AFP PHOTO / Ye Aung THU
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Líder de Mianmar diz que ‘sente profundamente’ o sofrimento dos envolvidos no conflito no país

Em sua primeira declaração sobre a crise humanitária que afeta os muçulmanos da minoria rohingya, Aung San Suu Kyi condenou ‘as violações dos direitos humanos e a violência ilegal’

O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2017 | 10h51

NAYPYIDAW, MIANMAR - A líder de Mianmar, Aung San Suu Kyi, disse nesta terça-feira, 19, que "sente profundamente" o sofrimento de "todas as pessoas" envolvidas no conflito em Mianmar, em sua primeira declaração sobre a crise humanitária que afeta os muçulmanos da minoria rohingya, deslocados pela violência.

"Estamos preocupados após escutar sobre o volume de muçulmanos que fugiram para Bangladesh", disse Suu Kyi em um discurso em uma emissora de televisão, no qual "condenou as violações dos direitos humanos e a violência ilegal", que podem ter exacerbado a crise.  

"Estamos profundamente desolados com o sofrimento de todas as pessoas envolvidas neste conflito", declarou a líder birmanesa, citando tanto os rohingyas como a população budista que foge de suas vilas na zona do conflito.

"Não desejamos que Mianmar se divida entre crenças religiosas", afirmou Suu Kyi, criticada pela comunidade internacional por sua omissão diante da crise envolvendo a minoria muçulmana.

No mesmo discurso, ela declarou que seu país está pronto para verificar o status dos 410 mil rohingyas que fugiram, visando "ajudar no retorno de quem tiver o direito de se reassentar”. "Estamos preparados para iniciar o processo de verificação a qualquer momento", disse, em referência aos que fugiram para Bangladesh em um êxodo sem precedentes.

No sábado, o governo havia anunciado que não aceitaria a volta daqueles que partiram, considerando-os cúmplices dos rebeldes rohingyas. "Condenamos todas as violações dos direitos humanos", destacou Aung San Suu Ky em seu discurso desta terça-feira, no qual não condenou a ação do Exército, acusado de incendiar vilas e atirar contra civis rohingyas.

"As forças de segurança receberam instruções para adotar todas as medidas visando evitar danos colaterais e impedir que civis sejam atingidos" durante as operações antiterroristas. Até o momento, ela havia manifestado apoio incondicional ao Exército, acusado de cometer abusos sob a cobertura de uma operação antiterrorista. A ONU denuncia uma "limpeza étnica" realizada em Mianmar, iniciada pelo Exército há mais de três semanas.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), que cita o governo de Bangladesh, entre os cerca de 412 mil rohingyas que fugiram para o país, há 70 mil mulheres grávidas ou que acabaram de dar à luz.

Em três semanas, criou-se um dos maiores campos de refugiados do mundo e as autoridades locais e ONGs, que estão sobrecarregadas, lutam para ajudar os recém-chegados.

Direitos humanos

Os investigadores da ONU sobre a situação dos direitos humanos em Mianmar reiteraram nesta terça-feira a demanda de "acesso completo e sem obstáculos" ao país, onde, segundo eles, há uma grave crise humanitária.

"É importante que possamos ver com nossos próprios olhos os lugares onde aconteceram as supostas violações e conversar com as pessoas afetadas e as autoridades", declarou o presidente da missão, Marzuki Darusman, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra.

"Aproveito esta oportunidade para reiterar nosso pedido de cooperação dirigido ao governo de Mianmar, sobretudo com acesso ao país", disse, antes de especificar que este deve ser "completo e sem obstáculos".

A missão de investigação da ONU foi aprovada em março por meio de uma resolução, por consenso, do Conselho de Direitos Humanos. Alguns países, como Índia e China, afirmaram no entanto que não estavam associados à resolução.

Mianmar criticou a criação da missão das Nações Unidas, que chamou de "inaceitável", enquanto o embaixador birmanês no Conselho, Htin Lynn, reiterou que ela "não era útil para resolver o problema do Estado de Rakhine".

A rejeição aos rohingyas, considerados estrangeiros ilegais em Mianmar, país cuja população é mais de 90% budista, é muito difundida entre a população local. Desde que a nacionalidade birmanesa lhes foi retirada, em 1982, os rohingyas estão sujeitos a inúmeras restrições: não podem viajar ou se casar sem autorização, e não têm acesso ao mercado de trabalho ou a serviços públicos, como escolas e hospitais. / AFP

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