Líder deveria seguir exemplo de Eisenhower

É possível perdoar um presidente por não conseguir compreender o presente ou prever o futuro, mas é mais difícil perdoar uma ausência total de interesse pelo passado. O governo de George W. Bush mostrou um desinteresse peculiar pelas presidências republicanas anteriores, que podem ensinar muita coisa. O próprio pai do presidente é um bom exemplo de saber o momento de parar, como quando ele decidiu, sabiamente, não avançar para Bagdá. Ronald Reagan provou o imenso poder da retórica elevada. Richard Nixon ofereceu um exemplo perfeito dos perigos de continuar insistindo numa guerra impopular. Mas é em Dwight D. Eisenhower (conhecido como Ike) que os republicanos devem buscar o exemplo de uma sabedoria política sensata, que deveria ser adotada nos dias de hoje. Parte da grande popularidade de Ike teve origem com a sua promessa de campanha, em 1952, de que, se eleito, seguiria para a Coréia para ver pessoalmente o que estava acontecendo. Isso enfureceu Harry Truman: se Ike tinha um plano para acabar com a guerra, disse Truman, era seu dever oferecê-lo ao presidente. Ike ignorou Truman, foi à Coréia, viu o que se passava e, com o olhar agudo de um general cinco-estrelas, sondou o terreno hostil. E, segundo ele, aquela não era uma guerra que pudesse ser vencida, não sem o uso de armas atômicas, ou enquanto os chineses estivessem dispostos a continuar lutando. Ike voltou aos Estados Unidos e encerrou a Guerra da Coréia em cerca de seis meses, com um armistício que vigora até hoje. Em resumo, ele entendeu que, se você não pode vencer uma guerra, quanto mais rápido sair dela, melhor. E respondeu às críticas vindas da ala direita de seu próprio partido, dizendo apenas: "A guerra acabou e espero que meu filho em breve volte para casa." Ike comandou, com sucesso, a Operação Tocha, de invasão do norte da África, a Operação Husky, na Sicília, a Operação Overlord, nome de código da invasão da Normandia; e serviu como comandante supremo da Otan. Mas, do mesmo modo que Ulysses Grant, Ike acreditava firmemente que as forças americanas nunca deveriam entrar numa guerra sem ter uma estratégia militar para a vitória, as tropas e a logística necessárias para vencer e um comandante supremo com absoluta autoridade. Na visão dele, se um general recebesse tudo o que exigisse e não conseguisse a vitória, deveria ser destituído. Mas, em nenhuma circunstância, ele deveria ser obrigado a seguir uma estratégia apresentada por um "comitê", ou ser controlado nos mínimos detalhes pelo Pentágono ou a Casa Branca. As ordens de Ike na Operação Overlord foram apenas: "Entre no continente europeu e, em conjunto com as outras nações unidas, realize operações direcionadas ao coração da Alemanha e à destruição das suas Forças Armadas." O resto ficaria por conta de Ike. COMANDO UNIFICADOAlém disso, ele estava convencido de que o comandante supremo tinha de ter o comando unificado das forças de terra, mar e ar de todos os países aliados. Por exemplo, durante a 2ª Guerra Mundial, quando os "bomber barons" (esquadrões de elite dos pilotos de bombardeiros) dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha tentaram reter o controle de seus bombardeiros pesados, Ike ameaçou Winston Churchill, dizendo que abandonaria o comando e voltaria para casa. Os pilotos desistiram. Em resumo, Eisenhower entendeu o uso da força. Ele teria considerado absurdo tentar controlar um país do tamanho do Iraque, no meio de uma guerra civil, com 160 mil soldados. Se você precisa usar a força, deve ter o suficiente dela para fazer o trabalho rápida e completamente. Depois, precisa trazer os soldados para casa, deixando o resto para políticos e diplomatas. Esse era o modo de guerrear americano, como Ike e Grant entendiam. Eisenhower foi bastante perspicaz quando evitou envolver-se na guerra da França na Indochina. "Ninguém se opõe mais ao envolvimento dos Estados Unidos numa guerra aberta nessa região do que eu", disse ele. No caso do Oriente Médio, opiniões expressadas por Ike também foram prenúncios: os Estados Unidos não tinham nenhum direito de se transformar em "potência de ocupação num mundo árabe em plena agitação". Ele assinalou que, se um dia fizesse isso, com certeza os americanos iriam lamentar depois. Existe uma razão pela qual os americanos "gostam de Ike". Como um dos maiores generais dos Estados Unidos, ele deu ao país algumas das mais cruciais vitórias militares. E, como presidente, entre outros benefícios, deu-nos oito anos de paz. (O segundo volume das suas memórias presidenciais é Waging Peace, "Fazendo a paz", em tradução livre). Nenhum homem eleito presidente, salvo talvez Grant, sabia melhor como guerrear - ou compreender o senso comum básico de nunca ir à luta se não se pode vencer, ou nunca entrar numa guerra da qual não se consegue sair. Talvez seja o momento de alguém na Casa Branca (e no Pentágono) ler o livro Crusade in Europe ("Cruzada na Europa"), de Eisenhower, e aprender com um grande republicano alguma coisa sobre comando e estratégia.* Michael Korda é autor da biografia ?Ike: an American Hero? (Ike: um herói americano). Escreveu este artigo para ?Los Angeles Times?

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