / AFP
Frank Van Beek / ONU / ICJ / AFP

Líder de Mianmar defende Exército e nega tentativa de genocídio contra rohingyas

Aung San Suu Kyi admite na Corte Internacional de Justiça que militares podem ter feito ‘uso desproporcional da força’, mas que isso não é prova de que tentavam aniquilar o grupo

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 09h24

HAIA, HOLANDA - Aung San Suu Kyi, que já foi considerada um ícone da democracia em Mianmar, negou nesta quarta-feira, 11, na Corte Internacional de Justiça (CIJ) qualquer "tentativa de genocídio" durante os excessos cometidos contra a minoria muçulmana rohingya em seu país.

A líder admitiu aos juízes do tribunal com sede em Haia que o Exército pode ter feito um "uso desproporcional da força", mas afirmou que isso não é prova de que tentava aniquilar o grupo.

"Certamente, nas circunstâncias, a tentativa de genocídio não pode ser a única hipótese", disse a ganhadora do prêmio Nobel da Paz de 1991 em uma audiência na qual defendeu os interesses de Mianmar, país acusado de genocídio.

Na terça, primeiro dia de audiências, Aung San Suu Kyi ouviu os pedidos de Gâmbia, em nome dos países muçulmanos, para que Mianmar "cesse o genocídio" contra os rohingyas.

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"Lamentavelmente, Gâmbia apresentou à Corte uma fotografia incompleta e enganosa da situação no Estado de Rakhine", declarou a líder.

Violação de tratado internacional

Desde agosto de 2017, quase 740 mil rohingyas buscaram refúgio em Bangladesh para escapar dos abusos do Exército birmanês e das milícias budistas, chamados de "genocídio" por investigadores da ONU.

Gâmbia, em nome dos 57 Estados membros da Organização da Cooperação Islâmica, iniciou uma ação judicial contra o país do sudeste asiático, por considerar que Mianmar violou a Convenção para a Prevenção e Sanção do Delito de Genocídio, um tratado do direito internacional aprovado em 1948.

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Quase 250 simpatizantes de Aung San se reuniram diante do Palácio da Paz de Haia com cartazes com o rosto dela e a frase "Estamos do seu lado".

Imagem arranhada

A imagem da líder de 74 anos, que em um passado não muito distante era mencionada ao lado de grandes nomes como Nelson Mandela e Mahatma Gandhi, foi consideravelmente arranhada desde que ela ficou ao lado dos generais do Exército de seu país. Mesmo assim, ela tem um grande apoio em seu território.

A Nobel da Paz quer demonstrar que a CIJ não tem competência no caso, que o Exército birmanês atacou apenas os rebeldes rohingyas e que o país é perfeitamente capaz de fazer sua própria investigação.

Na terça-feira, o ministro gambiano da Justiça, Abubacarr Tambadou, declarou à imprensa que ficaria muito decepcionado se Aung San Suu Kyi negasse novamente qualquer ato condenável contra os rohingyas.

Gâmbia pede à CIJ - principal órgão judicial da ONU -, criada em 1946 para solucionar as divergências entre Estados-membros e ordenar medidas urgentes para acabar com os "atos de genocídio em curso", enquanto a questão é debatida. O veredicto final pode demorar anos.

Sanções americanas

Horas depois da primeira audiência, o governo dos Estados Unidos reforçou as sanções contra o comandante do Exército birmanês pelos assassinatos em grande escala de muçulmanos rohingyas.

As novas sanções do Tesouro preveem o congelamento de seus possíveis ativos em território americano e impedem qualquer transação com cidadãos dos EUA.

O comandante do Exército, Min Aung Hlaing, seu segundo em comando, Soe Win, e os generais Than Oo e Aung Aung já estavam proibidos de entrar nos EUA desde julho por seu papel na "limpeza étnica" da minoria rohingya, denunciada pelo governo de Donald Trump.

A CIJ estabeleceu o delito de genocídio em apenas uma ocasião: o massacre de 8 mil homens e crianças muçulmanas em 1995 na localidade de Srebrenica, na Bósnia. / AFP

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